Blog mantido para preservar o trabalho do Professor e Historiador Rodolfo Alves Pereira. O site mantém registros de algumas de suas publicações e trabalhos apresentados em Congressos e Eventos acadêmicos e Educacionais, nos quais deixou valiosas contribuições acerca da Metodologia e do Ensino de História na Educação Básica. Também contém registros de algumas de suas experiências didático-pedagógicas mais importantes, além de projetos desenvolvidos nas escolas onde atuou.
Siga o caminho e o exemplo dos grandes e virtuosos, caso erre durante o trajeto ao menos errará tentando fazer coisas nobres, que enaltecem o espírito.
Na live de hoje discutimos com os alunos do Ensino Médio a questão: "Como reduzir a desigualdade social no Brasil?"
A aluna Júlia H., da turma 2002, produziu um texto com encaminhamentos e sugestões para a resolução do problema. Confira:
No livro "O Cortiço" de Aluísio de Azevedo, é retratada a desigualdade social no século XIX, onde está presente exploração dos mais pobres, péssimas condições de vida e a situação oposta, por meio da comparação com a burguesia. Fora da ficção, não é diferente, visto que, enquanto uns tem muito, outros vivem na miséria.
Seguindo tal raciocínio, a desigualdade social provém de diversos fatores que necessitam uma solução adequada.
Sendo assim, é válido salientar que tamanho desequilíbrio social provém não só de governos, mas de uma sociedade extremamente corrupta, individualista, egocêntrica e incoerente, além do não investimento em áreas fundamentais (como saúde e educação), assim como em infraestrutura.
Em virtude dos fatos, fazem-se necessárias ações para que o quadro de desigualdade social seja alterado. Portanto, cabe ao governo melhorar a empregabilidade, possibilitando a aplicação de concursos públicos anualmente em todos os municípios, como medida integrativa, para que todos tenham oportunidades suficientes para ingressar no mercado de trabalho.
Outro sim, O Poder Executivo, em parceria com o Ministério da Educação, deve assegurar políticas de inclusão social, principalmente na educação pública, permitindo que pessoas de comunidades carentes tenham acesso à uma vida mais digna, tendo seus direitos de cidadãos atendidos. Assim, evitar-se-á cenário semelhantes àquele apresentado na obra romântica naturalista de Aluísio de Azevedo.
Júlia H., 2° ano do Ensino Médio, CIEP 280.
O aluno Jorge L. também analisou o problema com bastante clareza. Vejam só:
A desigualdade social no Brasil é um problema que afeta grande parte da população. Isso decorre da falta de acesso à educação de qualidade e a dificuldade de acesso aos serviços básicos (como saúde), por exemplo.
Logo, é possível perceber, sobretudo, por meio do aumento do desemprego e da
violência os desafios que temos pela frente.
Levando-se em consideração esses aspectos, nota-se a urgência de medidas para solucionar os problemas nacionais. Devemos combater a desigualdade social com a elevação do nível salarial, com uma taxação de impostos mais equilibrada, quer dizer, quem tem mais paga mais, e uma educação de qualidade para todos.
Dessa forma, essas reformas devem ser sutis e progressivas, para que não tenha uma evasão de capital para o exterior, o que causaria uma regressão nesse processo. Nas mídias, que são fortes formadoras de opinião, poderia ser veiculados conteúdos que envolvessem a sociedade e a participação coletiva nesta proposta de mudança. Nas escolas, ensinar os alunos que eles são a grande esperança para superar a desigualdade social no Brasil.
Jorge L., aluno do 2° ano do Ensino Médio, CIEP 280.
Hoje, 9 de maio de 2020, um grupo de manifestantes saiu às ruas de Brasília para apoiar o presidente e defender o fechamento do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional.
Os manifestantes também atacaram os governadores, a imprensa e são contra o isolamento social em virtude da pandemia (o Brasil contabiliza mais de 10 mil mortos até o momento).
Os organizadores da manifestação fizeram vídeo, chamaram militares, policiais e o povo de todo o Brasil para participar do movimento abertamente autoritário, mas o fiasco foi inevitável.
Manifestação esvaziada, assim como o apoio ao presidente. Reflexo da desaprovação popular.
Os poucos golpistas, vestidos de verde e amarelo, clamando por ditadura, fim da democracia e intervenção militar fizeram um papel ridículo. Apenas reforçaram para o país e para o mundo o quanto o presidente desequilibrado está isolado, sem apoio e com a popularidade e aprovação popular se deteriorando rapidamente (ruim e péssimo =49%; bom e ótimo = 27%). Desesperados com a queda do "mito", resta a violência, o confronto e a barbárie.
Este cidadão que hoje ocupa a presidência da república é um despreparado, arrasta o país para o caos social, gera instabilidade entre as instituições, tão importantes para a democracia e para a paz que precisamos. Os golpistas que ainda apoiam o presidente, aquele cidadão que foi parlamentar por mais de duas décadas e fez mais por sua família do que pelo estado que representava, podem fazer barulho, mas as forças democráticas e progressistas irão prosperar.
Esssa turma que vai para as ruas pedir golpe e fechamento das instituições democráticas é perigosa, rasteira, precisa ser enquadrada pela Lei de Segurança Nacional, pela restauração da sanidade do país e pelo seu povo de bem.
Em 1852, foi construído,num terreno próximo à bela baía de Botafogo, no Rio de Janeiro, o Hospício de Alienados Pedro II, um asilo para loucos e pessoas que sofriam com delírios e perturbações mentais. "O palácio dos loucos", apelido recebido pelo prédio, era administrado pela Santa Casa de Misericórdia.
O prédio, em estilo neoclássico, foi o primeiro hospital para doentes mentais no Brasil e seguia as tradições dos alienistas franceses da segunda metade e final do século XIX. Nessa essa linha de atuação, os alienados deveriam ser isolados, afim de ficarem longe das causas que lhes provocavam o desequilíbrio e a loucura. Tinha capacidade para 300 internos, de ambos os sexos, e já em 1862 estava com seu limite extrapolado.
Muitos dos internos eram pobres e negros, alcoólatras e vadios que perambulavam pelas vielas do Rio de Janeiro, onde promoviam distúrbios e baderna. Recolhidos pela polícia, eram colocados em camisas de força e levados para o Hospício, onde eram tratados com ducha de água fria e outros métodos que visavam restaurar a razão dos pacientes.
O talentoso romancista carioca, Lima Barreto (1881-1922) foi um ilustre paciente do Hospício Pedro II. Alcoólatra, Lima passou pela instituição em 1914 e 1919. À essa época, o hospício estava sob o controle do Governo federal e recebeu nome: Hospital Nacional dos Alienados.
Lima Barreto fora internado, pela última vez, no dia 25 de dezembro de 1919, após ter um delírio e quebrar as vidraças de sua casa. Seu irmão entregou-o à polícia, e o escritor foi levado ao hospício. Lá, Lima fez anotações à lápis sobre as instalações, seu cotidiano, os pacientes e os funcionários. Seu relato resultou em duas obras, "Diário do hospício", no qual documentou sua experiência durante o tempo em que permaneceu internado, e "O cemitério dos vivos", um romance inacabado, uma versão ficcional da mesma experiência do escritor no hospital.
Numa passagem, Lima registra situações em que passou por dificuldades e comparou seus constrangimentos com Cervantes e Dostoiévski, autores admirados pelo brasileiro, os quais também passaram por experiência no cárcere.
"Voltei para o pátio, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria".
Pelo Hospital dos Alienados passaram grandes nomes da medicina brasileira, como Juliano Moreira, baiano e mulato, que se tornou um pioneiro da psiquiatria no Brasil.
Juliano Moreira também ficou reconhecido por se opor a ideia defendida por Nina Rodrigues, para quem a mestiçagem teve impacto inconveniente na formação do povo brasileiro.
Na década de 1940, sem condições adequadas de funcionamento, os internos foram transferidos do Hospital dos Alienados para outro local. O prédio foi doado à Universidade do Brasil, atual UFRJ, passou por restauração e hoje funciona como Instituto de Psiquiatria da Universidade.
É bom aproveitar a quarentena para estudar, ler, escrever e revisitar os clássicos da Literatura Nacional!
Estive relendo o velho Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), do maior escritor brasileiro - Machado de Assis - que obra!
Por meio da deliciosa trama construída ricamente por Machado de Assis, somos conduzidos por sua pena sofisticada à uma viagem de volta no tempo, ao Rio de Janeiro, no século XIX. Destaco uma parte do texto, na qual o gênio do autor nos coloca na sala de jantar dos Cubas, a rica família do protagonista, enquanto celebravam, com ilustres convidados, a queda de Bonaparte na Europa.
"Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luxo clássico".
Os hábitos descritos no jantar, como a preparação da mesa e o uso de louças foram trazidos pelo Brasil pela Família Real Portuguesa, em 1808, desde então a elite da colônia passou a adotar costumes à moda europeia. Vestir-se como os europeus, ir ao teatro, passear pelos jardins era elegante e mostrava como as elites brasileiras foram incorporando novas práticas ao seu cotidiano. Além das regras de etiqueta e das práticas do lazer, Machado de Assis enumera as expectativas da população do Rio, principalmente das classes abastadas, e representa os seus medos, por meio da presença constante das doenças causando temores nos personagens. Enfim, o autor capta o espírito de sua época e traduz em sua obra.
Em outra passagem, o protagonista enamora-se com a filha da vizinha, a jovem Eugênia, porém, decide não ir adiante na sua relação, pois a garota tinha um problema de nascença que lhe incomodava.
"Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que natureza é as vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?"
Pobre Eugênia! Esperava-se das mulheres naquela época que fossem férteis e saudáveis, aptas a procriar fidalgos igualmente saudáveis, os quais dessem continuidade ao nome da família. O destino da Eugênia foi terrível, recusada pela sociedade acabou marginalizada, afinal.
Os atributos necessários para a mulher ser considerada bela, naquela época, eram os braços, a cor da pele clara também ajudava, assim como a beleza do olhar. Mas sem dúvida, os braços femininos atraíam a atenção dos homens da elite no Império. Brás Cubas não os resistia, como ocorria quando estava com sua amante: "...Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços,...". Ou quando a observava: "Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magníficos braços nus,
— os braços que eram meus, só meus..."
Não menos interessante é a história do negro Prudêncio, um ex-escravo de Brás Cubas. Ambos cresceram juntos. Quando criança, Cubas brincava de montar, fazendo do escravo a sua montaria.
Muitos anos mais tarde, Cubas reencontra o ex-escravo, agora liberto, numa situação embaraçosa.
Prudêncio chicoteava outro negro, seu escravo, por ter deixado o estabelecimento comercial para beber.
Machado de Assis, traz à tona elementos importantes da sociedade escravocrata brasileira no século XIX: a infância dos cativos, desde cedo tratados como "animais", "bestas"; a possibilidade de ascensão social dos libertos, por meio do pequeno comércio urbano de frutas, doces e quitutes; a busca de alívio do trabalho escravo na bebida; e a posse de escravo como meio para obter riqueza e mudar seu status social.
Escravo de ganho.
Há muito mais passagens emblemáticas que tornam a obra uma das preferidas de todo o público, o que ajuda a explicar o sentido do adjetivo clássico!
Numa das atividades do Projeto de Educação Fiscal do CIEP 280, os alunos do Ensino Médio assistiram ao clipe do Gabriel o Pensador, com a música Até quando?
Depois de refletirem sobre a letra da música fizeram um trabalho artístico expondo problemas e a precariedade de Direitos Sociais. Vejam só: