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4.5.17

Nacionalismo e o discurso médico-sanitário sobre o povo brasileiro

Entre 1910 e 1920, num período marcado pela Primeira Guerra Mundial, o mundo viveu uma onda nacionalista. Através dos nacionalismos grupos políticos e sociais tentavam construir a ideia de comunidades nacionais por meio de vários aspectos: investimentos em educação, ciência, aprimoramento da raça, valorização da cultura etc.

O Brasil não ficou imune à influência nacionalista e por aqui proliferaram diversas organizações que levantaram a bandeira em prol da nacionalidade brasileira. Em 1916, por exemplo, foi fundada no Rio de Janeiro a Liga de Defesa Nacional, dela participavam políticos e intelectuais, como Olavo Bilac, Pedro Lessa, Miguel Calmom e Rui Barbosa. A Liga defendia a ideia do "cidadão soldado", o serviço militar era encarado como uma possibilidade de acesso à cidadania e, por isso, foi apoiada pelo exército.

A questão do recrutamento e do serviço militar trazia à tona uma discussão que permeava o meio intelectual brasileiro, desde o final do século XIX pelo menos, acerca do povo brasileiro e de sua condição racial. Havia pensadores que atribuíam à mestiçagem ou ao clima a culpa pelo brasileiro ser doente, preguiçoso, indolente e pouco produtivo.

Por outro lado, alguns médicos-sanitaristas enxergaram no higienismo e na medicina social uma forma de regenerar a nação através da cura do povo, por meio de medidas profiláticas e da educação higiênica. Em  1912, a expedição científica chefiada pelos médicos Belisário Pena e Artur Neiva percorreu os sertões do Brasil por vários meses, realizando exames nas populações rurais, catalogando a fauna e a flora, os hábitos e costumes. No relatório que divulgaram em 1916, diagnosticaram um povo doente, afetado pelas endemias rurais, principalmente malária, doença de chagas e anquilostomose. Para esses médicos, estava claro que o que causava a degeneração do povo era a doença e não sua condição racial, o clima ou a mestiçagem. A doença, por sua vez, seria o resultado do abandono das populações rurais pelo governo republicano, o qual não se preocupava com o estado de saúde dos sertanejos, não lhes oferecendo o mínimo para que pudessem ter cidadania e qualquer sentimento de nacionalidade.

Foi com o intuito de atuar em prol do saneamento de todo o território brasileiro, que médicos, políticos e diversos intelectuais fundaram, em 1918, a Liga Pró-Saneamento do Brasil. 

Durante os anos de 1918 e 1920, a Liga Pró-Saneamento do Brasil promoveu conferências em associações privadas e instituições públicas, distribuiu panfletos de caráter pedagógico alertando a população para a importância dos princípios básicos de higiene e estabeleceu delegações em algumas unidades da Federação, com o objetivo de estimular os governos estaduais e municipais a implementar a construção de habitações higiênicas, a profilaxia de doenças consideradas evitáveis, programas de educação higiênica, postos rurais e obras de saneamento básico. (Fonte: CPDOC/FGV)

Para os membros da Liga, sanear o país era uma "luta patriótica", uma vez que isso fortaleceria o povo, resgataria uma identidade nacional e colocaria o Brasil no rumo da modernidade, já alcançada pelas potências capitalistas centrais. Seus ideais estavam alinhados com o nacionalismo vigente e na convicção de por meio do sanitarismo seria possível resgatar o país!

Nesse contexto, houve um debate bastante interessante entre duas personalidades do cenário político e cultural brasileiro. De um lado estava o deputado Federal por Minas Gerais Carlos Peixoto, filiado ao Partido Republicano Mineiro (PRM) o qual exerceu vários mandatos de 1903 até 1917, quando faleceu. Em sua atuação parlamentar, Peixoto destacou-se, sobretudo, na defesa de projetos de regularização do comércio do café e nos debates relacionados às questões fiscais. Entretanto, numa conjuntura nacionalista o parlamento não se furtou ao debate de formas para aprimorar a defesa nacional e o serviço militar obrigatório era uma das possibilidades aventadas nas discussões.

Há inúmera bibliografia que atribui ao deputado Carlos Peixoto um pronunciamento, no qual o parlamentar se comprometia, em caso de invasão estrangeira nas terras brasileiras, a ir aos sertões e convocar os caboclos para o defender o Brasil (Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira (1995); Manifestos Políticos do Brasil contemporâneo (2008); Doença de Chagas no Brasil: ciência, saúde e nação, 1909-1962 (2009) etc). Peixoto parecia inclinado em aceitar a tese euclidiana de que o sertanejo, apesar de todas as intempéries políticas, sociais, econômicas e culturais que atribulavam suas vidas, era "antes de tudo, um forte".

Pois o discurso do parlamentar teve resposta, seu interlocutor foi o médico-sanitarista e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Miguel Pereira, aquele que esboçou a frase que se tornou lema da campanha pelo saneamento: "o Brasil é um imenso hospital". Pereira pronunciou a frase em 1916, após a divulgação do relatório da expedição Pena-Neiva que causou assombro na mídia e nas elites intelectuais e dirigentes do país, pois revelara o elevado índice de morbidez que afligia o povo do interior. Miguel Pereira, num discurso reproduzido pelo Jornal do Commercio em 1916, respondeu ao parlamentar lembrando-o que afora o Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades mais ou menos saneadas o Brasil ainda era um país de doentes. De forma irônica, o médico diz que apesar de considerar nobre a iniciativa do político de ir aos sertões para recrutar pessoas para combater ela se mostraria inócua, pois:

Parte, e parte considerável, dessa brava gente não se levantaria; inválidos, exangues, esgotados pela ancilostomíase e pela malária; estropiados e arrasados pela moléstia de Chagas; corroídos pela sífilis e pela lepra (...). Não carrego as cores ao quadro. É isso sem exagero a nossa população interior. (Jornal do Commercio, 1916, p. 4).

Depois do choque de realidade aplicado pelo médico no deputado, Miguel Pereira prosseguiu seu relato e levantou algumas  questões: 

Quais os soldados que o orador [Deputado Carlos Peixoto] iria equipar? Os do seu estado natal? Mas foi exatamente ali [em Minas Gerais] que o descobrimento genial de Chagas, numa zona que se alonga e se dilata por centenas de quilômetros , revelou ao país, sem nenhum resultado prático ou consequência profilática, espetáculo dantesco de uma morbilidade fatal e  progressiva que amontoa gerações sobre gerações de disformes e paralíticos, de cretinos e de idiotas. (op. cit. p. 4).

Nenhum dos autores consultados para a escrita desta postagem reproduz a tréplica do deputado. Assim, resta claro que sua ideia de ir aos sertões para recrutar "cidadãos soldados" não se sustentaria frente ao discurso do médico, o qual demonstrou com argumentos extraídos de um relatório empírico que a situação da saúde pública nos sertões era gravíssima, o que inviabilizaria qualquer tentativa de formação de um exército nacional.

Embora as posições apresentadas sejam visivelmente contraditórias, ambas estão inseridas num contexto nacionalista, e representam a esperança ou a expectativa da formação de uma nacionalidade brasileira forte. Porém, a construção da nacionalidade passava pela formação de um povo saudável, com acesso à educação e à renda e que tivesse um governo que lhes assegurasse o mínimo de cidadania.   

24.5.15

Quem somos nós?

No 3º ano do Ensino Médio da E. E. Luiz Salgado Lima, estamos estudando um tema problemático para a História do Brasil - a identidade nacional.

Discutimos um pouco do assunto com os estudantes e esclarecemos que a identidade nacional sempre foi uma preocupação das elites dirigentes do país. Desde o século XIX, intelectuais, políticos e artistas pretendiam embranquecer o povo criar um forte senso de união identitária.  Mas isso seria possível num país com tamanha sociodiversidade como o Brasil?

O livro didático adotado, escrito pelo historiador Roberto Catelli, traz um documento histórico que provoca reflexões sobre a questão: a música Inclassificáveis, de Arnaldo Antunes. (Confira o som no vídeo abaixo).



Depois de ouvir e estudar a música, nossos alunos escreveram sobre o assunto e tiraram suas próprias conclusões. Vamos ver as reflexões que eles fizeram. 

Comentário do aluno Marlon

A música nos revela uma diversidade cultural no país. Mostra que nós somos "inclassificáveis", e os preconceitos não se justificam, pois o Brasil é formado por índios, europeus, afrodescendentes entre outras etnias.

A letra da música serviu um pouco para fazer uma crítica aos indivíduos que discriminam as pessoas, já que somos iguais apesar de nossas diferenças de costumes, da cor da pele e da cultura.

Aluno Marlon





Inclassificáveis

A análise clássica sobre o tema da formação do povo brasileiro é a de que somos uma nação constituída por índios (nativos), portugueses (colonizadores brancos que invadiram esta terra em 1500) e africanos (negros que vieram escravizados por portugueses a partir de 1530).

O compositor Arnaldo Antunes faz referências às novas etnias que surgem a partir dos três povos principais: o mulato, mistura de branco com negro;  cafuzo, mestiço de negro com índio; e o mameluco, mistura de índio com branco.

O músico dá o tom da mestiçagem no país ao mencionar crilouros, guaranisseis e judárabes.

As músicas nos ensinam muitas coisas relevantes de forma didática, e muitas delas podem contribuir para formar opiniões e influir em nosso caráter, mesmo que não percebamos, pois elas atingem nosso inconsciente.
Aluno Edson



Parabéns, pessoal. O trabalho ficou muito bom!

20.4.15

+ produções da NEJA

Estudamos com os alunos da Nova Eja um pouco sobre a tentativa das elites, no século XIX, de forjarem uma identidade nacional brasileira tendo como referência o padrão de "civilização" europeu.
Nesse sentido, estudamos também que uma das medidas adotadas pelos políticos e apoiada pelas elites foi o incentivo da vinda de imigrantes europeus para o Brasil, com o intuito de "branquear" o povo brasileiro.

O projeto falhou devido a nossa diversidade étnica e cultural, mesmo com a miscigenação, hoje cerca de metade da população brasileira é afrodescendente, por isso o branqueamento engendrado no século XIX deu errado.

Abaixo seguem dois textos maravilhosos, escritos pelas alunas da Nova Eja que abordam a diversidade étnica e cultural do Brasil. Leiam.

Brasil: a sua rica diversidade

A identidade nacional brasileira tem haver com a História do começo do Brasil.
Com a vinda dos portugueses, trazendo africanos e daí aconteceu também o envolvimento com os índios.

Assim, ao longo de nossa História, foi acontecendo a miscigenação e surgiu toda essa diversidade cultural, social, religiosa e a existência de vários grupos étnicos.
Operários (1933), de Tarsila do Amaral. A obra representa a variedade étnico-racial de grupos formavam a sociedade brasileira. 

Com essa certeza, não poderemos definir de forma simplificada a grande diversidade que se tornou a identidade do nosso Brasil.


Ana Carla Rezende Moura Gonçalves 
Aluna da NEJA - Módulo 1




Meu Brasil, brasileiro

É lindo ver e viver neste país sem igual...
Meu maior patrimônio cultural.

Parece esses caldeirões, dos bem grandes...
Onde tudo foi misturado.

Mexe daqui, mexe de lá!!! Resultado: 
este povo lindo, sem igual, 
jamais em outros lugares encontrado.

Nossas comidas... hummm!!!
São cheias de misturas, sabor sem igual,
Por estrangeiros admirada
Como me deixa maravilhada!

Mesmo crendo somente em um Deus,
temos diversas formas de nos aproximar d'Ele,
respeitosamente uns aos outros, 
em inúmeras quantidade de religiões.

Nossas crenças, que são muitas
originadas por diversas culturas, 
se misturam umas as outras,
fundindo assim novas histórias 
através da memória vivida e compartilhada.

Nossas peles, multicoloridas, 
mais parecem iluminar os dias
de tão diversos tons...

Uns poucos, com tanto;
Muitos outros com tão pouco...

Mas um povo que sorri acima de tudo,
que é receptivo (desde os índios),
que nasceu de uma louca mistura
para se tornar
esta inigualável nação.

Fernanda Santos
Aluna do NEJA - Módulo 1









Parabéns para a toda turma. Continuem lendo, pesquisando e produzindo. Estão todos caminhando bem!

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