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20.5.20

Povo preguiçoso ou povo doente?

Por bastante tempo, alguns pensadores explicavam o atraso socioeconômico do Brasil devido à preguiça inata do brasileiro. Tal atributo,  acreditavam, haviam sido herdados por nossa raça da mestiçagem,  isto é,  do cruzamento entre distintos povos. 
O diplomata francês Conde de Gobineau, que esteve no Brasil em 1870, fez a seguinte anotação sobre o povo brasileiro: "toda mulata, com sangue viciado, espírito viciado e feia de meter medo".

Esse preconceito difundido como ciência no final do século XIX ficou arraigado na cultura popular e até os dias atuais há quem acredite na validade da sentença.

A ideia do brasileiro preguiçoso foi fartamente representada na literatura nacional, para ficar em apenas dois exemplos,  lembramos de dois ícones,  como o Jeca Tatu (1914), de Monteiro Lobato e Macunaíma (1928), de Mário de Andrade.

Macunaíma queria apenas brincar e explorar a exuberância da floresta tropical, era um anti-herói.

O Jeca Tatu,  de Lobato,  tornou-se um símbolo. A caricatura pintada pelo escritor paulista mostrava o caboclo acocorado, avesso à civilização e ao progresso. 

Uma visão negativa a respeito do homem brasileiro,  sem dúvida.

Entretanto,  em 1918, Monteiro Lobato pede desculpas ao Jeca, mudara de ideia em virtude de suas novas experiências,  ampliação das redes de sociabilidade e contato com as ideias médico-sanitárias. Lobato publicou no prefácio de seu livro o pedido de desculpas, dizendo que antes ignorara o estado mórbido do caboclo. Se o Jeca era preguiçoso e improdutivo era por causa da doença,  fruto do abandono dos sertanejos pelos bacharéis da República.

Sem políticas públicas de educação e saúde,  o que restava aos camponeses,  senão o analfabetismo e as moléstias que afligiam a população,  principalmente os mais humildes e os desamparados.

Quando constatou o déficit de saúde do homem brasileiro, Monteiro Lobato com sua sensibilidade e inteligência passou a defender a revitalização de seus patrícios. Na imprensa publicava artigos, depois enfeixados em um livro - "Problema Vital" (1918) - advogando a necessidade de sanear o país. Para o criador do Jeca Tatu, o problema econômico e político derivava da falta de saúde,  afinal,  o que um povo tomado pelo amarelão ou empaludismo conseguiria produzir?

Lobato argumentava que o brasileiro era um homem como o seu semelhante italiano ou inglês, não importava a nacionalidade, mas por conta da morbidez era um homem em estado latente. Urgia tratá-lo, educá-lo e alimentá-lo para só depois cobrar-lhe a produtividade no trabalho. 

Num vasto hospital como fora diagnosticado o Brasil, nas primeiras décadas do século XX, o que esperar de uma população senão apatia e incapacidade de competir e alinhar-se aos países capitalistas centrais, cujos habitantes já contavam com hábitos de higiene e políticas de saúde?

A defesa sanitária, da educação e da saúde de Lobato e dos médicos foram clamores do século passado, contudo ecoam muito bem até hoje. O direito à saúde ainda não é para todos, metade das cidades brasileiras não possuem tratamento de esgoto e doenças  evitáveis, como a dengue, ceifam centenas de vidas anualmente. A cruzada sanitária deve seguir viva, até que possamos ter um país saudável,  sustentável e economicamente produtivo.



19.3.20

A varíola nas páginas da Gazeta de Leopoldina (1933)

Oficialmente, a varíola foi erradicada na década de 1980.

Antes disso, a doença matou milhões de pessoas em várias partes do mundo. No Brasil, ela fez incontáveis vítimas.

Em 1904, o médico-sanitarista Oswaldo Cruz tentou implementar a vacinação obrigatória contra a varíola. O fato revoltou a população do Rio de Janeiro e desencadeou um levante popular contra as autoridades - a Revolta da Vacina.

Nos anos 1930, a doença atingiu as populações de várias cidades da Zona da Mata mineira. O jornal "Gazeta de Leopoldina", de propriedade da família Monteiro Ribeiro Junqueira, acompanhou o drama da região e noticiou o problema, em várias edições de julho e outubro de 1933.
Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira, político e diretor da Gazeta de Leopoldina.

O periódico alertava os leitores sobre o risco da doença, descrevia seus terríveis sintomas e defendia a vacinação da população para prevenir que a moléstia atingisse Leopoldina.

O contágio se propagava rapidamente, Muriaé,  Caratinga e Ubá foram atingidas e a "Gazeta" cobrava atenção aos distritos próximos do ramal de Carangola. Quando havia surtos de epidemias, como os de cólera e a varíola,  o transporte ferroviário era interrompido, mesmo que trouxesse prejuízos para o comércio e problemas de abastecimento.

Quando o município de Caratinga foi atingido pela varíola, a publicação da Gazeta destacou o fato e cobrou urgência para conter a epidemia: 

"Urge que para ali, num esforço pertinaz, se volvam as vistas das autoridades sanitarias do Estado, afim de evitar que o mal se propague a outras regiões". 

O jornal, por fim, advogava a urgência de aumentar a disponibilidade dos tubos de linfas, para que mais pessoas pudessem ser imunizadas pelas autoridades do Posto de Higiene de Leopoldina. Exortava a todos que se vacinassem para evitar a propagação do mal e atacava aqueles os críticos da vacina: 

"São tolos, prejudiciais, desprovidos de fundamentos e até antipatrioticos os boatos que certas pessoas ignorantes se aprazem em espalhar sobre os perigos da vacinação.
Esta, feita com técnica, não oferece o menor perigo e constitue garantia segura e duradoura contra a variola".

A vacinação, para o Dr. Domingos Justino Ribeiro, chefe do Posto de Higiene de Leopoldina em 1933, era um dever e um ato patriótico. O médico argumentava que a doença "céga, depaupera, mata e deforma", por isso os pais deveriam vacinar seus filhos a partir dos três meses de idade, sob risco de vê-los sucumbir ante o terrível morbus.

Por fim, o jornal não deixou de cobrar do diretor geral de saúde pública que zelasse pela manutenção do estoque de vacinas nos postos e subpostos de saúde, espalhados por Leopoldina e cidades vizinhas. A falta de linfas era uma realidade, não havia vacinas suficientes para imunizar toda a população. Por isso, a Gazeta endossava e reforçava o pedido do chefe do posto local ao diretor geral: "Nesse sentido fazemos a s. s. caloroso apêlo, esperando que não seja procrastinado o expediente da remessa para o posto local das doses pedidas pelo ilustre chefe do serviço".  

O fato é que o veículo de comunicação procurava sensibilizar seus leitores acerca da importância da vacinação. Esforçava-se para conscientizar a todos e, assim, evitar uma epidemia em Leopoldina. A autoridade médica local também tinha uma postura pedagógica, fazendo visitas às escolas, fábricas e publicando notas na imprensa. A violenta Revolta da Vacina em 1904 mostrou às autoridades sanitárias que a obrigatoriedade da vacinação e a truculência com a qual os agentes de saúde tratavam o povo deveria ser substituída por medidas de conscientização, as quais passavam pelo aumento do diálogo e do poder do convencimento.  





15.7.18

A fundação do Laboratório Químico Leopoldinense e a campanha do saneamento rural

Laboratório Químico Leopoldinense


Acervo de Luiz Raphael Domingues Rosa/Espaço dos Anjos
Laboratório Químico Leopoldinense  - Fundado em 07 de julho de 1927 pelos irmãos José Monteiro Ribeiro Junqueira e Custódio Junqueira, Graciema Junqueira e o químico Antenor Machado.

O laboratório era uma estrutura importante para a campanha de saneamento rural e a erradicação das epidemias, como a opilação, a varíola entre outras.

A Gazeta de Leopoldina, jornal de propriedade da família Ribeiro Junqueira, publicou uma nota, em 1933, louvando a aprovação de um remédio fabricado no laboratório Leopoldinense pelo Instituto Osvaldo Cruz. Segue o documento:

O medicamento em questão é o óleo de quenopódio, o qual era empregado no combate da ancilostomíase e da malária.

1.5.18

Artigo científico publicado na revista acadêmica Latinidade (UERJ)

Confiram nosso artigo sobre a origem das políticas de saúde e sua relação com a imigração em Leopoldina, na Zona da Mata mineira entre o fim do século XIX e primeiras décadas do século XX.

Agradeço a Doutora Maria Teresa Toribio Brittes Lemos pelo incentivo e pela oportunidade!

Páginas-189-216.



6.4.18

Palestra proferida no Colégio Imaculada Conceição

Na quarta-feira, dia 28/04/2018, estivemos no Colégio Imaculada Conceição e, com alegria e entusiasmo, compartilhamos com os alunos do 3º ano do Ensino Médio os resultados de nossa pesquisa sobre os impactos do movimento sanitarista em Leopoldina e a formação das primeiras políticas de saúde no município, com ênfase na atuação do médico Irineu Lisbôa (1894-1987).

Agradecemos pelo convite e pela oportunidade de falar para jovens interessados sobre um tema tão relevante para a História e a Memória de nossa cidade.

Link da página oficial do CIC no Facebook:


Para ver mais clique aqui.

24.11.17

Novos rostos, antigas práticas: a política de higienismo nas capitais brasileiras

A gestão do prefeito João Doria (PSDB) em São Paulo está mesmo disposta a interferir na sociedade, afim de alterar alguns costumes que considera impróprios. Depois da polêmica que envolveu a remoção dos grafites das paredes e ruas da cidade sob o pretexto de deixá-la mais bela, o prefeito pretende penalizar quem urinar nas vias públicas ou em espaços privados.


Por meio de uma portaria, a prefeitura estabeleceu multa de R$ 500,00 para o cidadão que for flagrado fazendo xixi em prédios e monumentos públicos. 

Doria tem um perfil semelhante, guardadas as devidas diferenças temporais, ao do antigo prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, que administrou a cidade de 1902 a 1906. A exemplo de Doria, Passos não era um político tradicional, era engenheiro, tinha ampla formação técnica e acadêmica no seu setor e também atuou como empresário. No setor privado, fornecia madeira para construção de grandes obras e casas no Rio de Janeiro. Já a formação intelectual de Doria parece ser bem mais modesta que a de Passos, apesar disso há semelhança no fazer político destes dois personagens da história nacional.  Pereira Passos não disputou eleição, ele fora indicado ao cargo de prefeito pelo presidente da república Rodrigues Alves, pois Passos tinha ampla rede de contatos e havia estudado na Europa, onde acompanhou de perto a remodelação de Paris.

Passos em seu gabinete (1906).

A frente do executivo, Passos tinha como principal objetivo modernizar e embelezar o Rio de Janeiro, visando transformar a cidade na "réplica tropical de Paris". Além de melhorias urbanas, Pereira Passos atacou os hábitos da população baixando várias proibições, como:

"Proibiu cães vadios e vacas leiteiras nas ruas; mandou recolher a asilos os mendigos; proibiu a cultura de hortas e capinzais, a criação de suínos, a venda ambulante de bilhetes de loteria. Mandou também que não se cuspisse nas ruas e dentro dos veículos, que não se urinasse fora dos mictórios, que não se soltassem pipas" (BENCHIMOL apud CARVALHO, 2006, p. 95).

As elites cariocas elogiaram o trabalho de Pereira Passos, que também promoveu o "bota-abaixo", demolindo cortiços, substituindo-os por avenidas e bulevares, expulsando os mais pobres para os morros. Ao final do seu governo, o prefeito era bastante impopular, criticado pelo autoritarismo com o qual ele conduzira as reformas urbanas na então capital da república.

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