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18.6.15

Produção de texto dos alunos do 7º ano

No final de maio, os alunos do 7º ano do Ensino Fundamental e professores da E. E. Luiz Salgado Lima até a Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho.

Lá eles visitaram a exposição "Os filhos da terra".


Foto por Leandra (aluna do 7º ano).


Os alunos gostaram muito do que viram e escreveram sobre essa oportunidade. Vamos conferir alguns relatos!

"Ontem, dia 26/05/2015, eu e meus colegas dos 7º anos 8 e 9, fomos visitar uma exposição exibida na Casa de Leitura sobre os "Filhos da Terra". Chegando lá, todos nós aguardamos um pouco até dar a hora de ouvir o palestrante. O tema da palestra foi sobre cultura e história dos indígenas." 

(Aluno Leandro ).



"A palestra foi bem interessante. Falou sobre os índios e sua cultura e seus costumes. Logo depois do Alexandre (o palestrante) explicar o tema, fomos para outra sala. Lá tinha vários utensílios, roupas, fotografias e textos sobre os índios. Também tinha fotografias de plantas e pássaros." 

(Aluna Carolina).



"Logo depois da palestra e da visitação todos foram para o jardim da Casa de Leitura, onde brincamos de pique pega. Tiramos muitas fotos para postar no Blog do professor Rodolfo e na fanpage www.facebook.com/acropole.edu. Quando chegou a hora de ir embora, ninguém queria ir, pois estava muito legal!" #tevebomcomos7ºanos 

(Aluna Marcela).


O passeio cultural foi muito proveitoso e esperamos voltar, em breve, nas próximas exposições!

‪#‎casadeleitura‬ 
‪#‎osfilhosdaterra‬

22.5.15

Ensaio sobre o imaginário coletivo acerca dos índios

Quem são os povos indígenas?

Qual é a visão que a sociedade brasileira possui sobre as diferentes etnias que compõem o povo brasileiro? É fato que eles representam, hoje, menos de 1% do total da população brasileira, segundo o Censo do IBGE 2010, mas eles estão por aí, distribuídos entre 240 etnias que falam cerca de 150 línguas diferentes.

Tomando a sala de aula como um laboratório, tentei responder a primeira questão a partir de um exercício simples: solicitar aos alunos que representassem, por meio de um desenho, os povos indígenas do Brasil.

A amostragem, apesar de limitada, não apresentou surpresa. As representações só mostram índios seminus, caçando, pescando ou manuseando arcos e flechas.

O que nos deixa chocado é que passados mais de quinhentos anos da chegada dos portugueses ao Brasil, os estudantes do Ensino Fundamental II continuem reproduzindo algo semelhante ao que escreveu Pero Vaz de Caminha em sua famosa Carta do Achamento do Brasil, escrita entre 26 de abril e 2 de maio de 1500.

Eis uma descrição que Caminha faz dos índios com quem teve contato:

"Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com suas setas." (Carta do Achamento do Brasil, 1500).

O relato de Caminha em nada difere dos desenhos feitos pelos estudantes em 2015, portanto 515 anos após o "achamento" do Brasil. Tal feito pode ser entendido a partir do conceito de longa duração, que é a temporalidade de uma estrutura, desenvolvido pelo historiador Fernand Braudel (RODRIGUES, 2009).
Desenho feito por estudante do 6º ano do Ensino Fundamental.

Nenhum estudante representou a diversidade do modo de vida dos índios. Ninguém desenhou, por exemplo, um índio frequentando a faculdade ou trabalhando à frente da tela de um computador conectado à internet.

Isso nos faz pensar que a Educação falha em apresentar aos alunos a sociodiversidade do povo brasileiro, especialmente a situação dos índios.

Acreditamos que esse fenômeno ocorra devido a permanência de uma visão eurocêntrica dos povos indígenas no imaginário coletivo. Essa permanência é reforçada por diversos meios, a mídia, as telenovelas, os filmes, a escola e instituições culturais que teimam em repetir a fórmula de Caminha ou a idealização do indígena feita pelos escritores do romantismo brasileiro, no século XIX. Assim, essa visão do índio vem sendo perpetuada e chega até os dias de hoje.

A visão do índio nu, vivendo no meio do mato inculcada no imaginário coletivo em nada contribui para a compreensão da realidade dos povos indígenas contemporâneos. Ao contrário, apenas fortalece uma ideia equivocada que o senso comum possui sobre os índios brasileiros. 

O equívoco é visível quando nos deparamos com afirmações do tipo índios que se vestem como brancos e usam celular "estão perdendo sua cultura" (Fonte: http://www.axa.org.br/reportagem/as-10-mentiras-mais-contadas-sobre-os-indigenas/).

Afirmações assim acreditam que a cultura dos índios é imutável, que ficou estacionada no tempo e que ela não pode se apropriar de novos valores e costumes.

Criança indígena brincando com telefone celular.

 Caso isso ocorra, a cultura perde a sua originalidade e o índio deixa de ser índio...

A representação errônea do índio reproduzida pela escola e pelos meios de comunicação é uma prática etnocêntrica que "consiste em privilegiar um universo de representações propondo-o como modelo e reduzindo à insignificância os demais universos e culturas "diferentes". (CARVALHO, 1997).

Quando privilegiamos uma visão e reproduzimos, acriticamente esse modelo, acabamos concretizando o que Pierre Bordieu classifica de "violência simbólica".

Portanto, ampliar os horizontes de informações e conhecimentos acerca dos povos indígenas é uma necessidade pedagógica e social para superarmos o colonialismo cognitivo, e romper com a ideia de que a cultura hegemônica é superior às culturas de grupos que fazem parte de minorias sociais.

Para tanto é necessário formação continuada para os educadores, disponibilidade de materiais didáticos atualizados nas escolas para que possamos efetivar a Lei Nº 11.645/2008, que insere no currículo das escolas o Ensino da Cultura e da História dos afrodescendentes e dos índios.

Ensinar o aluno a compreender um universo que vá além do idealismo com o qual tem-se tratado a temática indígena é uma forma de fazê-lo compreender  que a cultura de um etnia não é imutável. Pelo contrário, ela pode trocar influências, práticas e costumes com outras culturas sem perder sua identidade. Ademais, "o índio é que se garante" (Eduardo Viveiros de Castro, 2006).

DE OLHO NO ENEM - 2017. QUESTÃO SOBRE O DIREITO INDÍGENA SOBRE A TERRA

25.2.15

Mais desenhos do 6º ano e uma análise

Ontem postamos um lindo desenho representando o povo Suyá (Kisêdjê).

Apresentamos um pouco da cultura dessa nação indígena para os alunos, para refletir sobre a importância de ter disciplina e saber ouvir, como forma de adquirir conhecimento e se expressar bem.

Hoje, vamos postar mais três desenhos maravilhosos, porém iremos analisá-los e identificar como os índios do Brasil atual estão representados na mentalidade de nossos alunos, recém ingressos no Ensino Fundamental II.

Desenho da aluna Jeniffer Soares. Sala 3.

O primeiro desenho, feito por Jeniffer Soares, mostra dois índios Kisêdjê. Destacamos o da esquerda, que está sendo destratado pelo índio da direita.
Ele veste preto e seus olhos foram realçados, o que demostra que ele é um Ani mtai kidi (“não ouvir-compreender-saber”), pois não aprendeu a ouvir, logo não fala bem. Assim, o índio de preto é visto como um feiticeiro e é uma figura anti-social, não sendo acolhido pela comunidade.   

Arte da aluna Ana Luíza.

A segunda imagem é um belo trabalho de Ana Luíza. Ela pintou um cenário natural paradisíaco, com uma cachoeira, grama, árvore, pássaros e uma fogueira. Há também uma oca, que é a moradia dos índios.
O índio que ela desenhou possui adereços nas orelhas e nos lábios, portanto é um Ani mbai mbechi (que significa “ouvir-compreender-saber bem”).
Esse índio é sociável, é integrado à comunidade, trabalha, partilha seus bens e escuta os índios com mais experiência.

Na imagem, ele está sem camisa, segurando um arco e uma flecha, provavelmente, se preparando para caçar.

Aqui fica evidente a visão que a sociedade, de modo geral, tem cristalizada em sua mente a respeito dos índios. O índio está sempre carregando seu arco e flecha de madeira, vivendo dos recursos disponíveis na mata.

Será que todos os índios vivem assim? Será que sua alimentação ainda depende exclusivamente da caça? Eles só cozinham em fogueiras? Por que não podem possuir fogões a gás ou à eletricidade? 

Lápis de cor sobre o papel, por Jheniffer.
A última obra de arte também é reveladora do imaginário coletivo acerca do índio.
No desenho de Jheniffer Rodrigues, temos um índio seminu, sobre uma canoa, pescando.

À sua direita, repousando em uma rede, está outro índio. Aliás, o costume de dormir em redes foi, de fato, um dos legados que os índios nos deixaram.

O desenho explicita novamente a dependência do índio em relação à natureza. Seu alimento provém da pesca. Será que o índio não pode ir comprar o seu peixe? Ou viverá sempre pescando? 

A respeito da nudez, Jheniffer reproduz o índio, tal como Pero de Vaz de Caminha descreveu em 1500, na seguinte passagem de sua célebre carta.

"Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência."


Essas representações dos índios permeiam o imaginário coletivo. As pessoas acham que todo índio anda nu, vive no mato da caça e da pesca, mas a realidade não é bem assim.

Muitos índios hoje vivem em Terras Indígenas (Tis), territórios que foram demarcados para que as nações indígenas possam usufruir das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes. Nas terras indígenas, eles têm acesso à escola indígena, se dedicam a diversas atividades, como a agricultura e o artesanato, preservam alguns de seus costumes e tradições - rituais, danças, músicas e crenças, mas também possuem tecnologias, como celulares, computadores, acesso à internet, além de usarem roupas da "civilização branca".
Crianças da etnia Xavante utilizando aparelhos eletrônicos.

Há também índios que vivem nas cidades, frequentam a faculdade e exercem suas profissões.

Enfim, ao longo do tempo, os índios foram assimilando alguns elementos de nossa cultura urbana-industrial à sua cultura.
Afinal, cultura não é algo rígido e imutável, pelo contrário, ela está sempre mudando e se reinventando.

Então não se assuste se vir um índio de terno ou um índio usando o Wi-Fi do celular de última geração na fila do caixa eletrônico de um banco. Só porque eles assimilaram novos costumes à sua cultura não quer dizer que deixaram de ser o que são.



Concluindo, precisamos desconstruir alguns estereótipos a respeito dos povos indígenas do Brasil atual e trabalhar com nossos alunos que há múltiplas formas de se representar os índios do século XXI. 

24.2.15

Aprendendo com os índios

Começamos a trabalhar com os alunos do 6º ano do Ensino Fundamental de maneira diferente neste ano.

Sempre iniciamos o ano letivo fazendo os "combinados", isto é as regras de convivência para os alunos na sala de aula.

Desta vez, optamos por contar para os alunos uma história da nação indígena Kisêdjê, povo que vive no norte do estado do Mato Grosso, com o objetivo de promover uma reflexão sobre disciplina.

Explicamos para os estudantes, das salas 3 e 4, que entre os Kisêdjê há uma cultura que valoriza bastante dois sentidos do corpo humano: a audição e a fala.

Por isso, esses índios decoram suas orelhas e lábios com discos de madeiras pintados, para ressaltar a importância que atribuem à esses órgãos.

Foto de um índio Kisêdjê. Harold Schultz, década de 1960.

Desde pequenos, os Kisêdjê são preparados para ouvir e falar e quando as crianças crescem, têm suas orelhas e lábios perfurados como um rito de passagem da infância para a fase adulta. Os índios que ouvem e falam bem são tratados com muito apreço na aldeia e são chamados de Ani mbai mbechi (que significa “ouvir-compreender-saber bem”).

Já aqueles que não aprenderam a ouvir, não possuem o conhecimento, logo não sabem falar bem e são associados aos feiticeiros que só conseguiram desenvolver o sentido da visão. Esses são classificados como Ani mtai kidi (“não ouvir-compreender-saber”).

Depois dessa conversa com os alunos, passamos algumas questões sobre os Kisêdjê, indagando sobre sua localização geográfica no território brasileiro, sua cultura e quais lições poderíamos tirar do modo de vida do povo indígena estudado.

Pedimos também, que os alunos fizessem um desenho para ilustrar o que aprenderam com a aula sobre os Kisêdjê.

Abaixo reproduzimos o desenho da aluna Jamilly M. Oliveira que, por um acaso, é filha de minha amiga dos tempos do Ginásio, a Jussara Barbosa. Pelo que pude perceber, Jamilly é tão aplicada aos estudos quanto era sua mãe.



Terminamos aqui, com um lindo desenho da Jamilly representando um índio Kisêdjê. Será que ela representou um Ani mtai kidi  ou um Ani mbai mbechi 

Parabéns a todos os alunos que se dedicaram e entenderam a mensagem da importância do saber ouvir para aprender!

17.2.15

Descubra os benefícios da leitura


Comece a praticar agora. Clique aqui e leia nosso texto no site do Tribuna do Povo.

10.2.15

Tem índio no Brasil?

O título dessa postagem traz uma pergunta que eu escutei de um aluno do 6º ano do Ensino Fundamental, depois que eu apresentei para turma um pouco da Cultura dos Suyá (Kisêdjê), povo indígena que vive no Mato Grosso.



Falávamos a respeito do quanto os Suyá valorizavam os sentidos da audição e da fala e que, devido a isso, enfeitavam suas orelhas e lábios com discos de madeira decorados com tinta. 

Foto: Harold Schultz, década de 1960. Disponível no site Povos indígenas do Brasil.

No passado, os adornos tinham um significado prático e cultural, indo além do estético. Eles marcavam ritos de passagem, quando, por exemplo, os jovens iniciavam sua vida sexual ou eram considerados adultos.
E, na prática, usar os adereços era algo importante. Os Suyá "afirmavam que a orelha furada era para ouvir-compreender-saber bem. Diziam ainda que o disco labial estava associado à agressividade e belicosidade, correlacionadas com a auto-afirmação masculina, a oratória e a canção". (Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/kisedje/1227).

Portanto, quem sabe ouvir bem, adquire o conhecimento e a sabedoria para conviver bem em sociedade. Utilizamos esse exemplo para falar de disciplina para os os nossos alunos, os quais, geralmente, não gostam de ouvir. É preciso ouvir atentamente para aprender os conteúdos ministrados em sala de aula. Depois de ouvir e de aprender, é a vez do falar. Deve-se questionar, tirar dúvidas, partilhar experiências e demonstrar o seu aprendizado.

E respondendo à pergunta desta postagem. Sim, ainda há índios no Brasil. São vários povos e etnias que vivem espalhados por todo o território brasileiro. De acordo com o senso do IBGE (2010), no Brasil existem 817.963, o que corresponde a 0,44% do total da população Brasileira (Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/c/no-brasil-atual/quantos-sao/o-censo-2010-e-os-povos-indigenas). Eles se dividem em 241 povos, falantes de mais de 150 línguas diferentes!  

Viu só? Ainda há muito índio no Brasil, embora já tenha existido muito mais deles por aqui. Estima-se que antes da chegada dos colonos portugueses, em 1500, havia no território brasileiro cerca de 5 milhões de índios! Com o processo de colonização, as guerras, as doenças, a escravidão e a aculturação os números foram caindo.

Mas até os dias atuais os índios lutam para conquistar o direito à terra de seus antepassados e preservar o que sobrou de seus costumes, de suas crenças e de sua cultura. Além disso, os índios são muito importantes para a Cultura brasileira. Eles nos deixaram grandes contribuições, que estão vivas em nosso cotidiano, na alimentação, em nossa língua e em diversos costumes e aspectos que vivenciamos sem nos dar conta que herdamos muitas práticas culturais dos índios.

Por isso é importante aprender mais sobre nossa História e conhecer nossas raízes, europeias, africanas e indígenas.

Assista ao vídeo abaixo e descubra um pouco mais sobre os povos indígenas do Brasil.

19.1.15

E tudo começou num cupinzeiro...

Não é raro as pessoas se perguntarem sobre a própria origem. Como tudo começou? De onde viemos?

A Ciência tem suas explicações. Uma das mais estudadas e aceitas no meio acadêmico e escolar é a Teoria da Evolução, elaborada pelo cientista inglês Charles Darwin. Segundo ele:

"...todos os seres vivos tiveram sua evolução a partir de um ancestral comum. As mudanças ocorridas e as diferenças entre as espécies deram-se pelo processo de seleção natural, no qual os indivíduos que melhor se adaptam ao meio ambiente sobrevivem, deixando descendentes, que por sua vez também sofrem alterações em seu mecanismo biológico e deixam novos descendentes formando um círculo..." (Infoescola)


Na teoria de Darwin, o Homem levou milhões de anos para evoluir e atingir o estágio atual.

Mas não pense que só a Ciência é a dona da verdade. Há várias outras explicações sobre o surgimento do Mundo e de todas as suas espécies. Em várias culturas de povos que vivem em diferentes lugares do planeta, existem mitos e lendas que explicam o começo de tudo, porém diferente da Ciência, a qual tenta compreender e esclarecer as coisas a partir de hipóteses, teorias, fórmulas, provas, experimentos e outros meios que lhe assegurem maior percentual de acerto.

No livro Terra Grávida, de Betty Mindlin (2001), a pesquisadora reúne diversas narrativas de povos indígenas de Rondônia. A seu modo, estes povos, relatam a criação e a origem do Mundo e dos Homens. 



A obra é repleta de passagens interessantes e belas histórias contadas por descendentes de índios da região norte do Brasil. Os narradores abordam vários assuntos relacionados à origem da vida, dentre outros aspectos de sua cultura e sua cosmogonia. Mas destacaremos aqui um trecho do povo Aruá,  que fala sobre o surgimento dos primeiros Homens.


Povo Aruá. Rondônia. Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/arua/1664


"Havia dois irmãos, Andarob, o irmão mais velho, e Paricot, o mais novo. Tinham uma irmã, Antoinká.

[...]

Não existia mulher alguma - só a irmã dele.

Não tem esse munduru, aquele cupim? Um montinho de terra? Aquele foi a mulher de Deus. Ela era mulher; o buraco do cupim era como vagina de mulher, por lá Paricot tinha relação com ela. Txapob, o buraco do cupim, era como se fosse a vagina da mulher.


O cupinzeiro - a mãe dos Aruá. Acervo do Autor. Ibitipoca, 2015.

Só que foi muito depois que Deus descobriu gente, nós índios - gente existe há milhões de anos, só que não temos escrita, essa história vai passando de pai para filho, de um para o outro.

Quando Paricot estava trabalhando para fazer o mundo, não se interessava por comida, por fogo.

Saía de um lugar para outro, achava bonito o mundo, andando, andando. O que ele pensava, surgia, bastava falar para existir.

Só Paricot fazia, o irmão não fazia, vivia só deitado. A vida do irmão era só comer, dormir, e nada mais. Paricot é que trabalhava.

A mulher de Paricot, o cupim, ficou grávida. A gravidez não era como a de hoje, só de um filho. Ela é a terra, a terra é que engravidou. Paricot engravidou a terra de vários tipos de gente, vários povos, que tiveram um só pai." (p. 52-54).


Como podemos perceber, a resposta dos Aruá para explicar a origem dos homens é bem diferente daquela apresentada no início do texto, que segue o modelo científico, típico de nossa sociedade urbano-industrial.

Enquanto a sociedade "civilizada" se pauta na escrita, na coleta de informações, na formulação de hipóteses e análise de dados para tentar compreender os fenômenos que a cercam, as explicações indígenas são resultado de seu passado e da estreita relação que eles estabeleceram  com a natureza, cultuando-a como a Mãe do Universo e de seus seres. O conhecimento dos índios, até então, era mantido pela oralidade, uma prática que vem sendo passada de geração a geração.

O nosso modelo científico tende a tratar esses mitos e lendas com reservas e preconceitos, como se fossem manifestações culturais inferiores e de menor importância para o Saber. Contudo, não devemos desprezar culturas diferentes. 

Segundo a Antropóloga Betty Mindlin (2001):

"Cada povo tem uma forma de responder, uma tradição diferente da de outros povos, fundamental para definir sua identidade, juntamente com a língua, o território, a economia, a organização social, a cultura e os costumes." (op. cit. p. 15).

Assim sendo, devemos respeitar as tradições e crenças de outros povos, mesmo que elas sejam diferentes das nossas. E precisamos considerar também que a nossa Ciência é falha e ainda não tem as respostas para todas as nossas perguntas.

26.12.14

Dilema indígena no Brasil contemporâneo: um olho no passado outro no futuro

Em Brasília (DF), no dia 16 de dezembro de 2014, tive um encontro surpreendente com representantes indígenas das seguintes nações: Terena (Mato Grosso do Sul), Krikati (Maranhão) e Xavante (Mato Grosso).

Estávamos hospedados no mesmo hotel e me aproximei deles para tentar conversar, conhecê-los e saber onde moravam e como viviam. Como estou fazendo a Pós-graduação em Cultura e História indígena da Universidade Federal de Juiz de Fora, não podia deixar passar esta oportunidade de dialogar com os índios e ouvir o que eles tinham a dizer sobre a situação atual de seu povo.


João Nonoy Krikati, Eu, Cacique Valcélio Terena e Januário Teresarol Xavante. (Esquerda para direita) Saguão do Hotel Saint Peter, em Brasília - DF.

Durante o café da manhã, pude conhecê-los um pouco mais e conversamos sobre a questão fundiária e as dificuldades que os povos indígenas enfrentam para ter o seu direito reconhecido sobre as terras que seus ancestrais ocupavam antes da chegada dos colonos europeus no Brasil, no século XV. A esse respeito, eles se mostraram bastante preocupados com a discussão da PEC 215, a qual pode trazer um recrudescimento dos direitos indígenas em relação à terra.

Hoje, eles vivem em reservas, algumas demarcadas, outras em processo de demarcação. Relataram que são atendidos por missionários, os quais até os dias atuais tentam convertê-los ao cristianismo. Nas aldeias, há escolas indígenas e até índios que cursam o Ensino Superior, caso de João Nonoy, bacharel em Direito. Eles se vestem como nós, possuem redes sociais e utilizam celulares de última geração.

Engana-se quem acredita que só porque os índios utilizam roupas e tecnologias do "homem branco" deixaram de ser índios. 

"Ao se apropriar das novas mídias e colocá-las a serviço de seus interesses, os povos indígenas dão um grande passo. Preservar essas informações [sua cultura] na internet, por exemplo, pode ser importante. Mas eles sabem que o desafio maior continua sendo manter suas culturas vivas e em transformação no interior de suas próprias comunidades." (História e cultura dos povos indígenas no Brasil. São Paulo: Barsa Planeta. 2009.  p. 129.)

Portanto, em suas aldeias, eles tentam preservar seus costumes, alguns ainda cultuam suas divindades, realizam seus ritos tradicionais e lutam para manter viva sua língua pátria, que é diferente do português, a língua oficial do Brasil. 

Não é só porque são índios eles são obrigados a viver na mata, como viviam seus antepassados. É possível manter sua cultura e seus costumes e mesmo assim usar jeans, acessar a internet por um smartphone ou assistir TV a cabo. Aliás, as tecnologias são ferramentas que auxiliam os índios a se mobilizarem para reivindicar seus direitos e divulgar suas estórias e visão de mundo.
O que faz  desses indivíduos índios é o seu sangue, sua ascendência, o reconhecimento próprio e social de sua identidade.

A cultura, que marca essa identidade, é plural e maleável, ela está sempre mudando, se adaptando e, com o passar do tempo e com a interação entre diferentes povos, incorpora novos elementos ao seu conjunto de valores. 
Nesse sentido, "... esses povos e suas culturas não são entidades fechadas e estáticas; na verdade, estão em constante transformação. Saber até que ponto e em que medida vão incorporar à sua cultura os idiomas, os recursos, os traços e os costumes não indígenas é uma decisão que diz respeito a cada povo..." (op cit. p. 137).

Apesar dessa metamorfose cultural, o índio continua sendo índio, numericamente inexpressivo no total da população brasileira atual (0,2% da população do país). Embora sejam minoria, as mais de 232 etnias indígenas que vivem espalhadas pelo território nacional merecem todo cuidado, amparo e o nosso respeito, pois a identidade cultural brasileira, historicamente, deve muito à cultura dos primeiros nativos desta terra.

6.5.14

Produções sobre o Romance indianista

Os alunos do 2º ano do Ensino Médio, da E. E. Luiz Salgado Lima, estudaram a representação do índio brasileiro no século XIX.

O Brasil tornara-se independente de Portugal em 1822 e as elites brasileiras  almejavam criar uma identidade para a nova nação, é nesse contexto que emerge o Romantismo.

O Romantismo, em sua primeira fase, foi uma escola literária que idealizou o índio, apresentando-o como o genuíno representante da cultura brasileira, forte, bravo e belo. Os autores românticos exaltavam os costumes e a língua dos índios, além das exuberantes belezas naturais do Brasil.  

Além de influenciar a produção literária de grandes escritores, como José de Alencar e Gonçalves Dias, o Romantismo exerceu influências em outras gêneros artísticos, tais como a pintura e a música brasileira do século XIX.
Iracema. (1881) José Maria de Medeiros.
Inspirados pela tela do pintor José Maria de Medeiros - Iracema - a mesma personagem que dá nome a uma obra de José de Alencar publicada em 1865, solicitamos aos alunos que fizessem desenhos retratando o Romance indianista.
Eles capricharam nos traços e nas cores, resultando em trabalhos que são verdadeiras expressões artísticas, contemple:
Desenho da aluna Vitória.

Desenho com perspectiva da aluna Daiana .

O Romantismo representado pela estudante Bruna.

A aluna Mirela caprichou nas cores.

Thainara destacou a exuberância da floresta.

Estão todos de parabéns!

27.4.14

Os primeiros habitantes do atual território de Leopoldina (MG)

Parabéns, Leopoldina, pelos seus 160 anos!

Quando os europeus descobriram ouro no interior do Brasil, em fins do século XVII, havia na Capitania das Minas Gerais uma região conhecida como "sertão proibido". Essa localidade era coberta por densa mata e habitada por várias tribos "selvagens", as quais representavam um risco para a vida dos colonos europeus.
A região era uma área proibida visto que garimpeiros ilegais, poderiam usar o local para abrir trilhas, por onde escoariam metais preciosos sem o conhecimento do fisco.
Essa era a Zona da Mata Mineira.

Atual território de Leopoldina, em destaque.

Ela começou a ser desbravada por volta do século XVIII, quando os colonos tentavam encontrar novas terras para serem cultivadas e abrir novas rotas que ligassem as Minas ao Rio de Janeiro, facilitando o escoamento de mercadorias, sobretudo do ouro.
Painel de azulejos "O feijão cru". (Inspirado na obra de Funchal Garcia). O painel está localizado na Praça Félix Martins e retrata a lenda da colonização, iniciada por um acampamento de colonos à beira de um córrego local.
Por aqui, na área compreendida por Leopoldina, os primeiros habitantes foram os índios da tribo Puri (na língua dos Coroado, Puri significa "homens ousados"). Eles ocupavam um vasto território, que compreendia, além de Minas Gerais, parte do Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Mas não eram só os Puri que viviam aqui, também habitavam a Mata Mineira os Coroado (assim chamados pelos portugueses devido ao seu hábito de raspar os cabelos) e os Coropó. Os três grupos pertenciam ao tronco linguístico Macro-Jê. 
As primeiras informações sobre a existência dessas tribos remontam ao início da colonização portuguesa, no século XV, devido a ação dos exploradores e dos bandeirantes, os quais realizavam incursões ao interior da colônia e entravam em contato com os nativos.

Alguns dos primeiros habitantes da Zona da Mata mineira. Desenho de Rugendas - século XIX.

Leopoldina, situada no leste de Minas Gerais, contava com uma geografia - relevo e recursos naturais - favorável à formação de aldeias indígenas. As montanhas e a espessa vegetação garantiam proteção natural e alimento para os índios, como a caça e a coleta de frutos. A existência de rios na localidade, como o Pomba e o Pirapetinga, com águas tranquilas, permitiam a navegação em pequenas embarcações e a pesca.
 DEBRET, 1834. Cenário do Vale do Paraíba. A vegetação exuberante do Brasil despertava medo e admiração nos viajantes europeus.

Essas tribos eram nômades, não tinham moradia fixa, viviam vagando pela região, procurando por alimentos e melhores condições de caça e coleta. Eram considerados índios bravos e selvagens pelas autoridades coloniais, cujos agentes procuravam "civilizá-los", e convertê-los ao catolicismo.

Onça pintada abatida por grupo indígena. Enquanto uns preparam o fogo,  outros descansam em redes. Aqui o índio é mostrado perfeitamente adaptado à natureza hostil que o cerca.

Debret, artista francês que esteve no Brasil em 1816, retratou em diversas pinturas os índios, a fauna, a flora e a sociedade colonial daquele período, e também escreveu um livro, no qual registrou algumas observações sobre os índios da região dos sertões de Minas Gerais:

"não usam nenhuma vestimenta, nem mesmo em estado de civilização. Alimentam-se de caça e comem carne assada extremamente tostada". (DEBRET, 1989, p. 56-57 apud ALMEIDA, M. R. C. de, 2009.).

A respeito do aspecto físico dos Puri e dos Coroado, o barão de Eschwege, geólogo alemão que veio ao Brasil sob o patrocínio da Coroa portuguesa no século XIX, anotou o seguinte:

"As feições, ou melhor, o aspecto geral dos dois povos é muito semelhante, porém os puris tem traços faciais mais agradáveis que os coroado, que são mais feios..." (ESCHWEGE, 2002, p. 90 apud AGUIAR, J. O. 2010. p. 205.).

Nesse sentido, também temos o relato de outro viajante europeu o qual percorreu o Brasil nas primeiras décadas do século XIX, trata-se do naturalista francês, Auguste de Saint Hilaire, que descreveu um grupo de Coroados habitantes de uma área próxima do Rio Bonito:

“Pertenciam à tribo mais disforme da natureza encontrada durante minha permanência no Brasil. Aos traços da raça Americana, tão diferente da nossa, acresciam uma fealdade peculiar a sua nação: eram de estatura pequena; sua cabeça achatada em cima e de tamanho enorme, mergulhava em largas espáduas; uma nudez quase completa deixava a descoberto sua repelente sujeira; longos cabelos negros caiam em desordem sobre os ombros; a pele de um escuro baço, estava salpicada aqui e ali pelo urucu; percebia-se através de sua fisionomia algo de ignóbil, que não observei entre outros índios, e enfim, uma espécie de embaraço estúpido que traia a idéia de eles mesmos tinham de sua inferioridade.”(HILAIRE, 1975. p. 30 apud OLIVEIRA, R. B. de. p. 2.).  
Coroado e Botocudo. Viagem pelo Brasil, 1817-1820. Spix e Martius.

O naturalista francês deixa clara sua visão preconceituosa e eurocêntrica sobre os costumes e o porte físico dos Coroados. No seu registro, ele destaca a falta de higiene e o hábito de os nativos de pintarem o corpo com o urucu, fruto a partir do qual os índios obtinham uma tinta avermelhada que usavam para pintar o corpo.


A pintura corporal servia como um protetor solar, repelente contra insetos e tinha caráter estético, religioso e cultural. 
Como se sabe, os índios costumavam se banhar, diariamente, nos rios, onde nadavam e pescavam. O fato de os índios se banharem constantemente contraria a ideia do autor francês de que eles não tinham cuidado com a sua higiene. 

Aspectos econômicos, políticos, sociais e religioso

Esses grupos indígenas cultivavam pequenas roças de milho e de mandioca. Faziam bebidas a partir da fermentação do milho. Suas aldeias tinham cabanas erguidas com troncos de madeira, cobertas por folhas de árvores. As habitações eram coletivas, com capacidade para abrigar dezenas de pessoas.

Aldeia de Coroados. (Viagem pelo Brasil, 1817-1820. Spix e Martius)

As tribos tinham como líder o cacique, ele tomava as decisões após ouvir os conselhos dos homens mais experientes da tribo. Havia também o pajé, uma espécie de sacerdote e curandeiro, dotado de conhecimentos religiosos e mágicos.
Cultuavam vários deuses, portanto, eram politeístas.

Sobre a organização social e política dos Coroado, o já citado observador alemão do século XIX, em visita à Capitania de Minas Gerais, registra:

"São raríssimas as brigas desencadeadas para decidir a posse de algo, se pertence a um ou a outro, porque as diversas famílias que habitam em uma aldeia moram muito distantes umas das outras,muitas vezes horas, havendo pouco contato entre elas. As diferentes famílias, que contam às vezes 40 membros, obedecem geralmente ao mais velho. Vivem em perfeita comunhão de bens, constroem suas cabanas em mutirão, plantam pequenas roças e caçam juntos e desfrutam o resultado de seu trabalho coletivamente. Somente quando temem ataques dos bravos puris, ou quando querem atacá-los, todos se unem para a mesma finalidade." (ESCHWEGE, 2002, p. 101 apud AGUIAR, J. O., 2010.).

Como se percebe, não havia entre os povos indígenas uma noção de propriedade privada, tendo em vista que a terra era um bem coletivo e os alimentos eram repartidos entre todos os membros da comunidade.


A divisão do trabalho levava em conta o sexo, enquanto os homens caçavam e cuidavam da guerra, as mulheres preparavam os alimentos, coletavam vegetais e cuidavam das crianças.

A guerra entre esses diferentes povos indígenas era algo comum, já que vez ou outra acabavam disputando territórios entre si. Mas o principal motivo que provocava luta era a vingança. Os puri e os coroados eram rivais, suas batalhas eram violentas. Lutavam com arcos e flechas e tacapes de madeira. Os guerreiros também se enfeitavam com plumas de aves.


Índios em guerra. Gravura publicada no livro "Duas viagens ao Brasil", de Hans Staden (1557). 

O vencedor comemorava a vitória com rituais, como o descrito abaixo, quando um Coroado celebram a morte de um rival:

"O braço de um guerreiro puri morto na guerra é o maior símbolo de vitória para os coroado. As vitórias são comemoradas com uma festa, onde é servida com abundância a bebida fermentada feita com milho. O braço do puri morto passa de um para outro durante a dança e às vezes ele é colocado em pé e serve de alvo para as flechas. Outros o molham na bebida alcoólica, depois o molham e chupam-no e ainda o maltratam de toda a sorte, tudo isso ao som de hinos em louvor ao vitorioso e canções de repúdio e desprezo aos puris." (FAUSTO, 1999, p. 251-282 apud AGUIAR, J. O., 2010.).

Fim dos povos indígenas?

A intensificação do processo colonizador na região a partir da segunda metade do século XVIII, que provocou o surgimento de núcleos urbanos e a ampliação das áreas de cultivo e da pecuária, tornaram as terras um bem ainda mais precioso para os índios. Para tentar resistir ao avanço colonizador, alguns fugiam, vagavam por áreas mais interioranas, outros ficavam, morriam ou passavam a viver nas sesmarias.

O antropólogo Darcy Ribeiro (1995) enumera a tragédia que a colonização representou para os índios:
"A branquitude trazia da cárie dental à bexiga, à coqueluche, à tuberculose e o sarampo. Desencadeia‐se, ali, desde a primeira hora, uma guerra biológica implacável. De um lado, povos peneirados, nos séculos e milênios, por pestes a que sobreviveram e para as quais desenvolveram resistência. Do outro lado, povos indenes, indefesos, que começavam a morrer aos magotes. Assim é que a civilização se impõe, primeiro, como uma epidemia de pestes mortais. Depois, pela dizimação através de guerras de extermínio e da escravização." (RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 47)

A chegada dos colonos e o consequente aldeamento dos índios foi uma forma de pacificar os nativos. Nas aldeias, os índios eram catequizados, aprendiam técnicas agrícolas e artesanais aos moldes europeus e eram forçados a abandonar seus costumes, tais como a nudez, a poligamia e o culto às suas divindades naturais.

Aldeia tapuia. Rugendas - século XIX.

Aqueles nativos que tentassem resistir aos colonos enfrentavam a guerra justa, isto é, poderiam ser mortos ou capturados e escravizados pelas tropas coloniais.


Confronto entre índios e colonos. Rugendas. Século XIX. Os nativos tiravam proveito do conhecimento que tinham da vegetação e do relevo, para emboscar seus captores, com armadilhas e ataques surpresas. 

Índios capturados por bandeirantes e caçadores de escravos. Debret. Século XIX.

Mas a intenção do Governo Colonial era assimilar o índio à civilização que estava chegando aos sertões. Portanto, os aldeamentos, a mestiçagem e a realocação dos indígenas para trabalhar em terras coletivas se tornou a melhor opção para que Portugal concretizasse sua expansão territorial.

Os resultados da colonização já são bastante conhecidos por todos nós - índios dizimados pela guerra, pelas doenças, pela fome e pelo trabalho compulsório. A cultura indígena foi forçada a se adaptar aos costumes dos portugueses e mestiços e também às práticas do catolicismo. Logo, pouco restou da cultura original dos nativos, bem como detalhes de seus costumes e História.
Como esses povos indígenas não dominavam a escrita não deixaram registros, por isso muito do que sabemos sobre eles deve-se aos relatos de viajantes europeus e registros feitos pelas autoridades coloniais, os quais estão preservados em Arquivos Históricos. Entretanto, devemos fazer uma leitura crítica de tais documentos, pois muitos deles contém imprecisões, preconceitos e idealizações da visão europeia-dominadora sobre a terra e os povos dominados, os quais eram julgados exóticos, inferiores e selvagens.  Há também os achados arqueológicos, as fontes materiais, como urnas funerárias, restos de instrumentos e outros vestígios que são encontrados em sítios arqueológicos na região, que nos ajudam a recriar a vida e a cultura dos primeiros habitantes da Zona da Mata Mineira. (Para saber mais sobre arqueologia na Zona da Mata, acesse o site do Museu de Arqueologia e Etnologia Americana da UFJF).


Arqueólogos trabalhando em escavações na região metropolitana de Belo Horizonte (2012).
Todo o empenho em pesquisas e estudos regionais é compensador, pois elucida diversas questões relacionadas às nossas raízes étnicas, contribuindo para enriquecer ainda mais nossa História. O historiador Marco Morel nos lembra que: 
"Os contatos de cinco séculos entre os povos chamados de indígenas e os representantes da civilização ocidental nas terras brasílicas ocorreu entre grupos diversos de ambos as partes, gerando, ao lado de violências e guerras, interações e influências recíprocas. Não é a toa que estudos de genética das populações apontam que um terço da população considerada branca no Brasil atual possui ascendentes indígenas. Além de se constituírem como Outro, os índios somos nós, modificados ambos ao longo do tempo." (http://bndigital.bn.br/redememoria/pindigenasdocs.html)

Portanto, reconhecer a importância histórica dos povos indígenas, além de tantos outros grupos étnicos que compõe o povo brasileiro, é valorizar nossa identidade e admitir que ela é multifacética, rica e complexa.

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