9.5.20

O palácio dos loucos

Em 1852, foi construído,num terreno próximo à bela baía de Botafogo,  no Rio de Janeiro, o Hospício de Alienados Pedro II, um asilo para loucos e pessoas que sofriam com delírios e perturbações mentais. "O palácio dos loucos", apelido recebido pelo prédio, era administrado pela Santa Casa de Misericórdia.


O prédio, em estilo neoclássico,  foi o primeiro hospital para doentes mentais no Brasil e seguia as tradições dos alienistas franceses da segunda metade e final do século XIX. Nessa essa linha de atuação,  os alienados deveriam ser isolados,  afim de ficarem longe das causas que lhes provocavam o desequilíbrio e a loucura. Tinha capacidade para 300 internos,  de ambos os sexos, e já em 1862 estava com seu limite extrapolado.

Muitos dos internos eram pobres e negros, alcoólatras e vadios que perambulavam pelas vielas do Rio de Janeiro, onde promoviam distúrbios e baderna. Recolhidos pela polícia,  eram colocados em camisas de força e levados para o Hospício,  onde eram tratados com ducha de água fria e outros métodos que visavam restaurar a razão dos pacientes. 

O talentoso romancista carioca, Lima Barreto (1881-1922) foi um ilustre paciente do Hospício Pedro II. Alcoólatra, Lima  passou pela instituição em 1914 e 1919. À essa época,  o hospício estava sob o controle do Governo federal e recebeu nome: Hospital Nacional dos Alienados.

Lima Barreto fora internado,  pela última vez,  no dia 25 de dezembro de 1919, após ter um delírio e quebrar as vidraças de sua casa. Seu irmão entregou-o à polícia,  e o escritor foi levado ao hospício.  Lá,  Lima fez anotações à lápis sobre as instalações, seu cotidiano, os pacientes e os funcionários. Seu relato resultou  em duas obras, "Diário do hospício", no qual documentou sua experiência durante o tempo em que permaneceu internado, e "O cemitério dos vivos", um romance inacabado,  uma versão ficcional da mesma experiência do escritor no hospital.

Numa passagem, Lima registra situações em que passou por dificuldades e comparou seus constrangimentos com Cervantes e Dostoiévski, autores admirados pelo brasileiro,  os quais também passaram por experiência no cárcere.

"Voltei para o pátio, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria".

Pelo Hospital dos Alienados passaram grandes nomes da medicina brasileira, como Juliano Moreira, baiano e mulato, que se tornou um pioneiro da psiquiatria no Brasil. 

Juliano Moreira também ficou reconhecido por se opor a ideia defendida por Nina Rodrigues, para quem a mestiçagem teve impacto inconveniente na formação do povo brasileiro. 

Na década de 1940, sem condições adequadas de funcionamento, os internos foram transferidos do Hospital dos Alienados para outro local. O prédio foi doado à Universidade do Brasil, atual UFRJ, passou por restauração e hoje funciona como Instituto de Psiquiatria da Universidade. 

6.5.20

Olhar histórico sobre "Memórias póstumas de Brás Cubas"



É bom aproveitar a quarentena para estudar, ler, escrever e revisitar os clássicos da Literatura Nacional!

Estive relendo o velho Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), do maior escritor brasileiro - Machado de Assis - que obra!

Por meio da deliciosa trama construída ricamente por Machado de Assis, somos conduzidos por sua pena sofisticada à uma viagem de volta no tempo, ao Rio de Janeiro, no século XIX. Destaco uma parte do texto, na qual o gênio do autor nos coloca na sala de jantar dos Cubas, a rica família do protagonista, enquanto celebravam, com ilustres convidados, a queda de Bonaparte na Europa.

"Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luís Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres da Ajuda as compotas e marmeladas; lavaram-se, arearam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luxo clássico".

Os hábitos descritos no jantar, como a preparação da mesa e o uso de louças foram trazidos pelo Brasil pela Família Real Portuguesa, em 1808, desde então a elite da colônia passou a adotar costumes à moda europeia. Vestir-se como os europeus, ir ao teatro, passear pelos jardins era elegante e mostrava como as elites brasileiras foram incorporando novas práticas ao seu cotidiano. Além das regras de etiqueta e das práticas do lazer, Machado de Assis enumera as expectativas da população do Rio, principalmente das classes abastadas, e representa os seus medos, por meio da presença constante das doenças causando temores nos personagens. Enfim, o autor capta o espírito de sua época e traduz em sua obra. 

Em outra passagem, o protagonista enamora-se com a filha da vizinha, a jovem Eugênia, porém, decide não ir adiante na sua relação, pois a garota tinha um problema de nascença que lhe incomodava.

"Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que natureza é as vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?" 

Pobre Eugênia!  Esperava-se das mulheres naquela época que fossem férteis e saudáveis, aptas a procriar fidalgos igualmente saudáveis, os quais dessem continuidade ao nome da família. O destino da Eugênia foi terrível, recusada pela sociedade acabou marginalizada, afinal.

Os atributos necessários para a mulher ser considerada bela, naquela época, eram os braços, a cor da pele clara também ajudava, assim como a beleza do olhar. Mas sem dúvida, os braços femininos atraíam a atenção dos homens da elite no Império. Brás Cubas não os resistia, como ocorria quando estava com sua amante: "...Virgília cingiu-me com os seus magníficos braços,...". Ou quando a observava: "Via-a dali mesmo, reclinada no camarote, com os seus magníficos braços nus, — os braços que eram meus, só meus..."

Não menos interessante é a história do negro Prudêncio, um ex-escravo de Brás Cubas. Ambos cresceram juntos. Quando criança, Cubas brincava de montar, fazendo do escravo a sua montaria. 

Muitos anos mais tarde, Cubas reencontra o ex-escravo, agora liberto, numa situação embaraçosa.
Prudêncio chicoteava outro negro, seu escravo, por ter deixado o estabelecimento comercial para beber.

Machado de Assis, traz à tona elementos importantes da sociedade escravocrata brasileira no século XIX: a infância dos cativos, desde cedo tratados como "animais", "bestas"; a possibilidade de ascensão social dos libertos, por meio do pequeno comércio urbano de frutas, doces e quitutes; a busca de alívio do trabalho escravo na bebida; e a posse de escravo como meio para obter riqueza e mudar seu status social. 
Escravo de ganho.

Há muito mais passagens emblemáticas que tornam a obra uma das preferidas de todo o público, o que ajuda a explicar o sentido do adjetivo clássico!

Filme:

1.5.20

Arte & Expressão: cidadania e direitos sociais

Numa das atividades do Projeto de Educação Fiscal do CIEP 280, os alunos do Ensino Médio assistiram ao clipe do Gabriel o Pensador, com a música Até quando?

Depois de refletirem sobre a letra da música fizeram um trabalho artístico expondo problemas e a precariedade de Direitos Sociais. Vejam só:



















30.4.20

#Quarentena, #Prevenção




Teste de Cidadania 2: impostos e desenvolvimento social

Esta atividade é para os pais e os alunos do Ensino Médio fazerem juntos. Seus objetivos são: 
  • promover uma reflexão sobre a importância da participação e acompanhamento do cidadão dos gastos públicos; 
  • reconhecer a necessidade da criação de políticas públicas eficazes para o combate à desigualdade social; 
  • identificar a função social dos impostos e uma das formas de se evitar a sonegação fiscal.

26.4.20

Nota sobre a quarentena

Num rápido deslocamento de carro pela cidade de Leopoldina, na Zona da Mata mineira, é com tristeza que constatamos  em algumas ruas e bairros,  o afrouxamento do isolamento social por parte dos cidadãos, comerciantes e igrejas evangélicas.

Numa atitude potencialmente criminosa, indivíduos se aglomeram para beber em botequins ou para orar em seus apertados templos, colocando em risco a si e, o pior de tudo, à sociedade como um todo, visto que a velocidade do contágio pelo coronavírus. Nos supermercados, segmento que funciona com restrições sanitárias, há aqueles que não usam máscara e não respeitam as distâncias mínimas de segurança, preferem ficar aglomerados ao invés de observar o aquilo que foi determinado pelas autoridades de Saúde. Os funcionários dos supermercados precisam fiscalizar e chamar a atenção dos consumidores que não cumprirem as regras do isolamento.

Todos sabem que estamos em quarentena, a cidade está sob estado de calamidade pública, desde o dia 14 de abril, diversas atividades foram restritas e outras suspensas, como atendimento ao público e etc. Bares e igrejas, por exemplo, não podem abrir, cultos estão proibidos por Decreto assinado pelo prefeito.
A imprensa local divulgou amplamente a notícia, o mesmo ocorreu na grande mídia a respeito do problema em nível nacional, portanto, todos sabem da existência da pandemia e do risco que corremos.

Na cidade já temos caso confirmado da doença, ao que parece, pode haver outras pessoas contaminadas. Sabe-se que 80% dos casos as pessoas se recuperam da gripe, porém, em hipertensos, diabéticos e obesos a doença pode causar complicações e morte.

Temos que ressaltar, o afrouxamento do isolamento não ocorre só em Leopoldina, parece que tem ocorrido de maneira geral, afinal, a principal autoridade pública do país já se posicionou contra a medida, diferente dos governadores e da maioria dos prefeitos que aderiram às recomendações das autoridades médicas. 

O presidente da república nunca respeitou o isolamento social, logo suas ações servem de estímulo para aqueles que acreditam nele e o seguem fazendo o mesmo. Enquanto o chefe do Executivo critica a quarentena, os números de óbitos e novos casos não param de crescer. O presidente parece não estar nem um pouco preocupado com isso e nem demonstrou solidariedade pelos mortos e pela dor dos familiares. Não dava para esperar algo diferente de alguém que nunca demonstrou apreço legítimo pelo povo, não é mesmo?  

As pessoas precisam refletir sobre isso: a capacidade de atendimento hospitalar em nossa cidade, a exemplo de tantas outras em todo o país, é muito restrita, logo, se muitos precisarem de atendimento, como poderá ocorrer em breve com o avanço da doença, faltarão leitos e insumos para socorrer as vítimas.

Podemos contribuir para controlar a situação ou agravá-la, tem gente nas ruas de dia e de noite que já escolheu piorar o quadro da crise sanitária. Ignorantes, fanáticos, imbecis, estão se colocando em risco, comprometendo seus familiares, vizinhos e a saúde pública.
Tomara que esses indivíduos, principalmente pastores destas ceitas de falsos cristãos, respondam criminalmente por seus atos e que a Lei restaure a razão para vencermos este momento difícil. 

O anti-herói

Após o pedido de demissão de Moro do governo, o Jornal Nacional o apresentou como um herói, expondo mensagens trocadas entre o ex-ministro e uma deputada para corroborar a imagem de "bom moço" do antigo justiceiro. Não se enganem, Moro não é herói, é um político sujo e interesseiro. Também foi vazada uma mensagem entre o ex-ministro com o presidente da república, tratando sobre interferência na direção da Polícia Federal.

Moro é um vazador contumaz, foi assim na Lava Jato, quando enviava para imprensa informações processuais, cuja ampla divulgação fosse de seu interesse. Agora,  novamente,  recorreu ao vazamento, tirou print de uma conversa particular,  como um moleque,  para expor diálogos que comprovassem suas afirmações.

Como alguém vai confiar num sujeito como esse, que vaza grampo ilegal, delações e conversas que mantém com presidente e deputada?

Deixou o Ministério falando, entre outras coisas, sobre preservar o Estado de Direito.
Não foi esse cidadão,  enquanto juiz, que atentou contra o Direito violando regras básicas do processo legal? Não se esqueçam o que as reportagens da "Vaza a Jato" revelaram: o juiz Moro praticou irregularidades, especialmente,  no caso Lula, as quais podem anular a condenação do réu.

Este tal Moro não está nem aí para o Estado de Direito, ele age apenas pensando em seus projetos pessoais. Deve ser candidato à presidência em 2022, usou a Lava Jato para se promover, em detrimento da isenção, imparcialidade e discrição exigidos pela Justiça e pela lei.

O ex-juiz aliou-se ao que havia de mais rasteiro na política brasileira e sai do governo com acusações graves a respeito do chefe do Executivo. As instituições precisam agir, a PGR, o STF e a parte íntegra do Congresso Nacional precisa investigar com firmeza os prováveis crimes e punir os responsáveis. O processo  de Impeachment do presidente precisa ser considerado,  já.

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