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9.10.26

História da Saúde em Leopoldina, na Zona da Mata mineira (1895-1933)

Nós, historiadores, estudamos o passado pesquisando e analisando diversos registros e documentos históricos.

Ao olhar para essas fontes históricas o que elas têm a nos dizer sobre o passado?

Pesquisando alguns exemplares de periódicos que circularam em Leopoldina, na Zona da Mata mineira, desde o final do século XIX até a década de 1930, encontramos um acervo valioso de informações sobre a História da Saúde e das Ciências no município.


O exemplar acima, uma edição de O Leopoldinense, de 1895, destaca o "Momento Angustioso" vivido pela cidade. O texto critica uma espécie de "estado de sítio", uma medida de exceção que restringe certos direitos dos indivíduos, que pode ser adotada pelo governo em momentos de guerra e de grave crise.

O texto criticava a interrupção do tráfico da "Leopoldina", referindo-se à linha de trem criada em 1874 para escoar a produção de café de Minas Gerais para o Rio de Janeiro. 

A interrupção do trem ocorreu devido a uma epidemia de virgula morbus, o vibrião causador da cólera, que afligia algumas localidades vizinhas a cidade de Leopoldina. As autoridades tentavam conter o surto de cólera evitando que a doença se espalhasse. 

A Ciência Médica, no século XIX, lutava para se institucionalizar e ainda não se sabia muito a respeito da cólera, senão que ela era capaz de matar rapidamente. Alguns acreditavam que a doença fosse transmitida de uma pessoa a outra, daí a necessidade de se evitar a circulação e interromper o trânsito na linha férrea. A medida adotada pelas autoridades estaduais era, corretamente, atacada pelo jornal, apontada como ineficaz na prevenção do cólera. Mas, só se soube posteriormente, que a transmissão da doença ocorria através do consumo de água e de alimentos contaminados e não por meio de contágio decorrente do contato entre indivíduos sadios com pessoas doentes. 

A suspensão do trem estaria causando um grave problema. O periódico alertava que a cidade estava ficando sem víveres e havia o temor de que a fome se instalasse entre a população. A falta de circulação do trem comprometia o comércio e prejudicava o abastecimento de alimentos, alarmando a cidade.

Imagine as pessoas que viveram sob estas condições: com medo da epidemia de cólera e temendo pela falta de alimentos. Com baixos estoques de gêneros alimentícios nos armazéns, provavelmente os preços devem ter inflacionado e trazido muitos problemas, principalmente  para os mais pobres.

Em suma, podemos deduzir que o cotidiano daquelas pessoas não deve ter sido nada fácil até a situação ser normalizada.

Como as famílias humildes se sustentavam? Precisavam racionar comida? Havia algum tipo de apoio solidário aos mais carentes e necessitados?  As pessoas eram solidárias umas com as outras?  Podemos elencar diversas perguntas sobre o comportamento e o impacto social causado pelo temor de uma epidemia e da fome, mas, para obter mais respostas, teremos que ter acesso a outras fontes.



Examinando outro periódico - a Gazeta de Leopoldina - estava em curso o ano de 1933 e surtos de varíola aterrorizavam as cidades mineiras.

Embora os casos de varíola estivessem ocorrendo em uma cidade distante, ela conectava-se à Leopoldina graças ao ramal da Estrada de Ferro, portanto, havia o risco da doença atingir o município.

O jornal defende que, para conter a doença, toda a população deveria se vacinar e, assim, evitar a proliferação da doença.



Em outra edição da Gazeta de Leopoldina, noticiou-se que um dos agentes do Posto de Higiene iria até uma cidade vizinha para vacinar e aplicar vermífugos em estudantes do Grupo Escolar.

A notícia sinaliza uma das estratégias da política de saúde pública que era atuar junto às escolas para promover a educação higiênica e conscientizar as crianças sobre a importância da vacinação. Médicos e funcionários dos Postos de Higiene também realizavam palestras, distribuíam panfletos e exibiam filmes e imagens, em modernos equipamentos de projetores, para tratar da educação higiênica.


Na reprodução acima há outra nota reforçando a importância da vacinação e destacando que o Posto de Higine disponibilizaria vacinas anti-variólicas para as escolas, fábricas e demais estabelecimentos mediante solicitação.

Fica evidente o esforço das autoridades para evitar a proliferação das doenças na cidade, preservando vidas e também mantendo intactas a estrutura econômica e social. Pois, como já foi observado por vários estudiosos, as políticas de saúde nas primeiras décadas do século XX estavam alinhadas à construção do Estado nacional e ao desenvolvimento do capitalismo.

20.5.20

Povo preguiçoso ou povo doente?

Por bastante tempo, alguns pensadores explicavam o atraso socioeconômico do Brasil devido à preguiça inata do brasileiro. Tal atributo,  acreditavam, haviam sido herdados por nossa raça da mestiçagem,  isto é,  do cruzamento entre distintos povos. 
O diplomata francês Conde de Gobineau, que esteve no Brasil em 1870, fez a seguinte anotação sobre o povo brasileiro: "toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo".

Esse preconceito difundido como ciência no final do século XIX ficou arraigado na cultura popular e até os dias atuais há quem acredite na validade da sentença.

A ideia do brasileiro preguiçoso foi fartamente representada na literatura nacional, para ficar em apenas dois exemplos,  lembramos de dois ícones,  como o Jeca Tatu (1914), de Monteiro Lobato e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade.

Macunaíma queria apenas brincar e explorar a exuberância da floresta tropical, era um anti-herói.

O Jeca Tatu,  de Lobato,  tornou-se um símbolo. A caricatura pintada pelo escritor paulista mostrava o caboclo acocorado, avesso à civilização e ao progresso. 

Uma visão negativa a respeito do homem brasileiro,  sem dúvida.

Entretanto,  em 1918, Monteiro Lobato pede desculpas ao Jeca, mudara de ideia em virtude de suas novas experiências,  ampliação das redes de sociabilidade e contato com as ideias médico-sanitárias. Lobato publicou no prefácio de seu livro o pedido de desculpas, dizendo que antes ignorara o estado mórbido do caboclo. Se o Jeca era preguiçoso e improdutivo era por causa da doença,  fruto do abandono dos sertanejos pelos bacharéis da República.

Sem políticas públicas de educação e saúde,  o que restava aos camponeses,  senão o analfabetismo e as moléstias que afligiam a população,  principalmente os mais humildes e os desamparados.

Quando constatou o déficit de saúde do homem brasileiro, Monteiro Lobato com sua sensibilidade e inteligência passou a defender a revitalização de seus patrícios. Na imprensa publicava artigos, depois enfeixados em um livro - "Problema Vital" (1918) - advogando a necessidade de sanear o país. Para o criador do Jeca Tatu, o problema econômico e político derivava da falta de saúde,  afinal,  o que um povo tomado pelo amarelão ou empaludismo conseguiria produzir?

Lobato argumentava que o brasileiro era um homem como o seu semelhante italiano ou inglês, não importava a nacionalidade, mas por conta da morbidez era um homem em estado latente. Urgia tratá-lo, educá-lo e alimentá-lo para só depois cobrar-lhe a produtividade no trabalho. 

Num vasto hospital como fora diagnosticado o Brasil, nas primeiras décadas do século XX, o que esperar de uma população senão apatia e incapacidade de competir e alinhar-se aos países capitalistas centrais, cujos habitantes já contavam com hábitos de higiene e políticas de saúde?

A defesa sanitária, da educação e da saúde de Lobato e dos médicos foram clamores do século passado, contudo ecoam muito bem até hoje. O direito à saúde ainda não é para todos, metade das cidades brasileiras não possuem tratamento de esgoto e doenças  evitáveis, como a dengue, ceifam centenas de vidas anualmente. A cruzada sanitária deve seguir viva, até que possamos ter um país saudável,  sustentável e economicamente produtivo.



15.7.18

A fundação do Laboratório Químico Leopoldinense e a campanha do saneamento rural

Laboratório Químico Leopoldinense


Acervo de Luiz Raphael Domingues Rosa/Espaço dos Anjos
Laboratório Químico Leopoldinense  - Fundado em 07 de julho de 1927 pelos irmãos José Monteiro Ribeiro Junqueira e Custódio Junqueira, Graciema Junqueira e o químico Antenor Machado.

O laboratório era uma estrutura importante para a campanha de saneamento rural e a erradicação das epidemias, como a opilação, a varíola entre outras.

A Gazeta de Leopoldina, jornal de propriedade da família Ribeiro Junqueira, publicou uma nota, em 1933, louvando a aprovação de um remédio fabricado no laboratório Leopoldinense pelo Instituto Osvaldo Cruz. Segue o documento:

O medicamento em questão é o óleo de quenopódio, o qual era empregado no combate da ancilostomíase e da malária.

10.12.17

Google homenageia bacteriologista alemão



Hoje o doodle do Google homenageia o médico e bacteriologista alemão Robert Koch (1843-1910).

A exemplo de Louis Pasteur, o bacteriologista francês que foi seu contemporâneo, Koch fez inúmeras descobertas no campo da microbiologia, identificou, por exemplo, o bacilo  que causa a tuberculose e o microorganismo que transmitia a cólera, através da água, alimentos e roupas.

Graças aos seus estudos foi possível combater diversas epidemias que assolaram o mundo no século XIX e no século XX, por meio da medicina social, do higienismo e das políticas públicas de vacinação e saneamento das cidades e do campo.

Por tudo isso, o cientista alemão é considerado um dos pioneiros da bacteriologia e um ícone das ciências biológicas!

4.3.17

Reflexão sobre a história da epidemia


As epidemias representam um terrível flagelo para a humanidade e isso desde tempos remotos. A doença parece caminhar com o homem no tempo, colocando-o a prova, desafiando sua ciência e modificando seus costumes.

No box acima há uma brevíssima e interessante história da epidemia, começando nos tempos bíblicos, passando pela Idade Média e chegando na época Moderna.

Depois de ler o texto, que tal exercitar a mente sobre algumas questões?

1. Qual a relação entre epidemias e a expansão marítima (Grandes navegações) do século XV 

2. De que maneira a doença favoreceu a conquista da América pelos europeus? 


Boa reflexão!

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