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10.12.23

Dicas para as férias: livros e filmes

As férias vão começar e nós merecemos um justo descanso!

Para relaxar na folga nada melhor do que  ler bons livros e assistir a ótimos filmes! Então, vamos aproveitar e colocar a leitura e o cinema em dia. 

Confira nossas dicas.

A Saga O senhor dos anéis, inspirada na obra do escritor J. R. R. Tolkien, é um clássico do cinema e da literatura fantástica. Não tem erro ao escolher o universo de Tolkien, a emoção e o entretenimento estão garantidos!







Não esqueça da leitura!

Que tal apostar em autores nacionais,  como Machado de Assis, Lima Barreto ou Guimarães Rosa?!

Os clássicos produzidos por esses grandes nomes da literatura brasileira merecem ser lidos e relidos e, mesmo assim, ainda podem nos surpreender!

 





28.11.23

Entrevista exclusiva: Professora Vanete Santana-Dezmann



AC  - Conte para nós como tem sido sua trajetória acadêmica e profissional até aqui? E com quais projetos está envolvida atualmente?

 

Vanete - Fiz Licenciatura e Bacharelado em Letras na Unicamp nos anos 1990, depois eu fiz Aperfeiçoamento em Teoria Literária também na Unicamp e, por fim, Mestrado e Doutorado em Linguística Aplicada na subárea de Teorias da Tradução. Eu tive como professora durante a graduação na Unicamp a Marisa Lajolo, que é um dos maiores nomes quando se tratam de especialistas em Monteiro Lobato e, por meio dela, eu conheci principalmente a obra adulta do Monteiro Lobato. A obra para adultos, pois a infantil, claro, nós que crescemos nos anos 1970 conhecemos primeiramente por meio da TV. Muitas crianças tiveram contato nos anos 1970 com os livros infantis do Lobato, com a obra infantil, por causa da série de TV. Eu não tive contato com a obra infantil escrita do Lobato quando eu era criança. Eu lia outro tipo de literatura. Eu tinha mais interesse por estudos da área de astronomia e outros correlatos.

Quando eu estava na graduação, foi a época em que a Marisa, como professora na Unicamp, montou o grupo de pesquisa sobre Monteiro Lobato. Eu cheguei a fazer parte das reuniões iniciais, mas me interessava mais na época pela Idade Média e aí eu fui fazer Iniciação Científica em Estudos Medievais e acabei deixando os estudos sobre Lobato de lado. Quando eu estava no Doutorado, no programa de pós lá do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, havia sido instituída a necessidade de que além da pesquisa principal, que era a pesquisa do Doutorado em si, nós fizéssemos duas pesquisas fora de área. Então nós tínhamos, além do orientador da pesquisa principal, mais dois outros orientadores e tínhamos mais duas outras pesquisas. Então eu escolhi a Marisa Lajolo como orientadora de uma das pesquisas fora de área e foi bem engraçado porque a Marisa virou pra mim e disse: "Vanete, você sabe que eu só trabalho com Monteiro Lobato, né?". Daí eu falei: "Claro, eu vou fazer a pesquisa sobre Lobato sem problema!" Então, como o tema da pesquisa principal do meu Doutorado estava relacionado a estudos germânicos, ela sugeriu que eu fizesse uma pesquisa sobre a adaptação que o Lobato fez da obra do Hans Staden, que em português tinha sido publicada como Duas viagens ao Brasil. Eu acabei fazendo essa pesquisa, que era pra ser simplesmente uma pesquisa fora da área de concentração de minha pesquisa principal, mas a minha orientadora achou a pesquisa e os resultados tão interessantes que ela sugeriu que eu mantivesse o trabalho sobre aquele tema e deixasse a minha pesquisa principal para depois, para um eventual pós-doutorado. Assim, eu acabei abandonando a minha pesquisa principal e mudei o meu objeto para o trabalho que o Lobato fez com a obra do Hans Staden. Eu acabei fazendo o doutorado sobre como Monteiro Lobato utilizou a literatura estrangeira, principalmente a obra do Hans Staden, para expressar o seu conceito de construção de uma nacionalidade brasileira, um projeto no qual o Lobato trabalhou o vida inteira. Foi assim que meu Doutorado acabou sendo sobre Monteiro Lobato. Eu fiz uma parte da pesquisa na Universidade Livre de Berlim (o doutorado-sanduíche) como bolsista do DAAD e da CAPES.  Depois eu voltei pro Brasil, defendi a tese, trabalhei um tempo, entrei no Pós-doutorado e retomei o projeto que eu tinha durante o Doutorado, aquele que eu abandonei antes para trabalhar com o "Lobato". Durante o Pós-doutorado, que eu fiz na USP, eu fui novamente para a Alemanha para fazer parte da pesquisa, pois minha pesquisa era relacionada aos estudos germânicos. Eu fiz a pesquisa no Museu Goethe, em Dusseldorf. Eu fui com bolsa da Fapesp. Depois do Pós-doutorado, eu morei na Alemanha por alguns anos e ingressei, como professora, na Universidade de Mainz, a Johannes Gutenberg. Como professora de tradução no Curso de Tradução Alemão-Português, eu acabei criando um projeto de tradução que fazia parte de metodologias inovadoras de ensino de tradução, que consistia justamente na tradução de Reinações de Narizinho para o alemão. Desde então, eu tenho trabalhado quase que exclusivamente com Monteiro Lobato. A partir deste projeto, que resultou na publicação de Reinações de Narizinho em alemão, com tradução dos meus alunos do curso de Tradução e também com o apoio do professor Marcel Vejmelka (que era responsável pelas aulas de tradução de português para alemão – eu era responsável pelas aulas de tradução de alemão para português; nós trabalhamos juntos), eu passei a trabalhar quase exclusivamente com lobato. Depois desse projeto, que resultou na publicação da tradução, junto ainda com a Universidade, e com o professor John Milton, da USP, acabei criando a "Jornada Monteiro Lobato". Isso foi em 2019. E depois da "Jornada" de 2020, por sugestão do professor Jonh Milton, criamos também os "Encontros com Lobato", que ocorrem mensalmente na Universidade de São Paulo, com transmissão pelo YouTube (FFLCH-USP). Deste projeto e destas iniciativas, nasceram três livros contendo artigos sobre Monteiro Lobato. Estamos, no momento, organizando o quarto livro. Também nasceram o grupo de pesquisa e a minha análise de O presidente negro, que foi publicada em 2021 (Entre metafísica, distopia e mecenato), e houve vários outros desdobramentos. Entre eles, a publicação da tradução de O presidente negro para o inglês, feita pela Ana Lessa, que faz parte do nosso grupo de pesquisa e contou com o financiamento da Fundação Biblioteca Nacional. Há também várias palestras, tanto minhas quanto de integrantes do grupo sobre Monteiro Lobato. Enfim, acabou se formando um movimento muito grande e os projetos atuais que nós temos são todos relacionados a Monteiro Lobato. Pretendemos continuar analisando a obra de Lobato e publicando estas análises, tanto por meio de artigos e livros quanto por meio de palestras e mesas-redondas que nós organizamos. Também estamos no momento organizando a V Jornada Monteiro Lobato e todos os integrantes do grupo "Observatório Lobato" têm projetos relacionados ao autor.

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Clique aqui para assistir.


AC - Qual a importância deste autor e de sua obra no panteão literário e cultural nacional?

 

Vanete - Monteiro Lobato é um dos principais agentes culturais do Brasil. A importância de Lobato se deve não apenas ao que ele publicou de sua própria autoria, mas também à criação de editoras e à publicação dos principais escritores de sua época, todos os modernistas, por exemplo, foram publicados por Monteiro Lobato. A própria Anita Malfatti era uma das responsáveis pelas capas dos livros publicados pelas editoras do Monteiro Lobato. E Lobato também é importante porque dentro daquele projeto de construção de uma identidade nacional brasileira, uma identidade culturalmente rica, ele achou importante trazer para o Brasil o que existe de melhor na Literatura Universal. Então Lobato traduziu muito e também contratou muitos tradutores e publicou muitas traduções. O que de melhor existe na Literatura Universal, o cânone da Literatura Universal, que foi publicado no Brasil até a primeira metade do século XX foi publicado pelo Monteiro Lobato.

Além disso, Monteiro Lobato, que era um visionário, tinha interesses em outras áreas dessa construção da identidade nacional brasileira. Ele também almejava a construção de um Brasil moderno. Desses dois projetos, faziam parte não só a disseminação do cânone literário Universal – e da sua própria produção e dos brasileiros –, mas também o desenvolvimento econômico do Brasil. Então o Monteiro Lobato foi pioneiro na exploração de petróleo e minérios e também pioneiro em iniciativas que visavam a utilização de produtos naturais brasileiros na indústria.

O Monteiro Lobato é um dos principais nomes não só na Literatura, mas também fora dela... quando se pensa em inovação, em construção de um projeto de nação... e daí a importância imensa de Lobato para o Brasil.

"O Monteiro Lobato é um dos principais nomes não só na Literatura, mas também fora dela... quando se pensa em inovação, em construção de um projeto de nação... e daí a importância imensa de Lobato para o Brasil".  


AC - Quando você entrou em contato pela primeira vez com alguma produção cultural assinada ou inspirada pelo autor?

 

Vanete - Eu já respondi essa pergunta em parte, mas agora vou falar mais especificamente dela. Quando eu era criança eu vi a propaganda do "Sítio do picapau amarelo" na televisão – e eu achei que fosse um filme, porque eu era muito criança e, então, eu não tinha muita noção das coisas... eu era muito pequena, eu não tinha noção que de seria algo em capítulos e que estaria presente na minha vida todos os dias da semana por três ou quatro anos.... – quando eu vi a propaganda, eu disse: “Ah, eu vou assistir!”, meio que já reservando a televisão para mim naquele dia e naquele horário, avisando ao pessoal de casa que eu iria assistir ao "Sítio do picapau amarelo". E daí, quando começou e era uma série, eu achei aquilo fantástico.,. porque eu passei a conviver com aqueles personagens – ainda que fossem adaptados, de alguma forma pasteurizados ou modificados para o público infantil daquela época e que estava assistindo às histórias, e não lendo –  eu caminhei ali junto com o Pedrinho, a Narizinho, a Emília, o Visconde de Sabugosa, o Saci, a Cuca por uns três ou quatro anos... até que o primeiro elenco foi mudado, os atores que faziam Narizinho e Pedrinho foram trocados e eu não me identifiquei mais com os novos atores e, além disso, eu já estava passando para uma outra fase da vida. Os atores estavam deixando a série porque tinham crescido e eu também tinha crescido e os meus interesses por astronomia se intesificavam e eu mergulhei mais nesse mundo da ciência e deixei o mundo da ficção. As obras literárias que eu lia, nessa fase dos 13-14 anos, foram de ficção científica.

Eu só voltei a ter contato com a obra do Lobato – para adultos – na Universidade. E eu li as “estórias” infantis do Lobato depois de adulta, para fazer análises literárias. Então as análises que eu faço, normalmente, são muito objetivas. As minhas análises não são permeadas pelo lado emotivo, porque eu não tive contato com esta obra quando eu era criança. A minha leitura da obra infantil de Lobato só se dá depois que eu já sou adulta, depois que já sou formada em Teoria Literária, depois que eu já estou acostumada a ler livros para fazer análises. Então o meu interesse na obra é muito mais profissional do que recreativo – o que não quer dizer que não seja agradável e uma forma de recreação ler a obra do Lobato. Eu me divirto, claro, com os personagens e a obra para adultos é fascinante! Revela um conhecimento da sociedade da época em que ele vivia e também um descompasso com aquela sociedade. Lobato foi, sem dúvida nenhuma, um homem muito à frente do seu tempo. Então é muito interessante ver a crítica social, as análises que o Lobato faz do Brasil da primeira metade do século passado por meio da sua obra literária. Vale ressaltar que o Lobato escreveu a primeira distopia que foi publicada como livro de que se tem notícia. E distopia normalmente é uma ficção científica e é uma “estória” em que tudo parece perfeito, porém, quando você analisa mais profundamente, você percebe que aquela perfeição é extremamente nociva. E a distopia é sempre uma crítica social e o Lobato faz exatamente isto em O presidente negro, que é a primeira distopia publicada no Ocidente de que se tem notícia e é uma das primeiras distopias que foi escrita. Na verdade, até onde eu sei, a primeira distopia escrita foi We ("Nós"), por um russo que havia fugido da União Soviética e vivia em Nova Iorque. Essa “estória” foi publicada entre 1922-1923 em um jornal de operários russos nos EUA. E a segunda distopia já é O choque das raças ou o presidente negro, do Monteiro Lobato, de 1926, que foi a primeira a ser publicada como livro. Então, imaginem a importância do Monteiro Lobato não só para a Literatura brasileira como para a Literatura Ocidental!



AC - O que você pensa a respeito da questão racial envolvendo a obra de Lobato? Considera o autor racista e acha justas as críticas que ele recebe de alguns segmentos da sociedade?

 

Vanete - Creditar racismo à obra do Monteiro Lobato é algo que só pode vir de pessoas muito mal informadas, inclusive mal informadas sobre a própria obra do Monteiro Lobato. Dentre os principais críticos, dentre os principais detratores de Monteiro Lobato e de sua obra se encontram pessoas que já escreveram, inclusive, declarações como "não li e é racista". Quer dizer... isto é de um preconceito tremendo, né? Emitir um conceito concebido antes de se ler a obra e ainda manter esse conceito concebido antes da leitura e não se dar ao trabalho de ler pra ver se esse conceito se confirma ou se altera... A primeira observação que eu tenho a fazer com relação às pessoas que acusam Lobato e sua obra de serem racistas é que estas pessoas são extremamente preconceituosas. Então, o conselho para quem acha que há racismo na obra de Lobato é que comece a ler a obra, comece a procurar no dicionário as coisas que não conhece, as palavras que não entende, converse com seus ancestrais, as pessoas mais velhas da família sobre qual era a linguagem de cem anos atrás, sobre a gírias ou modo popular de falar, principalmente do caipira... para que comece a entender a linguagem do Lobato. Há pessoas, por exemplo, que não têm a mínima noção do que seja – aliás eu acho que 90% da população brasileira atual não sabe o que é – uma "macaca de carvão". Então, por exemplo, quando elas leem lá em "A caçada da onça" que “Tia Nastácia trepou no mastro de São Pedro como uma macaca de carvão”, estas pessoas fazem mil ilações sobre o que é uma macaca de carvão, relacionando isto a racismo, quando macaca de carvão é um muriqui, ou buriqui, entre outras variações de origem tupi-guarani: um macaco de pelo alaranjado, ruivo. Há uma característica das fêmeas desta espécie: enquanto os machos são esguios e, portanto, são capazes de subir em um mastro com muita destreza, as fêmeas têm o ventre avantajado. Então, mesmo quando estão tentando subir rapidamente o mastro, uma árvore, não conseguem subir tão rápido quanto os muriquis machos... e elas têm um certo movimento de corpo característico de um corpo que tem ventre avantajado.  Então, quando Monteiro Lobato escreve esta frase, em primeiro lugar, ele não está dizendo que tia Nastácia é uma macaca de carvão ou que tia Nastácia é como uma macaca de carvão. Ele está descrevendo o movimento que ela fez para subir no mastro: ela subiu como uma macaca de carvão. Então, isso é uma descrição do movimento; não é uma descrição da própria tia Nastácia. Indiretamente, este movimento feito quando ela sobe o mastro acaba descrevendo a própria personagem... acaba gerando uma característica física da personagem que não tem relação com a cor da pele dela, porque, como eu já disse, o buriqui tem a pelagem alaranjada. A descrição que é feita sobre a característica física da personagem se concentra no corpo dela: provavelmente a tia Nastácia concebida pelo autor era um pouco gorda... tinha o ventre avantajado e, por isso, ela subia o mastro como uma macaca de carvão. É muito comum nos livros do Monteiro Lobato a comparação com o macaco quando ele quer descrever que determinado personagem salta ou sobe em alguma coisa com muita destreza. Porque isto também era algo comum na época na linguagem popular e eu me lembro de quando eu era criança a minha mãe dizer:_"Para de pular! Tá parecendo uma macaquinha!". Esse negócio de ficar sempre em movimento, de ficar pulando, de ficar se mexendo... de não ter parada – que é característica de muitas crianças, né? – era visto como um comportamento de macaco, era comparado... e daí os pais, os adultos, diziam para as crianças: "Parece uma macaca! Tá subindo aí no muro... tá em cima dessa árvore... Desça daí; parece uma macaca!". Isso era algo comum entre pelo menos os caipiras do interior de São Paulo, que é de onde eu venho. Então eu me lembro disto e as outras pessoas que são do interior de São Paulo e que têm raízes caipiras provavelmente também vão se lembrar. Macaco, na cultura caipira, nunca foi demérito, muito pelo contrário, era um elogio, porque sempre estava correlacionado a esta agitação, a essa destreza para saltar, para subir em coisas...  Então, as pessoas que acham que há racismo nesta passagem do Monteiro Lobato deveriam se informar mais sobre a cultura de que esta “estória” trata, que é a cultura caipira. Estas pessoas deveriam se informar mais sobre a linguagem que é utilizada ali, que é a linguagem caipira... é o dialeto caipira. E, principalmente, deveriam no mínimo pegar um dicionário e procurar o que é um macaco de carvão pra descobrir que isto é uma espécie de macaco, que isso não é um nome pejorativo, um xingamento... como a maioria das pessoas imagina que seja. Então, a quem tiver interesse em se aprofundar sobre este tema, eu recomendo a leitura do capítulo sobre a análise de "Caçadas de Pedrinho" escrito pelo Felipe Chamy.

Com relação a O Presidente negro, que tem sido agora apontado como uma obra racista, o livro é uma crítica à eugenia negativa. Isto é outra coisa que as pessoas precisam conseguir enxergar... a crítica que está presente no livro. Porém, eu também imagino que 90% da população brasileira não saiba que existem dois tipos de eugenia, duas linhas eugênicas, uma positiva e outra negativa. Então, se elas não conseguem saber nem isto, como é que elas vão conseguir enxergar ali a crítica à eugenia negativa? As pessoas precisam se instruir mais antes de falar tanto. Então, resumidamente, é isto que eu acho quando se tratam de acusações de que Lobato e sua obra sejam racistas... O que eu acho é que as pessoas têm que ler a obra, têm que entender o que está escrito lá, começando por entender o vocabulário que é utilizado... se instruírem mais e daí, sim, começar a emitir opinião.  Ainda sobre este tema, eu acho importantíssimo o trabalho que o professor Aluizio Alves Filho faz e recomendo fortemente a leitura do trabalho do professor. Quem sabe assim as pessoas consigam se instruir um pouco mais e manifestar menos preconceito.


 

Referências bibliográficas

Ferreira, Filipe Augusto Chamy Amorim. “Caçadas de Pedrinho ou a guerra de comandos e símbolos”. In: Santana-Dezmann, Vanete; Milton, John; D’Onofrio, Silvio T. (org.). Monteiro Lobato: novos estudos. Lünen: Oxalá Editora, 2022, p. 67-84.

Lobato, Monteiro. The Clash of the Races (trad.: Ana Lessa-Schmidt). Hanover-EUA: New London Librarium, 2022.

Santana-Dezmann, Vanete. Entre metafísica, distopia e mecenato. 1ª. ed. São Paulo: Os Caipiras, 2021. (Contém a primeira edição recuperada de O presidente negro ou choque das raças (1926), de Monteiro Lobato).

14.9.23

História & Cinema: Dois filmes nacionais inspirados na história e literatura brasileira



  • Memórias póstumas de Brás Cubas (2001)

O filme homônimo ao clássico assinado por Machado de Assis,  em 1881, é, assim como o livro, uma produção que prende o telespectador à tela do princípio ao fim. Imperdível!



  • Guerra de Canudos (1996)

Este longa-metragem foi inspirado na célebre obra "Os Sertões" (1902), de Euclides da Cunha. O filme narra a trágica batalha de Canudos, entre os sertanejos e o exército na jovem república brasileira em 1896-1897.



20.5.20

Povo preguiçoso ou povo doente?

Por bastante tempo, alguns pensadores explicavam o atraso socioeconômico do Brasil devido à preguiça inata do brasileiro. Tal atributo,  acreditavam, haviam sido herdados por nossa raça da mestiçagem,  isto é,  do cruzamento entre distintos povos. 
O diplomata francês Conde de Gobineau, que esteve no Brasil em 1870, fez a seguinte anotação sobre o povo brasileiro: "toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo".

Esse preconceito difundido como ciência no final do século XIX ficou arraigado na cultura popular e até os dias atuais há quem acredite na validade da sentença.

A ideia do brasileiro preguiçoso foi fartamente representada na literatura nacional, para ficar em apenas dois exemplos,  lembramos de dois ícones,  como o Jeca Tatu (1914), de Monteiro Lobato e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade.

Macunaíma queria apenas brincar e explorar a exuberância da floresta tropical, era um anti-herói.

O Jeca Tatu,  de Lobato,  tornou-se um símbolo. A caricatura pintada pelo escritor paulista mostrava o caboclo acocorado, avesso à civilização e ao progresso. 

Uma visão negativa a respeito do homem brasileiro,  sem dúvida.

Entretanto,  em 1918, Monteiro Lobato pede desculpas ao Jeca, mudara de ideia em virtude de suas novas experiências,  ampliação das redes de sociabilidade e contato com as ideias médico-sanitárias. Lobato publicou no prefácio de seu livro o pedido de desculpas, dizendo que antes ignorara o estado mórbido do caboclo. Se o Jeca era preguiçoso e improdutivo era por causa da doença,  fruto do abandono dos sertanejos pelos bacharéis da República.

Sem políticas públicas de educação e saúde,  o que restava aos camponeses,  senão o analfabetismo e as moléstias que afligiam a população,  principalmente os mais humildes e os desamparados.

Quando constatou o déficit de saúde do homem brasileiro, Monteiro Lobato com sua sensibilidade e inteligência passou a defender a revitalização de seus patrícios. Na imprensa publicava artigos, depois enfeixados em um livro - "Problema Vital" (1918) - advogando a necessidade de sanear o país. Para o criador do Jeca Tatu, o problema econômico e político derivava da falta de saúde,  afinal,  o que um povo tomado pelo amarelão ou empaludismo conseguiria produzir?

Lobato argumentava que o brasileiro era um homem como o seu semelhante italiano ou inglês, não importava a nacionalidade, mas por conta da morbidez era um homem em estado latente. Urgia tratá-lo, educá-lo e alimentá-lo para só depois cobrar-lhe a produtividade no trabalho. 

Num vasto hospital como fora diagnosticado o Brasil, nas primeiras décadas do século XX, o que esperar de uma população senão apatia e incapacidade de competir e alinhar-se aos países capitalistas centrais, cujos habitantes já contavam com hábitos de higiene e políticas de saúde?

A defesa sanitária, da educação e da saúde de Lobato e dos médicos foram clamores do século passado, contudo ecoam muito bem até hoje. O direito à saúde ainda não é para todos, metade das cidades brasileiras não possuem tratamento de esgoto e doenças  evitáveis, como a dengue, ceifam centenas de vidas anualmente. A cruzada sanitária deve seguir viva, até que possamos ter um país saudável,  sustentável e economicamente produtivo.



18.4.20

Dia de Monteiro Lobato, dia da Literatura Infantil

18 de Abril é comemorado o dia da Literatura Infantil. A data evoca o nascimento de Monteiro Lobato,  o escritor paulista que é considerado o "pai" da literatura infantil no Brasil. 

Lobato nasceu no interior de São Paulo,  provavelmente em Taubaté,  em 18 de abril de 1882.


Em 1920, publicou "A menina do narizinho arrebitado" e a partir daí nascia a turma do "Sítio do Picapau amarelo". A obra Lobatiana encantava as crianças,  com lindas estórias.  Muitas cresceram e aprenderam a ler com os livros de Lobato. 

Muitos anos após o falecimento do autor, o "Sítio do Picapau amarelo" ganhou a televisão e até hoje sua obra segue sendo publicada, encantando e ensinando as crianças Brasil afora.

4.9.18

O primeiro best-seller nacional: Urupês

Assista à conferência proferida por Luís Camargo na Academia Brasileira de Letras:

1.5.18

Diário de Ywesky Borislav: O homem que acreditava na morte de Deus

Como todos já sabem, se é que alguém irá ler meus fragmentos de memória um dia, sou um humilde caixeiro viajante, mas devido à minha formação geral numa escola de monges católicos tinha noções de ciências, filosofia, história e álgebra. Tais habilidades me tornaram um observador arguto de minha realidade e por mais que minha formação me dirigisse para a fé eu buscava o caminho da razão.

Certa vez, depois do trabalho, me deparei com um mendigo deitado na escadaria da Igreja, bem no centro da cidade. Deixei um pedaço de pão ao lado dele e antes de recolher meu braço ele me segurou firme. Pediu para eu esperar e perguntou se não gostaria de ouvir sua história enquanto dividíamos aquele pão. Respondi que não podia esperar, mas ele insistiu que eu ficasse, então assentei ao seu lado e o maltrapilho começou a contar coisas interessantíssimas enquanto comia o pão.

A seguir reproduzirei, da forma mais fidedigna possível, o que me foi relatado por aquele homem. Ele contou que pertencera a uma rica família da cidade, era herdeiro de terras e vinha de uma linhagem de chefes políticos locais. Seu nome era João. Porém, enfrentou graves problemas depois que começou a defender publicamente a ideia de que Deus estava morto e por isso fora perseguido, internado e perdera tudo com os custos dos modernos tratamentos psiquiátricos.
Falou que no lugar onde fora internado o trataram como louco, havia passado por doloroso tratamento, que incluía terapia à base de choques elétricos. Mostrou diversas cicatrizes pelo corpo, resultado de espancamentos que sofria por parte dos seguranças e dos demais internos. Chamou o lugar de cemitério dos vivos, pois quem entrava lá jamais saía novamente ou se saísse era na condição de um morto-vivo.
Ele havia recebido alta depois de pagar muito dinheiro ao médico responsável pelo sanatório. O restante de seus bens havia sido confiscados pelas autoridades municipais por conta de dívidas com fisco, assim, esse cidadão chamado João havia caído em miséria e desgraça.
Quando pensei que a história havia terminado ele acrescentou que me contaria sua teoria sobre a morte de Deus, passou a citar diversas passagens das escrituras sagradas que demonstrariam o óbito divino. Segundo ele, a morte do Criador foi processual, ocorreu em etapas, na medida em que suas principais criações foram lhe decepcionando, a começar pela desobediência de Adão e Eva, depois a barbaridade do evento envolvendo os irmãos Cain e Abel entre outros episódios sangrentos narrados na Bíblia até a crucificação de Cristo.
Por tudo isso, defendia que Deus tinha morrido, gradativamente, e se desintegrou na medida em que suas criaturas falharam com o propósito principal do ser: amar umas outras. Os templos erguidos em nome de Deus, portanto, eram inócuos e serviam apenas ao propósito de legitimar a exploração de uns sobre os outros e fortalecer o papel do clero na sociedade.
Bastou defender essas crenças que foi rotulado de louco, subversivo e acabou sendo internado por longos anos no hospício. Perdeu seus familiares, ficou sem vintém e agora dormia na escadaria sob a sombra da Igreja, sobrevivendo da caridade alheia.
Apesar de todas as intempéries, João confessou que espera ser ouvido com seriedade por alguém e acredita que um editor corajoso há de publicar suas ideias. Sua vida, dizia ele, dependia disso: demonstrar a validade de suas proposições e apresentar alternativas para uma nova organização espiritual da sociedade, sem igrejas, sem ritos, sem hierarquias, sem comércio religioso, sem dogmas e fanatismos que cegavam os indivíduos.
O espiritualismo pregado por João seria baseado em dois princípios: a fraternidade e o amor universal sem fronteiras de nações e de classes, eis aí o binômio divino que deveria ser cultuado pela humanidade.

Depois de ouvi-lo achei suas ideias bastante interessantes, embora perigosas, de fato, principalmente numa sociedade conservadora, cujas engrenagens políticas e religiosas funcionavam para preservar as desigualdades e não promover mudanças radicais nas estruturas de poder.
Me despedi, mas antes de seguir para a hospedaria deixei com ele algumas frutas e uns trocados, depois segui meu caminho. 

Y. B. (1940) 

19.2.18

Notas do Diário de Ywesky Borislav: Sobre a guerra de egos no funcionalismo publico

Certa vez fui a uma repartição publica aqui do interior para comercializar produtos da roça, eu levava linguiça, queijo, mel, manteiga, doces e ovos. Na ocasião presenciei um bate boca num dos corredores do predio, entre duas funcionarias. Uma era servidora de carreira e a outra também, mas ocupava um posto de chefia pelo que percebi.

A chefe se dirigia grosseiramente à sua subalterna, alegando que se não fosse pela proteção do Estado ela já estaria na rua, pois é péssima servidora, sempre chega atrasada, não faz nada direito, não é produtiva, enfim, era um peso morto para o funcionalismo. O Estado lhe pagava para ficar em sua saleta jogando conversa fora com outra servidora ao longo de sua jornada diária. A chefe ainda deu uma lição, enquanto a sua subordinada ouvia tudo espantosamente calma e em silêncio. Disse que jamais falta ao serviço, que é uma referência, serve como um espelho para os demais servidores seguirem e que, portanto, estava mais do que certa em exigir dos seus comandados que agissem com ela.

Nesse momento a servidora de carreira pediu a palavra e disse que iria agir com a diretora, sua chefe. Falou que chegaria atrasada quando quisesse, tiraria dia de folga por conta própria sem trazer atestado, viajaria para acompanhar o cônjuge sem apresentar atestado, se tornaria negligente com os seus afazeres, assim como ela se escondia atrás das pilhas de papel quando surgiam problemas reais, os quais demandavam ações de uma administradora de verdade. 
A chefe arregalou os olhos, ficou pálida e estarrecida com o que ouvira, balbuciou alguma coisa, mas sua língua travara, ela foi incapaz de qualquer tréplica.

Antes da administradora se reconstituir do golpe, a servidora emendou que ela não tinha moral para exigir nada, seu exemplo servia apenas para mostrar o que não deveria ser feito por um funcionario publico. Era uma pessoa que perseguia alguns e afagava outros, fechava os olhos para os seus erros e dos seus acólitos. Só estava naquele posto, pois vendera a alma para a burocracia estatal e não suportava mais estar no front, fazendo o que os demais servidores fazem - atender ao publico.

Saí logo do local, não vendi nada, fiquei chocado com o que vi e me perguntei quantos protocolos ficaram parados enquanto aquelas duas travavam sua guerra particular. Não sei bem quem estava certa ou errada, mas acho que a forma de lidar com os eventuais problemas seria conversando civilizadamente, sem troca de farpas e sem falso moralismo, pois a região já anda cheia de caquexia e está abarrotada de charlatanismo de todas formas possíveis - político, civil e religioso.

A maquina publica, infelizmente, tem funcionarios horriveis, os quaes tiram proveito da estabilidade e do apadrinhamento politico para se acocorarem no serviço, sem dar resultado algum, são contraproducentes. Urge uma reforma administrativa,  que extirpe o joio e valorize o trigo.
  
Enfim, deixei o lugar e fui ganhar o pão de cada dia, pois ao contrário daquela gente, eu era caixeiro-viajante e não poderia me esconder do mundo atrás de pilhas de papel, tampouco me beneficiava da benevolência eleitoreira ou estatal.

Y. B. (1951).

12.2.18

100 anos de Urupês e Problema Vital

Neste ano, obras clássicas da Literatura Geral de Monteiro Lobato (1882-1948) completam 100 anos!

Urupês e Problema Vital foram publicados em 1918.

Abaixo as capas das primeiras edições dos dois livros:


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Antes de Urupês, o movimento literário brasileiro vivia numa completa pasmaceira. “Não se escrevia nem se publicava nada. O jeito era reler o velho Machado de Assis ou Aluízio de Azevedo, Coelho Neto, João do Rio, Dona Júlia Lopes de Almeida, Franklin Távora, Euclides da Cunha, Taunay ou alguns autores de livros e não de obras...” (CAVALHEIRO, 1955, p. 201). Gilberto Freyre afirmara: “Quem diz Urupês diz uma revolução nas letras brasileiras”[1].


[1] FREYRE, GILBERTO apud NUNES, CASSIANO, 2000, p. 13.




Problema Vital “é um violento libelo”, no qual o autor, “em adendo aos pesquisadores de “Manguinhos”, denuncia o descaso oficial em relação às condições de saúde dos “Jecas”[1]. Para Lobato, “Até Osvaldo o medico no Brasil era o Chernoviz[2]: xaropes, iodureto e a continha. Curava – quando não matava. Prevenir, nunca. O higienismo dormia o sono das crisalidas, apesar do movimento cientifico universal determinado pelas teorias pasteurianas”[3]. O atraso do Brasil em relação aos países Ocidentais centrais no que tange à adoção da higiene na prevenção de doenças dava-se por conta da inércia de nossos dirigentes e da alienação das elites.


[1] ALVES FILHO, Aluizo. 2003, p. 67.
[2] Referência à obra do polonês Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1882), o qual viveu parte de sua vida no Brasil, onde escreveu o Dicionário de Medicina Popular (1842), obra que por muito tempo foi referência da medicina no Império. O dicionário descreve medicamentos de origem europeia e também vários outros baseados no uso e nas tradições indígenas. Conta com numerosos verbetes definindo as principais doenças disseminadas pelo Brasil e os meios terapêuticos indicados na sua cura. (https://www.bbm.usp.br/node/77 acesso em 05 fev, 2018). 
[3] LOBATO, Monteiro. 1951. p. 226.




1.2.18

História do Brasil para quem tem pressa

Comecei a ler a obra História do Brasil para quem tem pressa, de cunho didático, escrita pelo historiador Marcos Costa.

O texto, apesar de tropeçar na repetição de algumas palavras, é bem escrito, tem linguagem simples e objetiva de fácil apreensão pelo público em geral. Projeto editorial interessante e importante que auxilia na popularização e a na apropriação da História por nossa própria gente. Numa época em que informação é poder, é fundamental conhecer os processos históricos que concorreram para a formação política, econômica e social do que hoje chamamos Brasil.

O livro, sem dúvida, vai estar presente no planejamento das aulas, contribuindo para atividades complementares de leitura, interpretação e debate em classe sobre História do Brasil.

Abaixo, destacamos um trecho que descreve uma estratégia utilizada pelos portugueses no século XVI, de enviar para a colônia degregados para viverem entre os índios com a finalidade de obter informações sobre seus costumes, idioma e, claro, metais preciosos! Uma vez obtidas tais informações elas eram remetidas à Europa, por meio dos viajantes, os quais ficavam encantados com os relatos sobre montanhas de prata e pedras preciosas mas, ao mesmo tempo, sentiam medo da tribos selvagens e canibais que habitavam o "Novo Mundo".

Boa leitura.


10.1.18

Os Lisboas

Recebi hoje (10/01), com grande felicidade e gratidão, um presente do Dr. Antonio Marcio Junqueira Lisboa.

Trata-se da obra Os Lisboas, escrita por Antonio Marcio, na qual ele conta a trajetória de seus ancestrais. 

Antonio Marcio, pediatra, professor e escritor, é filho do Dr. Irineu Lisbôa (1894-1987), cuja ação enquanto médico sanitarista em Leopoldina e região nas décadas de 1910-1920, tem sido nosso objeto de pesquisa desde meados de 2015. De lá para cá, com a ajuda de Antonio Marcio Lisboa, já produzimos dois artigos científicos apresentados em dois eventos: um seminário regional e um internacional, respectivamente, em Carangola-MG (2016) e Niterói-RJ (2017). Os trabalhos foram publicados nos anais dos eventos acadêmicos e também em capítulo de livros que serão lançados por seus promotores. Assim, contribuímos para resgatar a memória e a história de Leopoldina, nossa amada cidade, na Primeira República, entre os anos 1910-1920.

Ainda há muito por pesquisar, teremos mais novidades por vir, e seguiremos diligentes nesta missão de reconstruir parte da história de nossa cidade sob o viés da ação e expansão do Estado na região, por meio das políticas de saúde (saneamento e higienismo).

Obrigado por toda a ajuda, dr. Lisboa.

9.1.18

Notas: Destinos conectados e opostos

Basta caminhar em direção à periferia da cidade, afastando-se pouco da área central, para observar o quanto a pólis anda mal, abandonada à própria sorte, vendo o mato, a cipoama e o entulho ocupar calçadas e terrenos baldios.

O cenário se torna ainda mais dantesco com a observação de obras, nos referimos aos predios publicos, por fazer, inacabadas, com materiais expostos ao tempo, estragando... E o peor é ver obras públicas prontas que foram subutilizadas e agora são ocupadas por nada, relegadas às intempéries do clima e servindo de abrigo às moscas, às baratas e aos ratos, em suma, são criadouros de doenças. Basta mudar o líder do executivo para serem descerradas novas flâmulas de placas inaugurais, cuja serventia é perpetuar a memória daqueles que estão no poder, despreza-se o melhor interesse colectivo das construções municipais.

Uma observação mais arguta permite a quem enxerga ver pontes, muros de contenção, estradas e outros trabalhos importantes para a segurança dos cidadãos sob ameaça de desmoronamento. Isso acontece por dois motivos, basicamente: Mal planejamento e execução ou o uso de material de qualidade duvidosa. No caso das cidades em que visito, frequentemente, no interior do Rio e de Minas, julgo que as duas causas são válidas.

O mais terrível é notar que, enquanto a cidade definha, exceptuando o centro - belo e limpo, a casa do chefe do executivo não pára de aumentar, já virou um sobrado desde ele assumiu sua função no gabinete. Já se vão vários mandatos e lá ele permanece, como uma erva daninha presa a sugar a vida d'uma árvore, deixando-a seca, podre e vazia. O homem fincou suas presas na prefeitura e tira dinheiro de lá, depois que violentou os cofres públicos e encontrou veias abertas, de onde jorra dinheiro para o aumento da fortuna privada com auspiciosos e inexplicáveis (?) ganhos.

Nada ocorre com o político imoral, ele ousa tudo, é intocável desvia rios caudalosos de verbas e recursos e a justiça nada faz, prefere punir os ladrões de galinhas. E o povo? Ah, o povo, subjugado, deixa-se espoliar. Afinal, o que a árvore faz quando é apanhada por uma erva-daninha?

Y. B. (1942).

6.1.18

Notas: Sobre a Segurança Publica

As forças policiais andam, de facto, por demais ocupadas aqui no interior. Há muito o que se fazer no trabalho. Vejamos a que têm se dedicado os nossos valentes agentes de segurança e representantes da justiça, eles andam a aplicar multas de trânsito, fiscalizar a postura dos cidadãos, tocar bebuns e andarilhos das praças, inibir qualquer tentativa de rebelião ou algo que macule a ordem pública e, quando sobra tempo, cortejar alguma donzela!

Apesar da eficciencia e da grande responsabilidade das polícias locaes com os seus afazeres cotidianos, os cidadãos pensantes estão sempre a se perguntar: 

_Por que a polícia não reprime o tráfico de entorpecentes com a mesma valentia que emprega no trato dispensado aos ladrões de galinhas, espanca operários grevistas e vagabundos que perambulam pela urbe? Por acaso os policiais não dispõem de recursos técnicos, mentais e éticos para enfrentar os poderosos que fazem vida fácil inebriando aqueles que se deixam enganar pela fuga da realidade oferecida por destilados e ervas proibidas?

_Por que a polícia faz vista grossa para os promotores de jogos de azar, que fazem seus acólitos transitar tranquilamente pelas ruas, colhendo apostas aqui e acolá, tirando dinheiro de gente humilde que acaba em depressão e alcoolismo por conta da tristeza e da má sorte?  

_Por que as forças policiais não investigam, junto com outras autoridades competentes, os sonegadores de impostos, os falsificadores de mercadorias, os charlatães, os neoescravocratas que subempregam mulheres, homens e crianças em condições de trabalho desumanas? Acaso essas ocorrências estão sendo praticadas sob a proteção da noite? 
_Não, elas ocorrem debaixo do nariz das autoridades. Cuja negligência ou cegueira alimenta a ousadia dos contraventores, os quais debocham das leis e fazem fortunas na clandestinidade.

Com tal comportamento das autoridades policiais, com o beneplácito de uma justiça tão injusta, parece que há receio dos agentes de segurança em mexer com os estratos mais elevados da sociedade, mesmo que alguns indivíduos desse grupo tenham chegado lá por meios ilícitos. A polícia teme os mais fortes, os ricos e os poderosos ou apenas age covardemente contra os despossuídos, os humildes e aqueles que denunciam a desigualdade? O modelo adotado pela polícia no Brasil é, em resumo, o seguinte: manter as ovelhas sob controle e permitir aos lobos o gozo de liberdade e impunidade por seus actos.

Há que se rever tais atitudes e comportamentos das autoridades, pois se queremos construir um futuro com algum equilíbrio social, com segurança e vida tranquila para todos não podemos suportar uma justiça que apenas oprime os fracos e acaricia os poderosos. Esse modelo não se sustentará sem provocar tremores e revolta popular.

Além disso, não se faz um país decente onde as leis não sejam cumpridas; Não teremos uma nação com equidade social, onde os pobres são taxados, enquanto os ricos e poderosos sonegam o fisco, desfalcando a fazenda pública; Não há discurso ético e moral que se sustente, tampouco um exemplo positivo para a sociedade, se as forças policiais do Estado se deixam corromper ou optam pela inação frente ao cumprimento de suas tarefas e obrigações.

Y. B. (1940). 

15.12.17

Notas: das águas e das condições sanitárias locaes

O mal de nossa década são as doenças parasitárias (parasitas biológicos e o pior de todas as espécies, o parasitus publicae) e infectocontagiosas, como ancilostomíase, o cólera, a peste, a febre amarela, a malária, a varíola etc.
Epidemias, de tempos em tempos, ceifam vidas, sobretudo nas cidades, onde os aglomerados urbanos padecem de condições adequadas para uma vida com salubridade.

É justamente nestas aglomerações de pardieiros desordenados, via de regra onde vivem os mais humildes e desprovidos de riqueza, que surgem as pestilências, pois a falta de hábitos de higiene, canalização dos esgotos e ausência de água potável provocam surtos de doenças, as quais rapidamente contaminam as populações.

Enquanto nossas autoridades, as quais julgo serem o pior dos males de nosso paiz, não resolverem promover uma revolução sanitária, canalizando as águas, zelando por sua pureza e potabilidade, assegurando a limpeza urbana e adequando o despejo dos esgotos o flagelo da morte permanecerá nos rondando, em busca de mais vidas para ceifar.

Canalhas vestidos de paletós, não sabem que as crianças são as principais vítimas da negligência sanitária que impacta diretamente no estado da saúde pública? Que alternativa tem o infante senão ingerir água de fontes contaminadas, cuja qualidade não basta nem para o trato das criações de animaes? O virgula morbus é letal no organismo infantil e o vibrião corre à plena liberdade nas fontes locaes, nos rios e nos riachos, os quais se encontram maculados pelo descaso e ineficiência dos administradores publicos. Não há obra alguma nos cursos d'água que ofereça qualquer resistência ou dificuldade à proliferação de micro-organismos que inviabilizam a vida humana. Assim, estamos fadados a ficar constantemente vulneráveis às epidemias, que enfileiram cadáveres, deixando filhos sem pais, viúvas e órfãos a mercê da caridade, da filantropia, da depressão e da degenerescência, como alcoolismo e outros descaminhos gerados pela tristeza profunda.  

A título de sugestão, o poder público deveria aproveitar melhor as águas pluviais ou canalizar adequadamente a água - desde a fonte até o chafariz ou os tanques de reserva. Algo tão simples, porém tão difícil para a mente provinciana do parasitus publicae. Esse tipo de ser parece não saber que a água é o fluído vital por excellencia e que a falta dela faz o martyrio dos povos.

Será que nossos governantes não compreendem que o saneamento é medida primeira e urgente para o desenvolvimento de qualquer civilização? Tomai Roma Antiga, como exemplo, onde a industriosidade erigiu pontes, aquedutos, termas e balneários que permitiram a edificação de um Império.

Sigamos os passos dos grandes, deixemos a política provinciana para trás, tentemos superar nossas limitações e interesses privados para agir pelo grêmio social, livrando-o  da calamidade e do terror das doenças evitáveis!   

Y. B. (1939)

14.12.17

Diário de Ywesky Borislav: Da cultura, ciências, letras e artes

Página VI - Vida sem arte compensa?

Em minhas andanças pelo interior, pouco ou quase nada vi de investimentos e inovação no campo das ciências, letras e artes. Como já dito, as escolas públicas regionais são precárias e em se falando de ciências mal contavam com alguns tubos de ensaios amontoados numa sala apertada, a qual chamavam de laboratório. Faltavam especialistas, químicos, biólogos e físicos para promover trabalhos de pesquisa e de experimentação científicas em escolas ou em instituições acadêmicas.



Os investimentos públicos e privados no setor científico eram inexistentes, pois entre as autoridades governamentais e homens de negócios não havia a consciência de que a ciência era um caminho para se alcançar o desenvolvimento, a médio ou longo prazo. Portanto, não era prioridade dos esforços das elites daquelas sociedades. Que pena! Pobres almas ignorantes, preferem se agarrar a mitos e alegorias religiosas, as quais conservam a humanidade no obscurantismo da ignorância a depreender um grande esforço libertador em nome da racionalidade, a única faculdade capaz de catapultar a humanidade para o cume. Como efeito da defasagem nas ciências, a agricultura definha, as terras ficam empobrecidas, a produtividade decaí, a indústria se torna incipiente e acaba por estagnar o nosso crescimento econômico e a produção das riquezas.  



Infelizmente, as artes e as letras são tão mal tratadas quanto a ciência. Mesmo não sendo natural desta terra, aprendi a amá-la, me sinto brasileiro e reconheço o valor da língua mater. "Não pisoteiem a última flor do lácio", bradava um linguista tupiniquim que se posicionava contra as reformas ortográficas que dilapidavam o idioma. Advogava que tais reformas colocavam amarras na língua na vã tentativa de uniformizar o que, por força da natureza, da geografia e das condições históricas e culturais é singular, quesito no qual reside a beleza do idioma.

Aquarelas, afrescos, murais, esculturas, conjuntos arquitetônicos, bibliotecas,  museus, enciclopédias, biografias, revistas, jornais, obras de valor acadêmico, científico ou de caráter cultural? Nenhuma! Não havia  entre nós, lamentavelmente, mecenas para fomentarem as artes e as letras locais, como houve os Médici e os Sforza na Itália, os quais patrocinaram os gênios da renascença naquele país. Logo, não tínhamos e nem teremos por aqui um da Vinci nem um Boccaccio, pois estamos tão atrofiados culturalmente que os prejuízos poderão ser contabilizados por séculos, resultando numa população insossa, sem criatividade, sem o mínimo de sofisticação cultural e refém de seus próprios preconceitos. Nem o poder público, nem o setor privado investiam nos talentos locais, não publicavam livros e nem incentivam os artistas. Se tínhamos grandes vultos nos maiores centros urbanos, como um Machado de Assis ou um Euclides da Cunha, no interior vivíamos num deserto literário e artístico.  As brochuras eram tão raras e escassas quanto pepitas de ouro, desta feita sua posse era prerrogativa de uma minoria letrada e podia se contar nos dedos aqueles que eram alfabetizados. 

Se a literatura é o sorriso de uma sociedade, o sorriso do interior do Rio e de Minas é amarelo, quase apagado, sem brilho e lhe faltam muitos dentes, pois que não há incentivo algum para a arte da escrita. Ser escritor ou artista por aqui é ser condenado a passar fome.

Afinal, qual o valor pragmático das letras e das artes? Por que os nossos homens nobres, letrados e poderosos não as valorizam? É certo que alguns deles possuem bibliotecas e coleções particulares, entretanto, por que não estendem o direito à arte para toda a sociedade? Primeiro porque arte é privilégio e símbolo de distinção e de poder, segundo porque a arte em si é libertadora, por isso, manter o povo alijado das manifestações culturais faz parte de um processo de dominação econômica, cujo tecido se inicia pela dominação cultural. Por que as elites e nossos dirigentes não abandonam sua mesquinharia e não veem as letras e as artes como um meio de inclusão, e de promoção do desenvolvimento humano, o que antecede, obrigatoriamente, o progresso econômico? Todos ganhariam, o povo se manifestaria, representando seus valores, seu folclore, sua história, enfim, sua identidade e com isso teríamos uma nação mais feliz. Ademais, há um valor intangível, inominável e que não pode ser mensurado em contos de réis, pois arte é vida e, sem arte, talvez, a vida não vale a pena ser vivida.   

Y. B.

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