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19.11.18

A justificação do racismo e da escravidão pela ciência e pela fé

A escravidão é uma forma de exploração do trabalho que tem ocorrido em diversas sociedades e localidades desde a Antiguidade.

Na Civilização Grega, por exemplo, os homens livres poderiam se tornar escravos, caso não pagassem suas dívidas, os prisioneiros de guerras também era sujeitos ao trabalho compulsório e de acordo com Aristóteles: 

“É obvio, então, que uns são livres e outros escravos, por natureza, e que para estes a escravidão é não adequada, mas também justa”.

O filósofo grego atribui aos bárbaros, isto é, àquelas pessoas que não pertenciam à civilização grega a condição natural de escravos, homens que pertenciam a outrem.

Se a princípio a expressão raça estava relacionada à descendência familiar, ao longo do tempo o conceito vai se metamorfoseando e legitimando o processo de exploração de uns sobre outros. No século XVIII, a zoologia usava raça "para designar os subgrupos em uma espécie" (p. 54).
No século XIX, cientistas europeus, baseados nos estudos do biólogo Charles Darwin, elaboraram o racismo científico, também conhecido como "darwinismo social".

O darwinismo social estabeleceu hierarquias entre as raças, tomando como critérios para hierarquizar os grupos humanos aspectos psíquicos e físicos, como, por exemplo, o estudo do formato do nariz e as medidas do crânio. 





"Em 1859, o sociólogo francês Georges Vacher de la Pouge por exemplo, comparou crânios de macacos, de homens negros e de europeus e concluiu que a raça europeia era superior a todas as outras." (p. 56). 
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A ideia do darwinismo social será bastante difundida entre os Ocidentais e servirá para legitimar o Imperialismo e o Neocolonialismo praticado pelas potências europeias no século XIX, submetendo ao seu poderio povos africanos e asiáticos.

Somente a partir da segunda metade do século XX, após a comoção mundial causada pelo horror do nazismo e do conhecimento público acerca do Holocausto, é que os cientistas reconheceram a existência de apenas uma raça - a humana. Os nazistas haviam levado a ideia de superioridade racial ao extremo, promovendo a solução final, isto é o extermínio de 6 milhões de judeus na Europa. Os estudos dos geneticistas comprovaram que, apesar das diferenças fenotípicas, há padrões inegáveis entre o código genético de todos os seres humanos, que indicam uma origem comum.
"Eva mitocondrial", as mitocôndrias das pessoas vieram de uma mesma linhagem matrilinear. 
Voltemos na linha do tempo, no século XVI, onde, com o advento das Grandes Navegações e dos descobrimentos marítimos, os europeus estabeleceram contatos com outros povos, como os africanos e os nativos americanos. Logo, houve a necessidade de mão de obra para a exploração colonial e os africanos e os índios tornaram-se alvos do apresamento sistemático pelos captores europeus. Assim nascia o Tráfico Atlântico Moderno, que vai promover uma das maiores migrações (forçada) de toda a História.
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Para justificar a escravidão de índios e negros, os europeus recorriam a argumentos religiosos, questionando se aqueles povos tinham alma por desconhecerem o Deus da tradição hebraica-cristã. Os escravos tornaram-se assim mercadorias, "não eram homens, mas coisas que pertenciam a quem os comprava" (p. 63). 

A Igreja julgou que os índios deveriam ser catequizados, já os negros deveriam passar pelo purgatório, representado pelo trabalho forçado. Acreditava-se, à época, que os africanos ou etíopes, eram descendentes de Caim ou de Sem e essa herança maldita tinha que ser compensada com o cativeiro.  
Entre os séculos XVI a XIX, o comércio de escravos foi intenso e estima-se que: 

"Dez a quinze milhões de seres humanos foram, assim, transplantados à força das cosas ocidentais da África para as Antilhas e para o continente americano. Sua força de trabalho era utilizada pelos fazendeiros brancos que colonizavam essas regiões" (p. 63).

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A escravidão no Brasil só chegou ao fim em 1888, após a abolição, entretanto o descaso com os negros libertos contribuiu para as enormes desigualdades sociais permanecessem até os dias de hoje, onde parte da população negra segue marginalizada.

Racismo nos EUA

Nos EUA o escravismo também deixou profundas sequelas sociais. Após o fim da Guerra de Secessão em 1865 a vitória do norte permitiu a abolição da escravidão no país.
Contudo, grupos sulistas derrotados e insatisfeitos formaram a Ku Klux Klan (KKK). Eles se vestiam com roupas e capuzes brancos, perseguiam e assassinavam negros. "Entre 1882 e 1962, houve 4733 linchamentos. A congregação existe até hoje" (p. 66).

Nos EUA, após a abolição, a segregação racial entre brancos e negros permanecia, o que gerou inúmeras manifestações em prol dos direitos cívicos dos afrodescendentes. 
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O pastor Martin Luther King foi um dos líderes do movimento e acabou assassinado em 4 de abril de 1968.    
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A segregação racial nos EUA foi abolida por lei, visando garantir igualdade de oportunidades para brancos e os afro-americanos. Entretanto, na prática ainda há grupos sociais que sustentam o ódios contra negros e latinos pobres.
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Manifestação de grupos da supremacia-branca, na Virginia (EUA), 2017.  


Apartheid na África do Sul

Na África do Sul a comunidade branca de 3 milhões de pessoas impôs aos negros, que constituíam a maioria da população 13 milhões, um sistema de segregação racial - o apartheid.

A medida criada em 1948 separava brancos e negros, estabelecia a proibição de casamentos inter-raciais e restringia os direitos dos negros, proibindo-os, por exemplo, de acessarem determinados lugares (ver imagem abaixo).
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O líder sul-africano Nelson Mandela, que ficou preso por 27 anos por se opor ao apartheid, tornou-se o primeiro negro a ser presidente da República da África do Sul em 1994. 
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Em seu governo, Mandela trabalhou pela reconciliação interna do país e pelo fim da política do apartheid.

Bibliografia básica

COMBESQUE, Marie Agnès. O silêncio e o ódio: racismo, da ofensa ao assassinato. São Paulo: Scipione, 2001.

19.9.17

Capitalismo selvagem?


ONU e OIT estimam que há 40 milhões de escravos no mundo, pessoas sendo forçadas ao trabalho, recebendo abaixo de suas necessidades vitais, sendo submetidas à condições sub-humanas de trabalho.

Isso é resultado de um Estado ausente, de leis e fiscalização adequadas que assegurem direitos, proteção ao trabalhador, cidadania e dignidade! 

A quem favorece a manutenção do trabalho escravo até os dias atuais? Aos grupos econômicos sem o mínimo de ética, solidariedade e responsabilidade social que tiram vantagem do sofrimento e da exploração de seus semelhantes.  

Link da matéria completa aqui.


15.4.16

Quem sustentou o Império brasileiro?

Antecedentes do rompimento político de Brasil e Portugal (1808 - 1822)

A transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 precipitou a independência da antiga colônia em relação a sua metrópole - Portugal.




Após a instalação da família real portuguesa no Brasil seguiram-se atos oficiais que seriam irreversíveis, tais como a Abertura dos Portos, oficializando o fim do exclusivismo comercial, e a elevação do Brasil a Reino Unido, rompendo sua condição de colônia.

Some-se a isso os acontecimentos externos ocorridos em Portugal, em 1820, decorrentes da Revolução Liberal do Porto, que pretendiam "regenerar" a nação portuguesa, exigindo o retorno imediato da família real para Lisboa e, posteriormente, tentou reverter os privilégios adquiridos pelo Brasil. 

Apesar da relutância, d. João VI retornou ao reino em 1821, mas deixou d. Pedro, seu filho e príncipe herdeiro, no Brasil com amplos poderes para governar (BERBEL, 2010 p. 41).

A independência e a opção pelo regime monárquico

As exigências das Cortes de Lisboa serviram para unir as elites brasileiras, principalmente o grupo do centro-sul que não queria perder os privilégios obtidos desde a vinda da família real para o Brasil, em 1808. Embora ainda não se falasse em separação de Portugal, os brasileiros das províncias do sul começaram a se articular em torno do príncipe herdeiro. Foi essa articulação de interesses que resultou no rompimento e na independência do Brasil no 7 de setembro de 1822, embora a condição de colônia já tinha sido abandonada muito tempo antes.




No Norte e na Cisplatina, as províncias eram favoráveis às Cortes de Lisboa e só reconheceram a autoridade de d. Pedro após as guerras de independência. 

A consumação da independência reforçou a necessidade de escolha, rapidamente, de um "novo" regime de governo para o Brasil.

Era preciso ter estabilidade, conter revoltas, impedir radicalismos políticos, dissolver dissidências, preservar a unidade territorial e conservar a estrutura social e econômica vigente - o latifúndio e o escravismo.

Pesava sobre as elites nacionais que rodeavam d. Pedro os processos políticos e emancipatórios ocorridos nos países vizinhos, antigas colônias espanholas que se tornaram nações independentes, que optaram pelo regime republicano, acusado de ser o causador de anarquia e da fragmentação territorial.

Essas ideias eram correntes no Brasil, um exemplo disso foi a Revolução Pernambucana de 1817, que também teve uma matiz republicana, divulgando ideias de liberdade e igualdade. A elite local, insatisfeita com o favorecimento da região sul em detrimento do Norte da antiga colônia chegou a instaurar um Governo Provisório englobando várias províncias do Nordeste, livre de Portugal. O movimento foi reprimido violentamente pelo governo português, com a aplicação da pena de morte a alguns dos principais líderes da insurreição.

Porém, a vinda família real portuguesa para o Brasil promoveu a interiorização da metrópole, criou fortes vínculos entre as elites coloniais, principalmente do centro-sul, com o regime monárquico, por meio da distribuição de títulos de nobreza e nomeações para cargos na administração. Além disso, após o retorno de d. João para o reino, um membro da realeza permaneceu no Brasil, o que reforçou  a escolha do regime monárquico após a separação. Por isso, no momento da ruptura entre Brasil e Portugal a preferência dos condutores do processo foi a via monárquica como a forma de governo ideal para apartar os males do republicanismo e das convulsões sociais.

Havia, basicamente, dois grupos antagônicos, os quais divergiam sobre o tipo do regime: monarquistas absolutistas x monarquistas constitucionais. Venceu o segundo grupo, capitaneado por José Bonifácio de Andrada e Silva.
Desse modo, d. Pedro I foi coroado em dezembro de 1822, outorgou a Constituição de 1824, que reforçou a posição do monarca, bem como seu caráter despótico.




A missão do monarca e o estabelecimento do Império

Para as elites, especialmente os senhores de escravos, a monarquia e a coroação de d. Pedro I em dezembro de 1822, seriam a salvação nacional, evitando a divisão territorial e afastando ideais republicanas, a exemplo do que ocorrera com as antigas colônias hispânicas na América. Mais importante ainda, a monarquia garantiria a continuidade da escravidão, assegurando a paz social, garantindo o sono dos senhores de escravos, os quais estavam preocupados com a revolução que assolou a Ilha de São Domingos (Haiti) em 1791, quando os cativos se rebelaram contra seus algozes, o que lhes possibilitou, no início do século XIX, proclamar a independência da ilha em relação à França, sua ex-metrópole, e abolir a escravidão.
Isso ficou conhecido como haitinianismo, uma ideia que exerceu grande impacto sobre as elites inseguras e temerosas de que algo semelhante acontecesse no Brasil. A preocupação tinha fundamento, afinal, havia 6 escravos para cada senhor. E se estes escravos resolvessem se rebelar, quem iria contê-los?


A rebelião de escravos no Haiti tirou o sono da elite escravocrata brasileira.

Essa missão cabia ao novo Império brasileiro, que não mediu esforços para garantir a continuidade do escravismo e, assim, promover a prosperidade nacional, sustentada em grande parte, pelo trabalho escravo. A figura de d. Pedro assumiu a centralidade para garantir a ordem ameaçada pelo medo do haitianismo.

A Inglaterra, principal parceira econômica do império brasileiro no século XIX, exerceu uma crescente pressão sobre o governo e as elites brasileiras para acabarem com o tráfico e abolir a escravidão. Os interesses ingleses, antes de serem humanitários, visavam uma expansão comercial com o Brasil que só seria possível com a libertação dos milhões de escravos e da implantação do trabalho assalariado para os ex-cativos.

Um observador britânico no Brasil registrou o seguinte a respeito do tráfico de  escravos: "Não há dez pessoas em todo o Império que considerem o tráfico um crime, ou que enxerguem sob qualquer outro ponto de vista a não ser aquele do lucro ou do prejuízo, uma mera especulação mercantil que deve ter prosseguimento enquanto for vantajosa". ( Henry Chamberlain apud MAXWELL, 2000, p. 11). Por maior que fosse a pressão inglesa pelo fim do tráfico e da escravidão, não havia interesse brasileiro em encerrar tais atividades que moviam toda sua economia.

José Bonifácio de Andrada e Silva, o patriarca da independência, em correspondência enviada ao ministro britânico no Brasil, Henry Chamberlain, em abril de 1823, enunciou a impossibilidade do Império brasileiro em acatar a solicitação inglesa: 


Estamos totalmente convencidos da inadequação do tráfico de escravos [...] mas devo frisar candidamente que a abolição não pode ser imediata, e eu explicarei as duas principais considerações que nos levam a essa determinação. Uma é de ordem econômica, a outra de ordem política. A primeira baseia-se na absoluta necessidade de tomarmos medidas para garantir um aumento da população branca antes da abolição, para que as lavouras do país possam continuar produzindo, caso contrário, com o fim do suprimento de negros, a lavoura diminuirá, causando grandes transtornos [...] esperamos adotar medidas para atrair imigrantes europeus para cá sem perda de tempo. Assim que estes começarem a produzir esse efeito, a necessidade do fornecimento de braços africanos diminuirá gradativamente, e eu espero que em alguns poucos anos se coloque um ponto final no tráfico para sempre [...]. A segunda consideração diz respeito à conveniência política, na medida em que afeta a popularidade e, talvez até, a estabilidade do governo. Poderíamos enfrentar a crise e a oposição daqueles que se dedicam ao tráfico, mas não podemos, sem um grau de risco que nenhum homem em sã consciência possa pensar em correr, tentar no momento presente propor uma medida que iria indispor a totalidade da população do interior [...] A quase totalidade de nossa agricultura é feita por negros e escravos. Os brancos, infelizmente, pouco trabalho fazem, e se os proprietários rurais tivessem seu suprimento de trabalhadores repentinamente cortado, deixo que vossa mercê faça julgamento do efeito que isso teria sobre essa classe de gente desinformada e pouco ilustrada.


José Bonifácio explica que o governo não podia, de imediato, pôr fim à escravidão. Se isso ocorresse abalaria a estabilidade do Império, traria prejuízos econômicos para os latifundiários e poderia mergulhar o país num grande conflito social. Em suma, o fim da escravidão deveria ser lento e executado de forma gradual, a fim de evitar danos às estruturas de poder e à ordem social e econômica.

A campanha inglesa arregimentou apoiadores no Brasil, os quais se alistaram nas falanges do abolicionismo, movimento político que foi marcante, nitidamente, no Segundo Reinado (1840-1889).
Mas o governo brasileiro permaneceu diligente, agindo em prol dos grandes proprietários de terras e senhores de escravos, sua principal fonte de apoio político, usando da diplomacia para ludibriar as cobranças britânicas e a força policial para garantir a lei e a ordem interna. Nesse sentido, o processo que resultou no fim da escravidão foi lento, de modo que não provocou nenhuma ebulição social e racial no país, nem grandes transformações sociais e econômicas. Vamos recordar os inúmeros instrumentos e recursos legais o Império utilizou ao longo do processo que antecedeu a libertação dos cativos:


  • 1827: Brasil assina acordo com a Inglaterra se comprometendo a acabar com o tráfico de escravos, em troca do reconhecimento de sua independência;
  • 1845: Bill Aberdeen - permitia aos ingleses inspecionar navios brasileiros;
  • 1850: Lei Eusébio de Queirós - proibiu o tráfico de escravos;
  • 1871: Lei do Ventre Livre - filhos de escravas seriam livres;
  • 1885: Lei dos Sexagenários - libertava cativos com mais de 60 anos;
  • 1888: Lei Áurea: aboliu a escravidão no Brasil. 

Dessa forma, a escravidão persistiu em todo o período imperial, a despeito das pressões inglesas e das restrições impostas ao tráfico de escravos. O trabalho compulsório persistirá até o fim do século XIX, atendendo aos interesses, principalmente dos grandes proprietários rurais, os quais se mantinham fiéis à figura do Imperador. 



Ocorreu que, ao final do século XIX, quando a escravidão se tornou insustentável, foi oficialmente abolida em 1888, fato que desagradou muitos apoiadores do regime monárquico, os quais perderam a força de trabalho que originava a maior parte de sua opulência e de sua riqueza.

Como resultado, o Império ficou ainda mais desgastado, principalmente com sua principal base de apoio. As elites latifundiárias e escravistas, sobretudo, os cafeicultores, a partir de então, começaram a retirar seu apoio do monarca e a abraçar com mais fervor o republicanismo, já bastante difundido pela imprensa no território nacional. 

Assim, o imperador e o escravismo caíram juntos, substituídos, respectivamente, pelo governo republicano e pelo trabalho livre, privilegiando os imigrantes europeus. O historiador Kennett Maxwell afirmou, em tom lapidar, que "não é de surpreender que quando a escravidão ruiu, a monarquia ruiu junto com ela". Nesse sentido, monarquia e escravidão caminharam lado a lado, a existência da primeira dependia e se justificava, pelo menos em certa medida, na preservação do funcionamento da segunda. Logo, quando caiu a escravidão, o Império também chegou ao fim. Sem escravos, monarquia para que?

Bibliografia consultada

MAXWELL, Kenneth. Por que o Brasil foi diferente? O contexto da independência. In: MOTA, Carlos Guilherme (org). Viagem incompleta - a experiência brasileira. São Paulo: Editora Senac, 2000.

NEVES, Lúcia M. Bastos P. Estado e política na independência. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil imperial, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 95-136.

OLIVEIRA, Cecília Helena de Salles. Repercussões da revolução: delineamento do império do Brasil, 1808-1831. In: GRINBERG, Keila e SALLES, Ricardo. O Brasil imperial, vol. 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p. 15-54.

26.10.15

A escravidão na Villa do Carmo no século XIX

Não é segredo para ninguém que o Brasil tem um passado marcado pela exploração do trabalho escravo. Essa ferida ainda não foi totalmente cicatrizada. Ela fica muito visível quando observamos as inúmeras desigualdades sociais entre negros e brancos do país.

As pesquisas revelam que, dentre os pobres, os negros são os mais pobres ainda; eles têm menor média de escolaridade; são a maioria entre a população carcerária, dentre outras mazelas sociais.

O que talvez muitos não saibam é que a Cidade Bela não fugiu à regra da escravidão e, no século XIX, também recorreu ao trabalho forçado dos negros.

No livro Reminiscências de Carmo, escrito pelo memorialista carmense Afrânio Gismonti Machado, o autor teve acesso a fontes primárias, como, por exemplo, o periódico O Carmense, de 1887.
Ele reproduziu várias passagens que deixam claro como era a relação entre brancos e escravos aqui no Carmo naquela época. Vejamos:

"O Dr. Antonio Augusto Pereira Lima, distinto advogado residente nesta vila, condoendo-se deveras do infeliz estado a que, devido a um enorme tumor que lhe sobreveio sobre uma das pálpebras chegou o preto Manoel, então escravo do Sr. Manoel do Carmo, libertou-o..."  (p. 42).

O excerto explicita a forma como os escravos eram tratados por seus donos - como objetos, simples mercadorias. Note que no registro o Doutor concede a liberdade para um escravo, mas o faz apenas porque ele não era mais capaz de ser produtivo, afinal tinha ficado gravemente doente. Se o dono ficasse com esse escravo, teria apenas prejuízo, alimentando-o e arcando com as despesas médicas.

No livro, há ainda inúmeras reproduções do jornal O Carmense com informes sobre os cativos e avisos de recompensas para quem prendesse algum escravo fugido. 

Em uma pesquisa que iniciei no ano passado, sobre a História do Carmo no século XIX, encontrei uma fonte histórica muito interessante, porém o fato noticiado não ocorreu no Carmo, mas na freguesia vizinha - Sumidouro de Paquequer. Trata-se de uma notícia, publicada no Diário de Minas, de Ouro Preto, sobre uma revolta de escravos em Sumidouro em 1873, localidade que era uma freguesia de Nova Friburgo.

Diario de Minas, Ouro Preto, número 18, ano 1873.


"- Causou tambem bastante sensação a noticia de um levantamento de escravos no Sumidouro de Paquequer. A' principio as versões correrão muito encontradas; mas ultimamente fez-se a luz, e os jornaes são accórdes em attribuir o levantamento a uma noticia, sem fundamento, de que o finado fazendeiro Francisco Luiz Pereira havia deixado livres em testamento a todos os seus escravos.
Nesta persuasão e instigados sobretudo por pessoas desaffectas aos herdeiros de Luiz Pereira, 57 desses escravos dirigrião-se a Magé, onde tencionavão embarcar-se para vir a côrte, afim de fazerem valer seus suppostos direitos à liberdade, quando alli foram aprisionados. Mas antes de sahirem da fazenda havia-se dado um conflicto, no qual a força publica, dirigida pelo subdelegado, e tendo penetrado na fazenda, della fora repeliida pelos escravos que se tinhão armado com fouces. Este sucesso, porem, foi simplesmente local.


Nas fazendas visinhas, felizmente, a tranquilidade publica e a segurança individual não tinhão sido perturbadas."

Perceba que os escravos da fazenda do finado Francisco Luiz Pereira eram numerosos e, nesse levante, chegaram a enfrentar e afugentar as forças policiais da Villa do Carmo. O fato demonstra a resistência dos negros ao cativeiro. Quando tinham uma chance de liberdade, eles se agarravam a ela e lutavam.

A notícia da revolta de escravos correu a província do Rio de Janeiro e chegou até Ouro Preto, em Minas Gerais, pois o assunto interessava a toda a sociedade, principalmente aos brancos e senhores de escravos. Havia um temor entre as elites brasileiras de que a ocorresse no Brasil uma revolta negra (o haitianismo), tal como ocorreu no Haiti, no fim do século XVIII.

Por isso, o jornal termina tranquilizando a todos, afirmando que a ordem estava assegurada na região e que o incidente foi apenas local. A última frase da notícia deixa claro o medo que paraiva entre os brancos, os quais tinham receio de que ocorresse uma rebelião generalizada dos escravos, culminando na morte dos brancos pelos negros e no controle do império pelos homens de cor. 

Para saber mais sobre o nosso passado é possível pesquisar em várias fontes. Temos a Hemeroteca digital da Biblioteca nacional, onde encontramos o Almanack do Carmense, de 1888; no Centro Cultural da cidade, há exemplares do Correio do Carmo, com edições de 1929 a 1943, e há também os valiosos registros paroquiais do século XIX, que estão muito bem guardados na secretaria da Matriz Nossa Senhora do Carmo, porém não acessíveis para pesquisa.

Enfim, ainda temos muito para pesquisar e para descobrir sobre a História do Carmo, mas o trabalho já foi iniciado e, aos poucos, seus resultados serão apresentados em nosso Blog, o Acrópole – História & Educação, e na Coluna do Historiador, do jornal CIEP NEWS.

1.9.14

Escravidão no Brasil: diferentes formas de exploração do trabalho escravo

Entre os séculos XVI e XIX, a mão de obra predominante na economia brasileira foi a escrava. 
De acordo com o Historiador Jaime Pinsky, a escravidão "se caracteriza por sujeitar um homem ao outro, de forma completa: o escravo não é apenas propriedade do senhor, mas também sua vontade está sujeita à autoridade do dono e seu trabalho pode ser obtido até pela força." (PINSKY, 2000).


Dentre as principais atividades desempenhadas pelos escravos no Brasil no período colonial e imperial, temos:

Escravo rural


Trabalhavam nas fazendas, cultivando cana de açúcar, tabaco, café e outros gêneros agrícolas. Nelas os escravos suportavam uma jornada diária de até 18 horas de trabalho. A rotina no campo era extenuante, pois os cativos sofriam muitos castigos físicos, viviam em condições precárias e ficavam a mercê da autoridade de seus proprietários.

Escravo de ganho

Atuavam no comércio urbano, a mando de seus senhores ou de suas senhoras. 
"Eles vendiam doces, refrescos, frutas, aves e ovos, roupas, chaleiras, velas, estatuetas de santos, poções de amor. Ou atuavam nos demais ofícios, como barbeiros, ferreiros, quitandeiros, parteiras, doceiras, mascates, lixeiros, carregadores. Transportavam tudo nos ombros e nos braços, até pessoas - brancos brasileiros e estrangeiros acomodados em cadeirinhas almofadadas. O dinheiro acumulado na prestação desses serviços podia um dia comprar a carta de alforria. " (Fonte: Guia do Estudante, acesso em 27 ago. 2014).

Escravo de aluguel
Anúncio do jornal Diário de Minas (Janeiro de 1875).
Eram alugados por seu senhor a terceiros. Normalmente eram escravos especialistas em algum ofício, como sapateiros, carpinteiros e cozinheiros.
Como pode ser observado no anúncio acima, retirado de um jornal do século XIX, as empresas também procuravam escravos para alugar, tendo em vista que com a proibição do tráfico internacional de cativos a partir de 1850, era preciso buscar mão de obra internamente. Assim, foi comum os senhores de escravos alugarem seus cativos para particulares e até para órgãos governamentais, recebendo dinheiro por esta negociação.

Escravo das minas


Mineração. Litogravura de Rugendas. 1827.
Com a descoberta do ouro em Minas Gerais no século XVII, houve grande fluxo de migrantes para essa região. Eles buscavam riquezas e recorreram aos escravos africanos para explorar as minas. Havia o ouro de aluvião, encontrado entre o cascalho no leito dos rios e a aquele extraído do interior das montanhas. Nas minas era muito comum ocorrer desmoronamentos, os quais mataram muitos escravos. Eles também adoeciam e morriam por intoxicação devido aos gases exalados pelos metais. Todos esses riscos tornavam a expectativa de vida dos escravos mineiros muito baixa, atingindo em média 7 anos. (ESCHWEGE apud SOUZA. O preço do risco. Site: Revista de História).

Escravo urbano
Carregadores de água. Rugendas (século XIX).
Esse grupo de escravos concentrava-se nas cidades do Brasil Colônia e Império. Nelas eles se dedicavam a diversas atividades profissionais, como o serviço doméstico, fazendo mandados e outros serviços para seus senhores.

Os escravos das cidades viviam em condições um pouco melhores dos escravos do campo. Sua rotina era menos árdua, comiam melhor, tinham algumas regalias e mais facilidade para obter sua alforria (liberdade).  


Mas a vida do escravo das cidades brasileiras não era nenhum "mar de rosas". Eles passavam por dificuldades e humilhações, como por exemplo ocorria com os tigreiros. Os “tigres”, escravos que na calada da noite transportavam barris com fezes e urina para jogá-los em praias e valas. Quando o nauseabundo carregamento transbordava, escorria pelos seus corpos formando listras que justificavam o apelido". (Fonte: Revista de História. Acesso em 27 ago. 2014).
 

Conclusão

Desde o início da colonização do Brasil o trabalho escravo foi uma constante em nossa História.
O trabalho compulsório foi imposto aos índios e aos povos africanos trazidos para cá. Essa forma de exploração humana iniciada por volta de 1530 só foi abolida em 1888, portanto durou mais de 350 anos.
O passado escravocrata deixou marcas em nossa sociedade, que são perceptíveis até os dias atuais, em manifestações de racismo, na desigualdade social, na exploração do trabalho e através de outros tipos de preconceitos relacionados aos índios e aos afroamericanos.

Qualquer tipo de exploração do trabalho é crime e, como tal, deve ser denunciado às autoridades, pois a escravidão fere o direito sagrado de todo indivíduo que é a Liberdade.

De olho no ENEM

Questão do ENEM - 2017 sobre escravidão doméstica 


22.8.14

Ecos de um passado escravocrata

A partir da terceira década do século XVI, o tráfico de escravos africanos para o Brasil começou a ganhar uma forma definida. A colônia portuguesa passou a fazer parte de uma vasta rede comercial, cuja principal mercadoria eram homens, mulheres e crianças capturados na África para serem vendidos nas Américas, além da Europa e da Ásia, em menor número. Esse fenômeno é conhecido como Diáspora Negra, ou Diáspora Africana.

Só no Brasil desembarcaram mais de 4 milhões de escravos africanos. A viagem dos cativos era um sonho dantesco, como registrou o poeta Castro Alves. Ela começava nos portos de Luanda ou Benguela e durava entre 35 a 50 dias até chegar ao Rio de Janeiro ou Salvador.
Os negros viajavam em porões imundos e apertados, cerca de 30% dos cativos não resistia a viagem e morria vítima de desidratação, tifo e cólera.

Porão de navio negreiro (1835). Rugendas.
No processo de captura do escravo foi muito comum a participação de príncipes e reis africanos que firmavam alianças com os traficantes europeus. 
Gravura de C. P. Speke. Século XIX.
Os líderes africanos trocavam escravos, seus prisioneiros de guerras intertribais, para obter armas, roupas e outros artigos da Europa e de suas colônias.

A origem étnica e cultural dos escravos era muito diversificada. Eles eram originários de várias e longínquas regiões da África (Observe o mapa acima e a variedade étnica - Sudaneses e Bantos). Alguns grupos praticavam a religião islâmica, outros as religiões tradicionais do continente, como o culto aos orixás. Os escravos da etnia dos malês, trazidos para a Bahia no século XIX, por exemplo, eram muçulmanos,  e alguns sabiam ler e escrever na língua árabe.

Embora tenham sido submetidos ao trabalho forçado, os cativos lutavam para preservar sua cultura, suas memórias, suas crenças e seus costumes. O sincretismo religioso, por exemplo, foi uma maneira que os afroamericanos encontraram para cultuar suas divindades. Como seus rituais eram condenados por seus senhores e pelas autoridades católicas, eles associaram as entidades do Candomblé aos santos católicos para continuarem realizando seus ritos sem sofrer perseguição. Assim, na religiosidade afroamericana, São Jorge é cultuado como Ogum, Santa Bárbara é reverenciada como Iansã, dentre outros exemplos.

No vestuário, na alimentação, no vocabulário, nas danças, nos festejos, enfim "em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra." (FREYRE, GILBERTO. Casa Grande & Senzala, 1933).

Observe nas imagens abaixo um pouco da influência africana em vários aspectos de nossa cultura.

Baiana preparando o acarajé, frito no azeite de dendê, cuja origem é africana.

Prática do Candomblé (Bahia).

Procissão da Congada. Festejo que exemplifica o Hibridismo, mistura de elementos da cultura cristã e africana.

Olodum - grupo de percussão afro-brasileira. O som dos tambores e a dança são heranças culturais afroamericanas.

Capoeira, uma tradição criada pelos escravos.

Vocabulário, palavras de origem africana.

2.12.13

Formação histórica e o trabalho escravo em Leopoldina no século XIX

A partir da metade do século XVIII, a Zona da Mata mineira começava a ser devassada pelos colonos oriundos da decadente região mineradora, os quais buscavam abrir novos caminhos e trilhas ligando Minas ao porto do Rio de Janeiro. 

Naquela época a região era conhecida como "Sertão Proibido", pois era habitada por índios selvagens e coberta por densa vegetação representando grandes obstáculos para os colonos, ao passo que evitava o contrabando e os desvios do ouro.
Mas apesar dos riscos - os índios e o perigo da mata - muitos se aventuraram na empreitada colonizadora, abrindo picadas na mata, buscando novas jazidas de ouro para explorar, e criando pousos e roças, afim de se estabelecerem na localidade. 
Os colonos transportavam seus produtos no lombo das mulas. (Rugendas).
De acordo com o historiador Fernando Lamas, há duas fases que precisam ser consideradas na ocupação da Zona da Mata, a saber: "Uma iniciada na primeira metade do século XVIII e ligada à abertura do Caminho Novo, na região sul da Mata e outra que se iniciou na segunda metade do mesmo século, a partir da penetração na área central da Mata, localizada às margens do rio Pomba. Ambas possuem ligação, pois, a partir da primeira área, o Caminho Novo, partiu a expedição que deu origem à colonização da segunda área, o vale do rio Pomba." (Povoamento e colonização da Zona da Mata Mineira no século XVIII. p. 2. Disponível on-line: http://www.historica.arquivoestado.sp.gov.br/materias/anteriores/edicao08/materia01/texto01.pdf acesso em 30 nov. 2013).

A ocupação da área compreendida por Leopoldina está inserida no segundo momento da Colonização da Zona da Mata, a partir da abertura do Caminho Novo - iniciada em 1699 e concluída em 1725 - os colonos desbravaram o vale do Pomba na segunda metade do século XVIII.
Muitos colonos que trabalharam na abertura do Caminho Novo permaneciam na localidade, onde recebiam sesmarias e cultivavam os gêneros agrícolas para oferecer aos transeuntes.

Já a ocupação da parte sul da Mata "iniciou efetivamente a partir de 1817, quando proprietários de lavras na região das minas migraram para o vale do rio Paraíba do Sul, para aí estabelecer a cafeicultura de base escravista." 
(CARRARA, A. A. As Zonas da Mata de Minas GeraisIn: Seminário de História Econômica e Social da Zona da Mata mineira, I: 2005, Juiz de Fora (MG). Anais. CES 2005. (Disponível em CD-ROM).

Colonizar a região era fundamental para facilitar o escoamento de mercadorias entre as capitanias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, formar novas áreas agrícolas, combater a formação de quilombos e catequizar os índios que habitavam a Zona da Mata. Com esse intuito que a região passou a ser habitada por famílias de agricultores, líderes religiosos e militares.
Os índios eram catequizados pelos missionários e reunidos em aldeias, onde aprendiam as técnicas agrícolas e artesanais. (Aldeia dos tapuias. Rugendas, 1820).
E é na parte sul da Mata que ficava o distrito de São Sebastião do Feijão Cru o qual, em 1831, pertencia à Vila de São Manuel do Pomba (Atual cidade de Rio Pomba).

Naquele ano, os fazendeiros Francisco Pinheiro de Lacerda e seu sogro Joaquim Ferreira de Brito doaram terras no local, onde foi construída uma capela dedicada à São Sebastião. Nesse lugar, próximo às margens do ribeirão feijão cru (afluente do Rio Pomba), surgiu o povoado que deu origem à Vila de Leopoldina, emancipada pela Lei Provincial nº 666 de 27 de abril de 1854, sendo separada de Mar de Espanha. No dia 20 de janeiro de 1855 foi instalado o município.  
Em 16 de outubro de 1861, a Lei Provincial nº 1116, a Vila foi elevada à condição de cidade com o nome de Leopoldina, em homenagem à segunda filha do imperador D. Pedro II.

Antigamente, o território de Leopoldina era muito vasto, englobando muitas localidades, como Rio Pardo (depois Argirita), Piedade (Piacatuba) Tebas, Campo Limpo, Conceição da Boa Vista, Providência, Recreio, Santa Isabel, São Joaquim, freguesia de Santa Rita do Meia Pataca (atual Cataguases) dentre outras. Gradativamente alguns desses territórios foram sendo desmembrados, originando novas vilas e Leopoldina foi se aproximando de seu contorno geográfico atual.
Escravos derrubando a mata para a formação de roças e aldeias. (Rugendas)

A agricultura foi a atividade econômica predominante da região, onde os colonos cultivavam roças com diversos gêneros agrícolas, tais como o milho, feijão, mandioca, cana de açúcar, tabaco e o café.  Criavam bois, porcos e aves. 

A produção tinha um caráter de subsistência, e o excedente era comercializado, abastecendo as demais regiões da província de Minas Gerais e a capital do Império - o Rio de Janeiro.
Por volta de 1840 houve uma expansão do desenvolvimento econômico da região, graças ao cultivo do café. O crescimento econômico continuou e em 1877, a cidade recebeu os trilhos da ferrovia Estrada de Ferro Leopoldina, construída por iniciativa de fazendeiros, comerciantes apoiados pelo governo provincial. 
Colheita de café, Vale do Paraíba. 1882.
Na década de 1870, a Zona da Mata era a principal produtora de café de Minas Gerais, e respondia por 60% da arrecadação provincial. (Fábio W. A. Pinheiro. O Tráfico de escravos na Zona da Mata Mineira: Minas Gerais, 1808 – 1850. In: Seminário de História Econômica e Social da Zona da Mata mineira, I: 2005, Juiz de Fora (MG). Anais. CES 2005. (Disponível em CD-ROM).
A ferrovia transportava, de forma rápida, riquezas e pessoas, e ligava o interior de Minas ao Rio de Janeiro - capital do Império.
E. F. Leopoldina (1952). Os trilhos cortavam o centro da cidade.
Inicialmente, a forma de trabalho predominante na região era a familiar e indígena (índios aldeados). Mas, "com o crescimento das lavouras, a implantação da ferrovia e exportação de produtos agrícolas; houve a necessidade de aumentar o número de braços para a agricultura, principalmente nas grandes fazendas após a década de 1870, a solução foi a adoção efetiva dos escravos." (FANNI, O. SIlvana. Cataguases no século XIXIn: Seminário de História Econômica e Social da Zona da Mata mineira, I: 2005, Juiz de Fora (MG). Anais. CES 2005. (Disponível em CD-ROM).)

Nesse sentido, a população escrava de Leopoldina tornou-se bastante significativa, uma das maiores da Zona da Mata Mineira, na segunda metade do século XIX. No ano de 1876 o número de escravos em Leopoldina era de 15.253, superior ao número de cativos em Mar de Espanha e Juiz de Fora, que eram, respectivamente, 12.658 e 14.368. (Tráfico interno e concentração de população escrava no principal município cafeeiro da Zona da Mata de Minas Gerais: Juiz de Fora (segunda metade do século XIX). p. 11. Disponível on-line: http://web.cedeplar.ufmg.br/cedeplar/site/diamantina2002/textos/D10.PDF acesso em 30 de nov. 2013.

Como o tráfico internacional de escravos para o Brasil estava proibido desde 1850, pela Lei Eusébio de Queirós, os fazendeiros locais recorriam ao tráfico interprovincial, adquirindo mão de obra escrava oriunda das províncias do Nordeste, antigas produtoras de cana de açúcar. 

No ano de 1879 foi fundado o jornal O Leopoldinense, periódico que circulava na cidade, na segunda metade do século XIX.

Muitas edições do jornal O Leopoldinense estão disponíveis para consulta on-line na Hemeroteca da Biblioteca Nacional. 

O Leopoldinense tratava de diversos temas - notícias, sociais, trazia em suas páginas contos, poesias e informes diversos sobre a cidade e a província de Minas Gerais, além de inúmeros anúncios.
Gostaríamos de registrar aqui alguns ANNUNCIOS que encontramos nesse jornal, os quais certamente chamarão a atenção dos estudantes de História.
Os anúncios dão conta da fuga de escravos de sítios e fazendas locais. Os proprietários procuravam reaver seu patrimônio - os cativos fugidos - por isso, recorriam ao jornal para tornar pública sua busca.
Vejamos alguns registros de 17 de fevereiro de 1881:

Escravos fugidos

"No dia 25 de Janeiro proximo passado, fugiu da fazenda do Morro Alto, perto da estação da Providencia, do tenente-coronel José Maria Manso da Costa Reis, o escravo Trajano, solteiro, creoulo, baixo, barbado, de bons dentes, fula, de 49 annos de idade mais ou menos, carpinteiro, pernas cambêtas, pisa como periquito, fallante e muito esperto."

Há outro anúncio na mesma edição do jornal, que reproduzimos na imagem abaixo:


O texto diz: 
"Fugiu da fasenda de Santa Cruz, em Santa Barbara do Rio Novo[região próxima a São João Nepomuceno], pertencente a Araujo Maia & Irmão, o escravo João, com os signaes seguintes: pardo, escuro, estatura regular, cheio de corpo, pouca barba, bem feito, testa pequena, nariz grande, peitos largo e cabellos encarapinhados; levou roupas finas e botinas. Consta que seguiu o caminho da Leopoldina, com destino ao Rio Pardo [atualmente município de Argirita] ou Piedade, quer passar por livre e foi visto no rancho de Francisco Ferraz; quem o appanhar(?) e levar a referida fazenda ou á rua Municipal a. 17, será bem gratificado."

Na edição de 24 abril de 1881 encontramos mais um anúncio de fuga de cativo.
"Fugiu no dia 20 do corrente, o escrado João, crioulo, idade 23 annos mais ou menos, côr fula, altura regular, ligeiro no andar, esperto no serviço e bom carreiro; foi apadrinhar-se na fazenda do Sr. Josué de Vargas e d'ahi evadiu-se de novo, quem o aprehender e levar a estação do Recreio, sitio do Serrote, propriedade de Francisco Ferreira Netto, será gratificado com a quantia acima."

Os escravos, como vimos nos anúncios, não aceitavam passivamente sua condição de cativos, eles lutavam, fugiam e até formavam quilombos onde tentavam restabelecer suas vidas. Durante as fugas era fundamental levar artigos que tivessem alguma utilidade futura.
Sobre esse aspecto, a historiadora Marcia Amantino afirma que: "Além das roupas que poderiam ser usadas como facilitadoras de relações sociais e disfarce para a condição de cativo, os escravos fugiam levando também outros tipos de apetrechos: facas, cavalos, tecidos, etc. Todos estes elementos possuíam a função de facilitar a nova vida em outros locais." (AMANTINO, Márcia. O cotidiano escravo em Cataguases nas últimas décadas da escravidão. In: Seminário de História Econômica e Social da Zona da Mata mineira, I: 2005, Juiz de Fora (MG). Anais. CES 2005. (Disponível em CD-ROM).
É o caso do escravo João, descrito no segundo anúncio, ele fugiu e levou consigo roupas e calçados, acessórios que o ajudariam a se inserir na comunidade e a concretizar o seu desejo de ser livre.

A rebeldia dos cativos preocupava bastante tanto os seus senhores quanto  as autoridades locais, que ficavam receosas de ocorrer uma rebelião de escravos. Afinal, a população escrava era bastante significativa. O recenseamento de 1872 revela que 24,39% de escravos da Província de Minas Gerais viviam na Zona da Mata. (
CARRARA, A. A. 2005).

Portanto, era necessário combater as fugas e a formação dos quilombos, para evitar que ocorresse na região algo parecido com o que ocorrera na Bahia, com a Revolta dos Malês em 1835, e no Haiti, em 1791, onde os escravos se rebelaram contra a elite branca que dominava a ilha.


Nos livros de História fala-se muito em escravidão, e de sua presença nos engenhos de açúcar nordestinos, nas minas de ouro da região central de Minas Gerais e, depois, nas fazendas de café do vale do Paraíba. Porém, no interior do Brasil, em uma pacata cidade como Leopoldina há um passado fortemente marcado pelo trabalho compulsório e a presença de cativos afro-brasileiros que precisa ser conhecido e melhor estudado.

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