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8.10.21

Escola tem projeto selecionado




Alunos e alunas da E. E. Luiz Salgado Lima irão participar de um projeto de iniciação científica, aprovado pela Secretaria de Estado de Educação (a lista dos projetos aprovados está disponível aqui).


A iniciativa terá duração de dez meses e a previsão de diversas atividades com o objetivo de  fomentar o protagonismo juvenil e o desenvolvimento de competências e habilidades inerentes à pesquisa.

O projeto da escola abordará a História Local, com o título: "Caso de saúde: o quadro geral de Leopoldina, na zona da Mata mineira, sob a ótica do médico-sanitarista Irineu Lisbôa, nos anos 1910-1930".

19.3.20

A varíola nas páginas da Gazeta de Leopoldina (1933)

Oficialmente, a varíola foi erradicada na década de 1980.

Antes disso, a doença matou milhões de pessoas em várias partes do mundo. No Brasil, ela fez incontáveis vítimas.

Em 1904, o médico-sanitarista Oswaldo Cruz tentou implementar a vacinação obrigatória contra a varíola. O fato revoltou a população do Rio de Janeiro e desencadeou um levante popular contra as autoridades - a Revolta da Vacina.

Nos anos 1930, a doença atingiu as populações de várias cidades da Zona da Mata mineira. O jornal "Gazeta de Leopoldina", de propriedade da família Monteiro Ribeiro Junqueira, acompanhou o drama da região e noticiou o problema, em várias edições de julho e outubro de 1933.
Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira, político e diretor da Gazeta de Leopoldina.

O periódico alertava os leitores sobre o risco da doença, descrevia seus terríveis sintomas e defendia a vacinação da população para prevenir que a moléstia atingisse Leopoldina.

O contágio se propagava rapidamente, Muriaé,  Caratinga e Ubá foram atingidas e a "Gazeta" cobrava atenção aos distritos próximos do ramal de Carangola. Quando havia surtos de epidemias, como os de cólera e a varíola,  o transporte ferroviário era interrompido, mesmo que trouxesse prejuízos para o comércio e problemas de abastecimento.

Quando o município de Caratinga foi atingido pela varíola, a publicação da Gazeta destacou o fato e cobrou urgência para conter a epidemia: 

"Urge que para ali, num esforço pertinaz, se volvam as vistas das autoridades sanitarias do Estado, afim de evitar que o mal se propague a outras regiões". 

O jornal, por fim, advogava a urgência de aumentar a disponibilidade dos tubos de linfas, para que mais pessoas pudessem ser imunizadas pelas autoridades do Posto de Higiene de Leopoldina. Exortava a todos que se vacinassem para evitar a propagação do mal e atacava aqueles os críticos da vacina: 

"São tolos, prejudiciais, desprovidos de fundamentos e até antipatrioticos os boatos que certas pessoas ignorantes se aprazem em espalhar sobre os perigos da vacinação.
Esta, feita com técnica, não oferece o menor perigo e constitue garantia segura e duradoura contra a variola".

A vacinação, para o Dr. Domingos Justino Ribeiro, chefe do Posto de Higiene de Leopoldina em 1933, era um dever e um ato patriótico. O médico argumentava que a doença "céga, depaupera, mata e deforma", por isso os pais deveriam vacinar seus filhos a partir dos três meses de idade, sob risco de vê-los sucumbir ante o terrível morbus.

Por fim, o jornal não deixou de cobrar do diretor geral de saúde pública que zelasse pela manutenção do estoque de vacinas nos postos e subpostos de saúde, espalhados por Leopoldina e cidades vizinhas. A falta de linfas era uma realidade, não havia vacinas suficientes para imunizar toda a população. Por isso, a Gazeta endossava e reforçava o pedido do chefe do posto local ao diretor geral: "Nesse sentido fazemos a s. s. caloroso apêlo, esperando que não seja procrastinado o expediente da remessa para o posto local das doses pedidas pelo ilustre chefe do serviço".  

O fato é que o veículo de comunicação procurava sensibilizar seus leitores acerca da importância da vacinação. Esforçava-se para conscientizar a todos e, assim, evitar uma epidemia em Leopoldina. A autoridade médica local também tinha uma postura pedagógica, fazendo visitas às escolas, fábricas e publicando notas na imprensa. A violenta Revolta da Vacina em 1904 mostrou às autoridades sanitárias que a obrigatoriedade da vacinação e a truculência com a qual os agentes de saúde tratavam o povo deveria ser substituída por medidas de conscientização, as quais passavam pelo aumento do diálogo e do poder do convencimento.  





25.12.19

Sebastião Águido Lacerda (1927-2019)

Leia a matéria completa no portal do Leopoldinense.


O crepúsculo do dia 23 de dezembro de 2019 foi mais triste em Leopoldina com a perda de um de seus ilustres cidadãos - o senhor Sebastião Águido Lacerda.

Natural de Vista Alegre, distrito de Cataguases, foi criado na roça junto com vinte e cinco irmãos. Trabalhava com seu pai na lavoura, cultivando milho e feijão para a subsistência da família. Porém, Sebastião tinha outros sonhos e, ainda jovem, tomou o trem em direção a Leopoldina, onde permanecerá até o fim de sua admirável vida.

Chegando a Leopoldina, trabalhou em estabelecimentos comerciais até ser aprovado em concorrido concurso para uma vaga no Banco Ribeiro Junqueira. Era um exímio datilógrafo e fazia cálculos de juros e porcentagem mentalmente com precisão, sem auxílio de máquinas de calcular.

Após a experiência no Banco Ribeiro Junqueira, decidiu abrir seu próprio negócio de "Secos e Molhados", junto com o seu irmão, senhor Honório Lacerda. Com aptidão para os negócios e o sucesso comercial, fundaram, bem no coração da cidade, o Lacerdão, um investimento ousado no setor de comércio de gêneros alimentícios. 

O Lacerdão ocupava boa parte de um quarteirão no centro da cidade, tinha loja e sobreloja e gerou centenas de empregos, abastecendo toda a cidade e seus distritos.

Sebastião Lacerda foi um homem com hábitos peculiares, atribuía sua longevidade e saúde a certos ritos, como tomar banho com água fria, alimentar-se bem, fazer refeições leves, dormir sem cobertor, levantar cedo e fazer caminhadas matinais. Gabava-se de jamais ter pegado um resfriado, tinha uma saúde de ferro!

Com o sucesso profissional meteórico, acabou sendo vítima, inúmeras ocasiões, da violência urbana, tornando-se alvo de criminosos. Por diversas vezes, sua casa foi invadida, veículos foram roubados, bens foram levados e chegou até a ficar um tempo sob cárcere privado de bandidos. Nada disso alterou sua personalidade serena, jamais testemunhei um arroubo de sua parte em prol de vingança contra os seus algozes, era um pacifista.

Homem sábio, parafraseava, inconscientemente, os grandes filósofos gregos da Antiguidade ao nos ensinar que o homem que não toma o controle de si mesmo, de suas vontades e de seus desejos, é um homem perdido. Também parafraseava  o grande pensador medieval cristão, Santo Agostinho, quando afirmava que era necessário deixar a mesa com fome, pois comida em excesso faz mal. Em suma, tinha sensibilidade e um pensamento sofisticado graças à sua personalidade ímpar.

Amante de música, patrocinou, por muitos anos, a banda musical da cidade, a qual alegrava a todos nos domingos à tarde. Confidenciou a mim, em prazerosa conversa, que tirava dinheiro do próprio bolso para custear instrumentos musicais, uniformes e lanche para os músicos. Nunca tornou isso público, pois o fazia com amor, sem esperar nenhum tipo de retorno por sua atitude.
Era participação certa nos programas do comunicador Luíz Carlos Montenari, no qual tratavam sobre diversos assuntos.

Casou-se com Luzia Alves Lacerda, com quem teve três filhos.
Dona Luzia faleceu em 2012.

Eis o seu maior legado - a família. Com sua partida, deixou, além dos filhos, netos maravilhosos, sobrinhos, parentes e amigos que o amavam e admiravam.

Ele foi sepultado no dia 24 de dezembro de 2019, no jazigo da família, no cemitério de Leopoldina, onde descansa em paz.    

14.12.19

Patrimônio Material: O Solar dos Lisboas e a memória de Leopoldina

Irineu Lisbôa (1894-1986), nasceu no sul de Minas, formou-se em Medicina em 1917 e veio para Leopoldina, em 1918, para atuar como médico sanitarista no Posto de Profilaxia Rural estabelecido no município no mesmo ano. Posteriormente, assumiu o setor de radiologia da Casa de Caridade Leopoldinense, a pedido do diretor da instituição,  Dr. Custódio Junqueira.

O médico trabalhou por várias cidades da Zona da Mata mineira e outras regiões do estado, mas fixou residência em Leopoldina. Adquiriu uma bela casa na cidade, onde viveu com sua família. Casou-se com dona Cinira Ribeiro Junqueira, em 1925. Tiveram dois filhos, Alice e Antônio Marcio Junqueira Lisboa. A residência da família Lisbôa pode ser contemplada até os dias de hoje por todos que transitam pela Rua José Peres. 

Em dezembro de 2019, fui até o Solar visitar o seu atual proprietário, o Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa, um dos grandes nomes da pediatria brasileira, professor aposentado da UNB, autor de dezenas de livros, uma pessoa maravilhosa. Que honra conhecê-lo!

D. Elizabeth Lisboa, Dr. Antônio Marcio Junqueira Lisboa e eu.

Por toda a importância que o Dr. Lisbôa teve na implantação das políticas de saúde no município nas primeiras décadas do século passado, o edifício onde ele residiu constitui parte do patrimônio material leopoldinense, preservando e nos remetendo à memória daqueles tempos.



Solar dos Lisboas (2019).

9.12.19

Personalidades de Leopoldina: Custódio Monteiro Ribeiro Junqueira (1875-1941)

Custódio Monteiro Ribeiro Junqueira nasceu em 25 de fevereiro de 1875, na Fazenda Niagara, situada naquela época em Santa Isabel (distrito de Abaíba). Era filho de José Ribeiro Junqueira e Antônia Augusta Monteiro Lobato Galvão de São Martinho. Sua família tinha uma longa tradição agropecuária, sendo uma das principais produtoras rurais da zona da Mata mineira. Entre seus irmãos, destacamos José Monteiro Ribeiro Junqueira,  advogado, empreendedor e grande político mineiro. 

Custódio casou-se com Emerenciana Botelho Junqueira, com a qual teve oito filhos. 


Formou-se pela Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, em 1897. Retornou para Leopoldina, onde exerceu com brilhantismo e competência  a medicina. Sua proeminência e liderança o levaram à presidência da Câmara Municipal de Leopoldina entre 1912 a 1922. 

Ao lado de seu irmão, José Monteiro Ribeiro Junqueira, colaborou para a modernização e a expansão dos negócios da cidade de Leopoldina. Participou ativamente da criação de empresas, como a casa bancária (1912), fábrica de tecidos, o Ginásio Leopoldinense (1906), a Companhia Força e Luz Cataguases-Leopoldina (1905) entre outros importantes empreendimentos que tiveram impacto na cidade e nos municípios vizinhos. 

Dr. Custódio Junqueira, ao centro, entre os operários no início da obra da atual Escola Municipal Ribeiro Junqueira.



Faleceu no dia 19 de março de 1941, aos 66 anos de idade.

A cidade de Leopoldina preserva a memória do Dr. Custódio Junqueira, há um busto em sua homenagem na praça Félix Martins, no centro.

Seu nome foi dado a uma das principais ruas do município, também na área central.

20.9.19

Dr. Irineu Lisbôa e as políticas sanitárias em Leopoldina no período de 1918-1930

A pesquisa e o ensino sobre a História Local não param. O trabalho está adquirindo amplitude e foi compartilhado com os alunos do 8º ano do Ensino Fundamental, depois eles multiplicaram o conhecimento adquirido para os demais alunos de turno Vespertino na E. E. Luiz Salgado Lima.

Painel com exposição de fotos e documentos históricos sobre a trajetória do Dr. Irineu Lisbôa (1894-1986) e as políticas sanitárias em Leopoldina entre os anos 1918-1930.





As alunas brilhantes Isabelly e Mariana Ferraz apresentaram nosso painel sobre Dr. Irineu Lisbôa e as políticas sanitárias em Leopoldina com muita desenvoltura para todas as turmas do turno da tarde.



Parabéns!

15.7.18

A fundação do Laboratório Químico Leopoldinense e a campanha do saneamento rural

Laboratório Químico Leopoldinense


Acervo de Luiz Raphael Domingues Rosa/Espaço dos Anjos
Laboratório Químico Leopoldinense  - Fundado em 07 de julho de 1927 pelos irmãos José Monteiro Ribeiro Junqueira e Custódio Junqueira, Graciema Junqueira e o químico Antenor Machado.

O laboratório era uma estrutura importante para a campanha de saneamento rural e a erradicação das epidemias, como a opilação, a varíola entre outras.

A Gazeta de Leopoldina, jornal de propriedade da família Ribeiro Junqueira, publicou uma nota, em 1933, louvando a aprovação de um remédio fabricado no laboratório Leopoldinense pelo Instituto Osvaldo Cruz. Segue o documento:

O medicamento em questão é o óleo de quenopódio, o qual era empregado no combate da ancilostomíase e da malária.

1.5.18

Artigo científico publicado na revista acadêmica Latinidade (UERJ)

Confiram nosso artigo sobre a origem das políticas de saúde e sua relação com a imigração em Leopoldina, na Zona da Mata mineira entre o fim do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Agradeço a Doutora Maria Teresa Toribio Brittes Lemos pelo incentivo e pela oportunidade!

Páginas-189-216.



7.4.18

Núcleo de estudos históricos sobre Leopoldina, na zona da Mata mineira, entre os séculos XIX e XX

Este projeto permanente, desenvolvido com estudantes e professores do Ensino Médio da E. E. Luiz Salgado Lima,  a partir de abril de 2018, visa resgatar a história e a memória da cidade, por meio de pesquisas, levantamento e catalogação de registros históricos, entrevistas, elaboração de acervo digital com documentos e imagens etc.

Mais do que criar um acervo multimídia de documentos históricos, a intenção é analisá-los e compreendê-los à luz da metodologia de pesquisa e do instrumental teórico fornecido pela disciplina História. Trata-se, portanto, também de um projeto de iniciação científica para os jovens, possibilitando-lhes o contato com a pesquisa, com método, como se dá o tratamento das fontes e todo o processo que envolve a  produção historiográfica.

Participam dessa iniciativa, além dos professores de História da escola, os estudantes do Ensino Médio, os quais são orientados nos encontros do Núcleo, realizam leituras, debates e produção escrita sobre história e memória de nossa cidade.


Em nosso primeiro encontro, realizado na escola,  o grupo estava bastante desfalcado,
 mas isso não impediu a realização dos trabalhos. Quem se fizer presente vai estudar e irá aprender! Apresentamos o objetivo do projeto e depois estudamos e discutimos trechos do texto Prevenir e curar: o controle social através dos serviços de saúde, publicado pelo economista Paul Singer e outros em 1981.


Principais aspectos debatidos após a leitura do texto:


  • Histórico da institucionalização dos serviços de saúde na Europa;
  • Perseguição aos práticos, herbalistas e curandeiros;
  • Século XVIII: o hospital era o lugar para morrer;
  • Bacteriologia revolucionou a ciência com as descobertas de Pasteur e Koch;
  • Causa das doenças eram os micro-organismos;
  • Hospitais tornaram-se locais de cura e reabilitação;
  • Surgiram métodos de assepsia e o profissional de enfermagem;
  • Europa, século XIX: Operários reivindicam direito à saúde. Surgem as primeiras políticas de seguro e previdência;
  • Brasil (1930): surgem o seguro e previdência só para alguns trabalhadores - domésticos e rurais estavam excluídos. Na década de 1970,  45% da população tinha acesso aos serviços de saúde. Pouco, se comparado aos países industrializados, como Reino Unido e Suécia, onde 100% da população tinha acesso aos serviços de saúde.
O próximo encontro será no dia 18/04/2018, as 14:00 h, na escola. Discutiremos mais sobre a revolução proporcionada sobre a bacteriologia e como se deu as reformas urbanas e sanitárias na Europa. Até lá!
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6.4.18

Palestra proferida no Colégio Imaculada Conceição

Na quarta-feira, dia 28/04/2018, estivemos no Colégio Imaculada Conceição e, com alegria e entusiasmo, compartilhamos com os alunos do 3º ano do Ensino Médio os resultados de nossa pesquisa sobre os impactos do movimento sanitarista em Leopoldina e a formação das primeiras políticas de saúde no município, com ênfase na atuação do médico Irineu Lisbôa (1894-1987).

Agradecemos pelo convite e pela oportunidade de falar para jovens interessados sobre um tema tão relevante para a História e a Memória de nossa cidade.

Link da página oficial do CIC no Facebook:


Para ver mais clique aqui.

1.3.18

E-book: E-imigração em debate: novas abordagens na contemporaneidade

Acabou de sair o e-book do Evento acadêmico: "Seminário Internacional Migrações Atlânticas no mundo contemporâneo (séculos XIX-XXI) novas abordagens e avanços teóricos"

Confira abaixo:
Obs: Nosso artigo está entre as páginas 22 e 35.



10.1.18

Os Lisboas

Recebi hoje (10/01), com grande felicidade e gratidão, um presente do Dr. Antonio Marcio Junqueira Lisboa.

Trata-se da obra Os Lisboas, escrita por Antonio Marcio, na qual ele conta a trajetória de seus ancestrais. 

Antonio Marcio, pediatra, professor e escritor, é filho do Dr. Irineu Lisbôa (1894-1987), cuja ação enquanto médico sanitarista em Leopoldina e região nas décadas de 1910-1920, tem sido nosso objeto de pesquisa desde meados de 2015. De lá para cá, com a ajuda de Antonio Marcio Lisboa, já produzimos dois artigos científicos apresentados em dois eventos: um seminário regional e um internacional, respectivamente, em Carangola-MG (2016) e Niterói-RJ (2017). Os trabalhos foram publicados nos anais dos eventos acadêmicos e também em capítulo de livros que serão lançados por seus promotores. Assim, contribuímos para resgatar a memória e a história de Leopoldina, nossa amada cidade, na Primeira República, entre os anos 1910-1920.

Ainda há muito por pesquisar, teremos mais novidades por vir, e seguiremos diligentes nesta missão de reconstruir parte da história de nossa cidade sob o viés da ação e expansão do Estado na região, por meio das políticas de saúde (saneamento e higienismo).

Obrigado por toda a ajuda, dr. Lisboa.

21.10.16

Sanitarismo em Leopoldina (1895-1930): fontes e perspectivas para uma pesquisa histórica

Trabalho apresentado no 1º Seminário do Grupo de Pesquisa de História da Zona da Mata mineira, na UEMG-Carangola (MG), no dia 20/10/2016.



Projeto de pesquisa sobre os ecos do movimento sanitarista brasileiro, ocorrido nas primeiras décadas do século XX, na cidade de Leopoldina (MG).

6.8.16

Entre a vida e a morte: a memória de um poeta

No dia 20 de abril de 1884, no Engenho Pau D'Arco, na Paraíba, nasceu um dos mais marcantes poetas não românticos da literatura nacional - Augusto dos Anjos. Ele aprendera as primeiras letras com seu pai, enquanto assistia à proliferação das usinas modernas, as quais substituíam os antigos engenhos coloniais que fizeram o esplendor do nordeste no passado.

Augusto dos Anjos (1884-1914).

Entre 1903 a 1907, Augusto dos Anjos estudou na Faculdade de Direito do Recife. Formou-se advogado, mas dedicou-se ao ensino de Língua Portuguesa no Liceu paraibano. Casou-se com Ester Fialho, em 1910.

Mudou-se para o Rio de Janeiro, depois de ter sido afastado de suas funções pelo governador da Paraíba com quem se desentendera. Na capital continuou a lecionar, atuando em diversos educandários. No ano de 1911, perdeu, de forma prematura, seu primeiro filho

Em 1913, transferiu-se para Leopoldina (MG) após ter sido nomeado para o cardo de diretor do Grupo escolar Ribeiro Junqueira. Um ano antes publicara sua única obra, intitulada Eu. Foi com alguma tristeza na alma que ele escreveu: 

"Ah! Um urubu pousou na minha sorte!" 

O verso extraído de um de seus fúnebres poemas parecia expressar o desgostos que sentia em relação à vida e também os infortúnios pelo qual passara, como a perseguição política, os problemas de saúde e a perda de seu primogênito.   



Seus poemas são, desse modo, marcados pelo pessimismo, pelo emprego de termos médico-científicos e  referências à morte. Inicialmente, sua obra provocou estranheza e ele só foi reconhecido como poeta de talento anos mais tarde. Devido a sua singularidade poética torna difícil associá-lo a uma escola literária, mas ele é comumente classificado como pré-moderno.

No dia 12 de novembro de 1914, com 31 anos de idade, faleceu por conta de uma pneumonia. Apesar da morte física, Augusto dos Anjos realizou suas intenções mais íntimas declaradas nos versos:

"Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais".

Por isso, ele para sempre será lembrado...


Fachada e interior do Museu Espaço dos Anjos - Leopoldina (MG).
Túmulo do poeta - Leopoldina - MG.

29.12.15

Sanitarismo em Leopoldina (1895-1930)

Nas primeiras décadas do século XX, houve no Brasil uma grande preocupação entre as elites dirigentes do país e, sobretudo entre os médicos, com as questões sanitárias e a saúde pública.

No campo e nas cidades, a falta de saneamento básico era um problema gritante, o que provocava a proliferação das doenças. Assim, inúmeras moléstias grassavam entre a população, principalmente a febre amarela, a malária, a doença de Chagas, a varíola, a tuberculose, a influenza etc.

As elites e as autoridades públicas creditavam a falta de desenvolvimento e o atraso nacional ao estado mórbido em que se encontrava grande parte da população brasileira, por isso  o médico-sanitarista Miguel Pereira afirmou, em 1916, sem exagero, que o  país era "um imenso hospital".


O personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato simbolizava o sertanejo abandonado, doente e improdutivo.

É durante esse momento histórico que a classe médica, principalmente os sanitaristas, obtém destaque, pois cabia a eles a regeneração do povo e quiçá o progresso da nação. A partir daí que os médicos começaram a ocupar cargos públicos e a orientar as ações estatais para sanear os problemas do Brasil.

Então, a intervenção médica na sociedade ocorria por meio de políticas públicas, tais como a conscientização através da educação sanitária, campanhas de vacinação, reformas urbanas e construção de obras sanitárias no campo, como aterros, fossas e drenagens de pântanos.

Um dos principais nomes do movimento sanitário nacional foi o médico Belisário Pena (1868-1939), natural de Barbacena. Pena ocupou cargos nas esferas públicas estadual e federal. Ele ajudou a fundar a Liga Pró-Saneamento do Brasil, em 1918, cujo objetivo era atuar em prol do saneamento e do higienismo das cidades e áreas rurais do país. 

A Liga tinha uma forte atuação pedagógica, através da panfletagem, cursos e conferências, e também política, estimulando os governos a construírem hospitais, casas higiênicas, postos de combate e prevenção a doenças, obras de saneamento básico e a abraçarem a causa do saneamento, que era enxergado como uma "luta patriótica".

Efeitos locais da campanha nacional do sanitarismo

Em Leopoldina, cidade da zona da mata mineira, as deficiências sanitárias não eram muito diferentes do restante do país. No fim do século XIX, o Correio de Leopoldina noticiava a necessidade do poder público higienizar o município:


"As arcas da Camara estão cheias de ouro: o emprestimo de 500:000$, todo coberto já, deve ser applicado quanto antes, intelligentemente, em cannalisação e esgotos.

Transformemos a bella Leopoldina em uma cidade moderna, com todas as condições de vida fácil e garantida.

O saneamento se impõe como uma medida de salvação publica". 


(Correio de Leopoldina. Edição n. 1, 3 de janeiro de 1895. p. 5).

A cidade crescia e os problemas sanitários também aumentavam, seja na zona urbana ou na zona rural. As epidemias eram um empecilho para o crescimento econômico, por isso a publicação sugeria que os recursos financeiros disponíveis no município deveriam ser investidos em obras de canalização e esgoto. Somente com o saneamento Leopoldina seria arrebatada da degeneração e ficaria livre das doenças. 

O expoente do movimento médico-sanitarista em Leopoldina foi o senhor Irineu Lisbôa (1894-1987). O médico foi nomeado, em 1918,  para exercer suas funções  no Posto de Profilaxia Rural, na cidade.


Posto de Hygiene de Leopoldina em 1929. Jornal Leopoldinense.

Essas unidades de saúde tinham como objetivo combater as endemias rurais, como a malária e ancilostomíase, prestar atendimento médico, além de promover, junto a população do campo, campanhas educativas, de higiene e de práticas sanitárias para prevenção de doenças.


Irineu Lisbôa (2) ao lado de Belisário Pena (1), em Pouso Alegre, na inauguração de um Hospital (1920-1921).















Na fotografia acima, autoridades e médicos posam durante a inauguração de um hospital no sul de Minas Gerais. Destacamos Belisário Pena e Irineu Lisbôa, reunidos em virtude da ocasião, e, certamente, pelo ideal comum que partilhavam em prol do saneamento das cidades e dos sertões do país.

Provavelmente muito do pensamento e da obra executada por Belisário Pena, enquanto médico e liderança do movimento sanitarista brasileiro, influenciaram Irineu Lisbôa e todo o trabalho que ele desenvolveu em Leopoldina e, posteriormente, em outras regiões do estado de Minas Gerais.

O doutor Lisbôa, em sua atuação profissional, investiu bastante na conscientização, como indica a fotografia a seguir, na qual o médico apresentava, durante um evento público, um carro alegórico com a representação do inspetor sanitário, em pé vestindo roupa branca, de um esqueleto, simbolizando a morte, e do inimigo do povo: o mosquito.


Cortejo carnavalesco, década de 1930: "Guerra ao Mosquito" - Educação para a Saúde. Jornal Leopoldinense



A alegoria do mosquito e a comemoração do carnaval na cidade, uma festa de grande apelo popular, eram muito favoráveis para a promoção da educação sanitária e a divulgação a toda a população da necessidade de se combater o mosquito e seus criadouros, a fim de evitar a proliferação de doenças.   

Sem dúvidas, o movimento sanitário contribuiu para amenizar os problemas básicos e estruturais das cidades e áreas rurais do Brasil, embora não os tenha solucionado em definitivo. Médicos-sanitaristas organizavam expedições de estudo e combate às doenças em todos os rincões do país.
O protagonismo médico alçou esses profissionais a um patamar social destacado, e muitos passaram a ocupar elevados cargos na administração pública, orientando as políticas sanitárias e higienistas.


Charge revela a revolta da população contra o médico Oswaldo Cruz e a vacina obrigatória.

Contudo, nem sempre as políticas sanitárias serviram aos ideais democráticos ou foram implementadas pela via do diálogo. As reformas urbanistas no Rio de Janeiro, seguida por uma campanha de vacinação obrigatória conduzida pelo médico Oswaldo Cruz, em 1903, são exemplos da arbitrariedade do Estado, que invariavelmente recorria a violência para intervir na sociedade.

Avaliação 

1. ENEM, 2022



27.4.15

Um imperador na minha cidade

Ano 1881. Local: Cidade de Leopoldina, província de Minas Gerais.

A cidade fora assim chamada em homenagem à segunda filha do Imperador D. Pedro II, a princesa Leopoldina. Por conta de seu nome, um periódico local publicou uma nota do Padre Luiz Lopes Teixeira, na qual exaltava a identificação da cidade com o regime monárquico. A esse respeito, dizia que a cidade, "...cujo nome, tomado, na sua creação, por seus habitantes, externa a identidade dos sentimentos monarchicos, por ser nome tirado da Augusta prole de Vossa Magestade imperial". (O Leopoldinense, 24 de abril de 1881, p. 2).
Princesa Leopoldina. Anônimo. Ca. 1853. Daguerreótipo. 13 x 10,4cm.  Acervo do Arquivo Histórico do Museu Imperial.

Cercada por montanhas e fazendas de café, onde trabalhavam milhares de escravos (em 1876 a região concentrava a maior população escrava da Zona da Mata mineira (http://web.cedeplar.ufmg.br/cedeplar/site/diamantina2002/textos/D10.PDF p. 11), a antiga vila crescera, fora elevada à condição de cidade em 1861 e respirava ares de modernidade com a chegada, em 1877, da linha férrea, das estações e das locomotivas.


(O Leopoldinense, 24 de abril de 1881).
O trem ajudava a escoar o café para os grandes centros consumidores, incluindo o porto do Rio de Janeiro, de onde o produto seguia para o exterior, garantindo mais lucros para comerciantes e grandes cafeicultores. Na década de 1870, o café produzido na Zona da Mata respondia por cerca de 60% da arrecadação de toda a província de Minas Gerais. (Fábio W. A. Pinheiro. O Tráfico de escravos na Zona da Mata Mineira: Minas Gerais, 1808 – 1850). Portanto, a região era rica e economicamente importante para a província e para o império. 

O crescimento econômico da cidade de Leopoldina, baseado na monocultura do café e no trabalho escravo, proporcionou o surgimento de ricas famílias, cujos líderes eram proprietários de terras e influentes políticos, como os Monteiro de Barros.
Vista da sede da Fazenda Niagara - distrito de Abaíba, pertencia a influente família Ribeiro Junqueira. Exemplo da opulência local na segunda metade do século XIX (Foto de outubro de 2014).
Nas primeiras décadas do século XIX, a referida família já acumulava riqueza e poder no cenário regional, como demonstra o historiador Angelo Alves Carrara na seguinte passagem:

"Esta família conseguiu apropriar-se de um vasto patrimônio agrário, cuja distribuição foi muito facilitada pela presença de alguns de seus membros importantes nos cargos mais altos do governo da capitania e depois da província: o comendador Manuel José Monteiro de Barros, Romualdo José Monteiro de Barros (Barão de Paraopeba, membro da segunda Junta do Governo Provincial) e o desembargador e ouvidor Lucas Antônio Monteiro de Barros. Só o comendador Manuel José obteve a concessão de quatorze sesmarias. No total, oito membros da família possuíam vinte e quatro sesmarias." (ESTRUTURAS AGRÁRIAS E CAPITALISMO; contribuição para o estudo da ocupação do solo e da transformação do trabalho na zona da Mata mineira (séculos XVIII e XIX), p. 20. Disponível em http://historia_demografica.tripod.com/pesquisadores/angelo/estrutura-texto.pdf). 

Tamanho poder e influência política chamava a atenção das autoridades, inclusive de sua majestade o imperador D. Pedro II, o qual visitou, por inúmeras vezes, a província de Minas Gerais e a Zona da Mata, que como vimos era uma próspera e destacada região mineira. 

D. Pedro II. Fotografia de 1870.
Importante destacar que as viagens que o Imperador fez por todo o país possuíam um significado político, pois o monarca se apresentava para os súditos como o representante da nação e da unidade do Império (Ver Alvarenga, Susiely. As viagens de D. Pedro II à província de Minas Gerais em 1881[manuscrito] : festividades, política e ciência / Susiely Alvarenga - 2012.191f.: il.). D. Pedro II era o elo entre a corte com as demais regiões, sua presença servia para fortalecer os laços de poder com as elites locais do interior do Brasil. Alguns ilustres cidadãos residentes nas cidades visitadas pelo Imperador eram, inclusive, agraciados com títulos de nobreza e honrarias imperiais para reforçar alianças e a lealdade local com monarca. 

Numa das viagens que fez à província, em 1881, D. Pedro II visitou Leopoldina, situada na Zona da Mata mineira. Era comum que as cidades que recebessem Sua Majestade Imperial organizassem uma grande recepção. As ruas eram enfeitadas com flores, as casas iluminadas, havia banda de música, comemorações religiosas e civis.

Em Leopoldina não foi diferente, alguns dias antes da chegada do Imperador, o jornal da cidade, "O Leopoldinense", repercutia o fato e discutia os preparativos para a recepção da maior autoridade do Império e quem iria arcar com os custos de tais provimentos.
As páginas do jornal local exaltavam a visita do Imperador como a "maior e mais elevada distincção a que esta cidade possa aspirar..." Em destaque o Brasão de D. Pedro II.  (O Leopoldinense, 30 de abril de 1881. p. 2).

Organizar uma recepção "com as pompas e festas" digna do Imperador era algo caro. O jornal questionava quem iria custear a visita de D. Pedro II e de sua comitiva - a Câmara Municipal (órgão que era a prefeitura da cidade naquela época) ou os cidadãos, empregando recursos próprios.

O periódico reproduziu em suas páginas o dilema do município:
"applicar os dinheiros municipaes aos festejos com a recepção do Imperador e prejudicar sem uma razão legal todos os ramos do serviço publico attendidos pelas verbas orçamentarias, de que se retirassem aqueles dinheiros ou sollicitar de outra fonte a precisa quantia, embora corresse o risco de não poder levar a effeito os ambicionados festejos,..." (O Leopoldinense, 21 de abril de 1881. p. 1).    

O jornal da cidade louvou a escolha da segunda opção, isto é, a busca de dinheiro para a festa de boas vindas junto a particulares, poupando assim os recursos dos cofres públicos municipais. 

A cidade estava mobilizada com os preparativos para receber o imperador. O papel de liderar a organização da festa ficou sob a responsabilidade da Irmandade do SS Sacramento, uma associação ligada à Igreja Católica, formada por membros do Clero e da sociedade civil, e do "Club Agricola". O município foi todo decorado com flores. Lírios e dálias foram colhidos para serem espalhados pelos caminhos que seriam percorridos por D. Pedro II.


Lírios e Dálias embelezavam a cidade para receber a família imperial.

Na linha férrea próxima à fazenda do Desengano e em outros pontos da cidade, foram instaladas girandolas de onde sairiam fogos para celebrar a chegada do Imperador.

No dia 30 de abril de 1881, numa bela manhã de sábado, por volta das onze e trinta horas, o trem que trazia sua Majestade e sua comitiva, incluindo a Imperatriz Teresa Cristina, chegou à Estação da cidade.


Imperatriz Teresa Cristina. Foto disponível no site do Museu Imperial.

Segundo o relato do jornal "O Leopoldinense", edição de 1 de maio de 1881, a estação de trem estava tomada pela população. Havia autoridades municipais, vereadores, políticos, militares, membros do clero, diversas famílias e bandas de música.

Após a festiva recepção, o Imperador, sua comitiva e os convidados saborearam um delicioso banquete, regado a vinhos e perfeitos preparados, oferecido pelo Restaurante Carceler.
Como era de costume, D. Pedro II visitou os prédios públicos, como a Cadeia, a Câmara, a Matriz e a Escola. Sobre isso, registrou o seguinte em seu diário pessoal de viagem:


Na estação de Vista Alegre (10h 35’) tomou-se o ramal da Leopoldina. Aí cheguei às 11 ½ à casa de um amigo de Gervásio Monteiro de Barros sobrinho neto do Congonhas.

Almoço que interrompi às 12.

Câmara e cadeia — idem. A casa não é má. Aula primária de meninos que não me desagradou. A sala é muito pequena. Colégio de meninas que não me pareceu mau, tendo a mestra fisionomia inteligente. Aula 1ª de meninos do grau superior. Sofrível. A aula 1ª de meninas não tem agora professora. O cura não explica doutrina aos meninos na igreja como quase nenhum faz.

Oração na igreja de onde se goza de boa vista; subida íngreme; fomos de trole e de lá por boa ladeira para a estação. 

(Diário de D. Pedro II. Viagem a Minas Gerais – Segunda Parte. Volume 25. 19 a 30/04/1881).

A comitiva imperial foi recebida por um membro da importante família Monteiro de Barros, detentora de terras, produtores de café e influentes políticos a nível provincial.


Em seu diário, D. Pedro II registrou suas impressões sobre os prédios públicos (Câmara e cadeia) e visitou o colégio de meninos e de meninas e parece não ter se impressionado com as aulas e com o ensino no município.


Depois dirigiu-se, de carruagem, à Igreja (atualmente está a Igreja Nossa Senhora do Rosário) onde orou e pode apreciar a vista da cidade.


Dali, seguiu para a estação e antes de embarcar entregou ao sr. barão da Leopoldina a quantia de 500$, dos quais 200$ deveria ser destinado à "pobreza" e 300$ para a aquisição de livros para o "Club Agricola". Às 13 horas e 45 minutos, sob vivas e foguetórios,  a comitiva partiu com destino à Corte (Rio de Janeiro), onde foi encerrada a primeira viagem real à Minas Gerais no ano de 1881.


A euforia e a comoção gerada pela visita imperial, contudo, não foram suficientes para que a imprensa local deixasse de registrar pequenos incidentes, embora não tenham chegado a atrapalhar as celebrações oficiais. O jornal noticiou que no "alto do morro ao incendiar-se as salvas ali collocadas, fracturou a perna direita o fogueteiro..." e um escravo, o pardo Manoel Bernardo, se feriu. O Leopoldinense, 1 de maio de 1881, p. 2).
  
Pouco mais de uma semana após a conclusão dessa viagem, D. Pedro II enviou uma correspondência para sua filha, a princesa Isabel, relatando o ocorrido e sua passagem por Minas Gerais:

Cara Filha 


O diário lhe teria dito como foi interessante minha viagem a Minas. Esta província tem grandes elementos de prosperidade. 

Não falo de suas montanhas de ferro e de ouro e outros minerais. Tem regiões fertilíssimas por todas as culturas mesmo para o trigo de que comi muito bom pão. A escola de Minas pode servir de modelo. 


(Cartas de D. Pedro II a Isabel. Carta de 08 de Maio de 1881). 



Importante destacar que as viagens oficiais do Imperador tinham um caráter simbólico e político, visando levar ao interior de seu Império e aos seus súditos os ritos, os costumes e a representação do Poder real.

Assim sendo, a presença de Sua Majestade e de sua comitiva materializavam, nos locais mais afastados da sede do império, o regime monárquico em vigor no Brasil.

O momento histórico era delicado, tendo em vista que os grandes produtores rurais criticavam o governo imperial e o processo de abolição da escravatura, que tomava forma. Isso representava um risco para a unidade do Império. Nesse contexto, as visitas de D. Pedro II ao interior serviam como uma estratégia política, com as quais o imperador distribuía cargos, títulos honoríficos e até recursos financeiros para os locais visitados, tudo com o objetivo de tentar manter a unidade nacional, firmar alianças com as elites locais e tentar minimizar os rumores da implantação de uma República no Brasil.


Apesar de todos os esforços imperiais, os rumos da História política brasileira sinalizavam mudanças, e oito anos após visitar Leopoldina foi proclamada a República, sob a égide dos militares e com o apoio dos grandes produtores rurais, principalmente dos paulistas, os quais estavam insatisfeitos com a Monarquia. A família real foi enviada ao exílio e do navio que a conduzia para a Europa assistiram à ruína do regime monárquico no Brasil.


Com relação à breve passagem de D. Pedro II por Leopoldina, foi um marco histórico para o local, um reconhecimento de seu prestígio e influência política e econômica ao final do século XIX. Embora os tempos de glória e opulência do município tenham ficado para trás, a memória da visita imperial continua viva nas páginas da história desta cidade.  


Referências de pesquisa


GENOVEZ, Patrícia Falco. A viagem enquanto forma de poder: a viagem de Pedro II e a inauguração da rodovia União e Indústria, em 1861Tempo, Rio de janeiro, Vol. 3, n° 5, 1998, pp. 161-180. 1.

MACHADO, Cláudio Heleno. Tráfico interno e Concentração  de população escrava no
principal município cafeeiro da Zona da Mata de Minas Gerais: Juiz de Fora (Segunda metade do século XIX)X Seminário sobre a Economia Mineira. 

PIRES, João Ricardo Ferreira. Notas de um Diário de Viagem a Minas Gerais: política e ciência na escrita viajante do Imperador D. Pedro II (1881). Dissertação apresentada na Pós-Graduação em História/UFMG como requisito parcial à obtenção do título de mestre
Linha de Pesquisa: História e Culturas Políticas. Orientadora: Eliana de Freitas Dutra

ALVARENGA, Susiely. 
As viagens de D. Pedro II à província de Minas Gerais em
1881[manuscrito] : festividades, política e ciência / Susiely Alvarenga - 2012. 191f.: il. Orientador: Prof. Dr. Ronaldo Pereira de Jesus. Dissertação (Mestrado) - Universidade Federal de Ouro Preto. Instituto de Ciências Humanas e Sociais. Departamento de História. Programa de Pós-graduação em História. Área de concentração: Poder e Linguagens.

Volume 25: Viagem a Minas Gerais (Segunda parte) 19 a 30/04 de 1881.


Jornal O Leopoldinense. Abril e Maio de 1881.

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