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25.12.19

Sebastião Águido Lacerda (1927-2019)

Leia a matéria completa no portal do Leopoldinense.


O crepúsculo do dia 23 de dezembro de 2019 foi mais triste em Leopoldina com a perda de um de seus ilustres cidadãos - o senhor Sebastião Águido Lacerda.

Natural de Vista Alegre, distrito de Cataguases, foi criado na roça junto com vinte e cinco irmãos. Trabalhava com seu pai na lavoura, cultivando milho e feijão para a subsistência da família. Porém, Sebastião tinha outros sonhos e, ainda jovem, tomou o trem em direção a Leopoldina, onde permanecerá até o fim de sua admirável vida.

Chegando a Leopoldina, trabalhou em estabelecimentos comerciais até ser aprovado em concorrido concurso para uma vaga no Banco Ribeiro Junqueira. Era um exímio datilógrafo e fazia cálculos de juros e porcentagem mentalmente com precisão, sem auxílio de máquinas de calcular.

Após a experiência no Banco Ribeiro Junqueira, decidiu abrir seu próprio negócio de "Secos e Molhados", junto com o seu irmão, senhor Honório Lacerda. Com aptidão para os negócios e o sucesso comercial, fundaram, bem no coração da cidade, o Lacerdão, um investimento ousado no setor de comércio de gêneros alimentícios. 

O Lacerdão ocupava boa parte de um quarteirão no centro da cidade, tinha loja e sobreloja e gerou centenas de empregos, abastecendo toda a cidade e seus distritos.

Sebastião Lacerda foi um homem com hábitos peculiares, atribuía sua longevidade e saúde a certos ritos, como tomar banho com água fria, alimentar-se bem, fazer refeições leves, dormir sem cobertor, levantar cedo e fazer caminhadas matinais. Gabava-se de jamais ter pegado um resfriado, tinha uma saúde de ferro!

Com o sucesso profissional meteórico, acabou sendo vítima, inúmeras ocasiões, da violência urbana, tornando-se alvo de criminosos. Por diversas vezes, sua casa foi invadida, veículos foram roubados, bens foram levados e chegou até a ficar um tempo sob cárcere privado de bandidos. Nada disso alterou sua personalidade serena, jamais testemunhei um arroubo de sua parte em prol de vingança contra os seus algozes, era um pacifista.

Homem sábio, parafraseava, inconscientemente, os grandes filósofos gregos da Antiguidade ao nos ensinar que o homem que não toma o controle de si mesmo, de suas vontades e de seus desejos, é um homem perdido. Também parafraseava  o grande pensador medieval cristão, Santo Agostinho, quando afirmava que era necessário deixar a mesa com fome, pois comida em excesso faz mal. Em suma, tinha sensibilidade e um pensamento sofisticado graças à sua personalidade ímpar.

Amante de música, patrocinou, por muitos anos, a banda musical da cidade, a qual alegrava a todos nos domingos à tarde. Confidenciou a mim, em prazerosa conversa, que tirava dinheiro do próprio bolso para custear instrumentos musicais, uniformes e lanche para os músicos. Nunca tornou isso público, pois o fazia com amor, sem esperar nenhum tipo de retorno por sua atitude.
Era participação certa nos programas do comunicador Luíz Carlos Montenari, no qual tratavam sobre diversos assuntos.

Casou-se com Luzia Alves Lacerda, com quem teve três filhos.
Dona Luzia faleceu em 2012.

Eis o seu maior legado - a família. Com sua partida, deixou, além dos filhos, netos maravilhosos, sobrinhos, parentes e amigos que o amavam e admiravam.

Ele foi sepultado no dia 24 de dezembro de 2019, no jazigo da família, no cemitério de Leopoldina, onde descansa em paz.    

1.5.18

Diário de Ywesky Borislav: O homem que acreditava na morte de Deus

Como todos já sabem, se é que alguém irá ler meus fragmentos de memória um dia, sou um humilde caixeiro viajante, mas devido à minha formação geral numa escola de monges católicos tinha noções de ciências, filosofia, história e álgebra. Tais habilidades me tornaram um observador arguto de minha realidade e por mais que minha formação me dirigisse para a fé eu buscava o caminho da razão.

Certa vez, depois do trabalho, me deparei com um mendigo deitado na escadaria da Igreja, bem no centro da cidade. Deixei um pedaço de pão ao lado dele e antes de recolher meu braço ele me segurou firme. Pediu para eu esperar e perguntou se não gostaria de ouvir sua história enquanto dividíamos aquele pão. Respondi que não podia esperar, mas ele insistiu que eu ficasse, então assentei ao seu lado e o maltrapilho começou a contar coisas interessantíssimas enquanto comia o pão.

A seguir reproduzirei, da forma mais fidedigna possível, o que me foi relatado por aquele homem. Ele contou que pertencera a uma rica família da cidade, era herdeiro de terras e vinha de uma linhagem de chefes políticos locais. Seu nome era João. Porém, enfrentou graves problemas depois que começou a defender publicamente a ideia de que Deus estava morto e por isso fora perseguido, internado e perdera tudo com os custos dos modernos tratamentos psiquiátricos.
Falou que no lugar onde fora internado o trataram como louco, havia passado por doloroso tratamento, que incluía terapia à base de choques elétricos. Mostrou diversas cicatrizes pelo corpo, resultado de espancamentos que sofria por parte dos seguranças e dos demais internos. Chamou o lugar de cemitério dos vivos, pois quem entrava lá jamais saía novamente ou se saísse era na condição de um morto-vivo.
Ele havia recebido alta depois de pagar muito dinheiro ao médico responsável pelo sanatório. O restante de seus bens havia sido confiscados pelas autoridades municipais por conta de dívidas com fisco, assim, esse cidadão chamado João havia caído em miséria e desgraça.
Quando pensei que a história havia terminado ele acrescentou que me contaria sua teoria sobre a morte de Deus, passou a citar diversas passagens das escrituras sagradas que demonstrariam o óbito divino. Segundo ele, a morte do Criador foi processual, ocorreu em etapas, na medida em que suas principais criações foram lhe decepcionando, a começar pela desobediência de Adão e Eva, depois a barbaridade do evento envolvendo os irmãos Cain e Abel entre outros episódios sangrentos narrados na Bíblia até a crucificação de Cristo.
Por tudo isso, defendia que Deus tinha morrido, gradativamente, e se desintegrou na medida em que suas criaturas falharam com o propósito principal do ser: amar umas outras. Os templos erguidos em nome de Deus, portanto, eram inócuos e serviam apenas ao propósito de legitimar a exploração de uns sobre os outros e fortalecer o papel do clero na sociedade.
Bastou defender essas crenças que foi rotulado de louco, subversivo e acabou sendo internado por longos anos no hospício. Perdeu seus familiares, ficou sem vintém e agora dormia na escadaria sob a sombra da Igreja, sobrevivendo da caridade alheia.
Apesar de todas as intempéries, João confessou que espera ser ouvido com seriedade por alguém e acredita que um editor corajoso há de publicar suas ideias. Sua vida, dizia ele, dependia disso: demonstrar a validade de suas proposições e apresentar alternativas para uma nova organização espiritual da sociedade, sem igrejas, sem ritos, sem hierarquias, sem comércio religioso, sem dogmas e fanatismos que cegavam os indivíduos.
O espiritualismo pregado por João seria baseado em dois princípios: a fraternidade e o amor universal sem fronteiras de nações e de classes, eis aí o binômio divino que deveria ser cultuado pela humanidade.

Depois de ouvi-lo achei suas ideias bastante interessantes, embora perigosas, de fato, principalmente numa sociedade conservadora, cujas engrenagens políticas e religiosas funcionavam para preservar as desigualdades e não promover mudanças radicais nas estruturas de poder.
Me despedi, mas antes de seguir para a hospedaria deixei com ele algumas frutas e uns trocados, depois segui meu caminho. 

Y. B. (1940) 

19.2.18

Notas do Diário de Ywesky Borislav: Sobre a guerra de egos no funcionalismo publico

Certa vez fui a uma repartição publica aqui do interior para comercializar produtos da roça, eu levava linguiça, queijo, mel, manteiga, doces e ovos. Na ocasião presenciei um bate boca num dos corredores do predio, entre duas funcionarias. Uma era servidora de carreira e a outra também, mas ocupava um posto de chefia pelo que percebi.

A chefe se dirigia grosseiramente à sua subalterna, alegando que se não fosse pela proteção do Estado ela já estaria na rua, pois é péssima servidora, sempre chega atrasada, não faz nada direito, não é produtiva, enfim, era um peso morto para o funcionalismo. O Estado lhe pagava para ficar em sua saleta jogando conversa fora com outra servidora ao longo de sua jornada diária. A chefe ainda deu uma lição, enquanto a sua subordinada ouvia tudo espantosamente calma e em silêncio. Disse que jamais falta ao serviço, que é uma referência, serve como um espelho para os demais servidores seguirem e que, portanto, estava mais do que certa em exigir dos seus comandados que agissem com ela.

Nesse momento a servidora de carreira pediu a palavra e disse que iria agir com a diretora, sua chefe. Falou que chegaria atrasada quando quisesse, tiraria dia de folga por conta própria sem trazer atestado, viajaria para acompanhar o cônjuge sem apresentar atestado, se tornaria negligente com os seus afazeres, assim como ela se escondia atrás das pilhas de papel quando surgiam problemas reais, os quais demandavam ações de uma administradora de verdade. 
A chefe arregalou os olhos, ficou pálida e estarrecida com o que ouvira, balbuciou alguma coisa, mas sua língua travara, ela foi incapaz de qualquer tréplica.

Antes da administradora se reconstituir do golpe, a servidora emendou que ela não tinha moral para exigir nada, seu exemplo servia apenas para mostrar o que não deveria ser feito por um funcionario publico. Era uma pessoa que perseguia alguns e afagava outros, fechava os olhos para os seus erros e dos seus acólitos. Só estava naquele posto, pois vendera a alma para a burocracia estatal e não suportava mais estar no front, fazendo o que os demais servidores fazem - atender ao publico.

Saí logo do local, não vendi nada, fiquei chocado com o que vi e me perguntei quantos protocolos ficaram parados enquanto aquelas duas travavam sua guerra particular. Não sei bem quem estava certa ou errada, mas acho que a forma de lidar com os eventuais problemas seria conversando civilizadamente, sem troca de farpas e sem falso moralismo, pois a região já anda cheia de caquexia e está abarrotada de charlatanismo de todas formas possíveis - político, civil e religioso.

A maquina publica, infelizmente, tem funcionarios horriveis, os quaes tiram proveito da estabilidade e do apadrinhamento politico para se acocorarem no serviço, sem dar resultado algum, são contraproducentes. Urge uma reforma administrativa,  que extirpe o joio e valorize o trigo.
  
Enfim, deixei o lugar e fui ganhar o pão de cada dia, pois ao contrário daquela gente, eu era caixeiro-viajante e não poderia me esconder do mundo atrás de pilhas de papel, tampouco me beneficiava da benevolência eleitoreira ou estatal.

Y. B. (1951).

9.1.18

Notas: Destinos conectados e opostos

Basta caminhar em direção à periferia da cidade, afastando-se pouco da área central, para observar o quanto a pólis anda mal, abandonada à própria sorte, vendo o mato, a cipoama e o entulho ocupar calçadas e terrenos baldios.

O cenário se torna ainda mais dantesco com a observação de obras, nos referimos aos predios publicos, por fazer, inacabadas, com materiais expostos ao tempo, estragando... E o peor é ver obras públicas prontas que foram subutilizadas e agora são ocupadas por nada, relegadas às intempéries do clima e servindo de abrigo às moscas, às baratas e aos ratos, em suma, são criadouros de doenças. Basta mudar o líder do executivo para serem descerradas novas flâmulas de placas inaugurais, cuja serventia é perpetuar a memória daqueles que estão no poder, despreza-se o melhor interesse colectivo das construções municipais.

Uma observação mais arguta permite a quem enxerga ver pontes, muros de contenção, estradas e outros trabalhos importantes para a segurança dos cidadãos sob ameaça de desmoronamento. Isso acontece por dois motivos, basicamente: Mal planejamento e execução ou o uso de material de qualidade duvidosa. No caso das cidades em que visito, frequentemente, no interior do Rio e de Minas, julgo que as duas causas são válidas.

O mais terrível é notar que, enquanto a cidade definha, exceptuando o centro - belo e limpo, a casa do chefe do executivo não pára de aumentar, já virou um sobrado desde ele assumiu sua função no gabinete. Já se vão vários mandatos e lá ele permanece, como uma erva daninha presa a sugar a vida d'uma árvore, deixando-a seca, podre e vazia. O homem fincou suas presas na prefeitura e tira dinheiro de lá, depois que violentou os cofres públicos e encontrou veias abertas, de onde jorra dinheiro para o aumento da fortuna privada com auspiciosos e inexplicáveis (?) ganhos.

Nada ocorre com o político imoral, ele ousa tudo, é intocável desvia rios caudalosos de verbas e recursos e a justiça nada faz, prefere punir os ladrões de galinhas. E o povo? Ah, o povo, subjugado, deixa-se espoliar. Afinal, o que a árvore faz quando é apanhada por uma erva-daninha?

Y. B. (1942).

6.1.18

Notas: Sobre a Segurança Publica

As forças policiais andam, de facto, por demais ocupadas aqui no interior. Há muito o que se fazer no trabalho. Vejamos a que têm se dedicado os nossos valentes agentes de segurança e representantes da justiça, eles andam a aplicar multas de trânsito, fiscalizar a postura dos cidadãos, tocar bebuns e andarilhos das praças, inibir qualquer tentativa de rebelião ou algo que macule a ordem pública e, quando sobra tempo, cortejar alguma donzela!

Apesar da eficciencia e da grande responsabilidade das polícias locaes com os seus afazeres cotidianos, os cidadãos pensantes estão sempre a se perguntar: 

_Por que a polícia não reprime o tráfico de entorpecentes com a mesma valentia que emprega no trato dispensado aos ladrões de galinhas, espanca operários grevistas e vagabundos que perambulam pela urbe? Por acaso os policiais não dispõem de recursos técnicos, mentais e éticos para enfrentar os poderosos que fazem vida fácil inebriando aqueles que se deixam enganar pela fuga da realidade oferecida por destilados e ervas proibidas?

_Por que a polícia faz vista grossa para os promotores de jogos de azar, que fazem seus acólitos transitar tranquilamente pelas ruas, colhendo apostas aqui e acolá, tirando dinheiro de gente humilde que acaba em depressão e alcoolismo por conta da tristeza e da má sorte?  

_Por que as forças policiais não investigam, junto com outras autoridades competentes, os sonegadores de impostos, os falsificadores de mercadorias, os charlatães, os neoescravocratas que subempregam mulheres, homens e crianças em condições de trabalho desumanas? Acaso essas ocorrências estão sendo praticadas sob a proteção da noite? 
_Não, elas ocorrem debaixo do nariz das autoridades. Cuja negligência ou cegueira alimenta a ousadia dos contraventores, os quais debocham das leis e fazem fortunas na clandestinidade.

Com tal comportamento das autoridades policiais, com o beneplácito de uma justiça tão injusta, parece que há receio dos agentes de segurança em mexer com os estratos mais elevados da sociedade, mesmo que alguns indivíduos desse grupo tenham chegado lá por meios ilícitos. A polícia teme os mais fortes, os ricos e os poderosos ou apenas age covardemente contra os despossuídos, os humildes e aqueles que denunciam a desigualdade? O modelo adotado pela polícia no Brasil é, em resumo, o seguinte: manter as ovelhas sob controle e permitir aos lobos o gozo de liberdade e impunidade por seus actos.

Há que se rever tais atitudes e comportamentos das autoridades, pois se queremos construir um futuro com algum equilíbrio social, com segurança e vida tranquila para todos não podemos suportar uma justiça que apenas oprime os fracos e acaricia os poderosos. Esse modelo não se sustentará sem provocar tremores e revolta popular.

Além disso, não se faz um país decente onde as leis não sejam cumpridas; Não teremos uma nação com equidade social, onde os pobres são taxados, enquanto os ricos e poderosos sonegam o fisco, desfalcando a fazenda pública; Não há discurso ético e moral que se sustente, tampouco um exemplo positivo para a sociedade, se as forças policiais do Estado se deixam corromper ou optam pela inação frente ao cumprimento de suas tarefas e obrigações.

Y. B. (1940). 

15.12.17

Notas: das águas e das condições sanitárias locaes

O mal de nossa década são as doenças parasitárias (parasitas biológicos e o pior de todas as espécies, o parasitus publicae) e infectocontagiosas, como ancilostomíase, o cólera, a peste, a febre amarela, a malária, a varíola etc.
Epidemias, de tempos em tempos, ceifam vidas, sobretudo nas cidades, onde os aglomerados urbanos padecem de condições adequadas para uma vida com salubridade.

É justamente nestas aglomerações de pardieiros desordenados, via de regra onde vivem os mais humildes e desprovidos de riqueza, que surgem as pestilências, pois a falta de hábitos de higiene, canalização dos esgotos e ausência de água potável provocam surtos de doenças, as quais rapidamente contaminam as populações.

Enquanto nossas autoridades, as quais julgo serem o pior dos males de nosso paiz, não resolverem promover uma revolução sanitária, canalizando as águas, zelando por sua pureza e potabilidade, assegurando a limpeza urbana e adequando o despejo dos esgotos o flagelo da morte permanecerá nos rondando, em busca de mais vidas para ceifar.

Canalhas vestidos de paletós, não sabem que as crianças são as principais vítimas da negligência sanitária que impacta diretamente no estado da saúde pública? Que alternativa tem o infante senão ingerir água de fontes contaminadas, cuja qualidade não basta nem para o trato das criações de animaes? O virgula morbus é letal no organismo infantil e o vibrião corre à plena liberdade nas fontes locaes, nos rios e nos riachos, os quais se encontram maculados pelo descaso e ineficiência dos administradores publicos. Não há obra alguma nos cursos d'água que ofereça qualquer resistência ou dificuldade à proliferação de micro-organismos que inviabilizam a vida humana. Assim, estamos fadados a ficar constantemente vulneráveis às epidemias, que enfileiram cadáveres, deixando filhos sem pais, viúvas e órfãos a mercê da caridade, da filantropia, da depressão e da degenerescência, como alcoolismo e outros descaminhos gerados pela tristeza profunda.  

A título de sugestão, o poder público deveria aproveitar melhor as águas pluviais ou canalizar adequadamente a água - desde a fonte até o chafariz ou os tanques de reserva. Algo tão simples, porém tão difícil para a mente provinciana do parasitus publicae. Esse tipo de ser parece não saber que a água é o fluído vital por excellencia e que a falta dela faz o martyrio dos povos.

Será que nossos governantes não compreendem que o saneamento é medida primeira e urgente para o desenvolvimento de qualquer civilização? Tomai Roma Antiga, como exemplo, onde a industriosidade erigiu pontes, aquedutos, termas e balneários que permitiram a edificação de um Império.

Sigamos os passos dos grandes, deixemos a política provinciana para trás, tentemos superar nossas limitações e interesses privados para agir pelo grêmio social, livrando-o  da calamidade e do terror das doenças evitáveis!   

Y. B. (1939)

14.12.17

Diário de Ywesky Borislav: Da cultura, ciências, letras e artes

Página VI - Vida sem arte compensa?

Em minhas andanças pelo interior, pouco ou quase nada vi de investimentos e inovação no campo das ciências, letras e artes. Como já dito, as escolas públicas regionais são precárias e em se falando de ciências mal contavam com alguns tubos de ensaios amontoados numa sala apertada, a qual chamavam de laboratório. Faltavam especialistas, químicos, biólogos e físicos para promover trabalhos de pesquisa e de experimentação científicas em escolas ou em instituições acadêmicas.



Os investimentos públicos e privados no setor científico eram inexistentes, pois entre as autoridades governamentais e homens de negócios não havia a consciência de que a ciência era um caminho para se alcançar o desenvolvimento, a médio ou longo prazo. Portanto, não era prioridade dos esforços das elites daquelas sociedades. Que pena! Pobres almas ignorantes, preferem se agarrar a mitos e alegorias religiosas, as quais conservam a humanidade no obscurantismo da ignorância a depreender um grande esforço libertador em nome da racionalidade, a única faculdade capaz de catapultar a humanidade para o cume. Como efeito da defasagem nas ciências, a agricultura definha, as terras ficam empobrecidas, a produtividade decaí, a indústria se torna incipiente e acaba por estagnar o nosso crescimento econômico e a produção das riquezas.  



Infelizmente, as artes e as letras são tão mal tratadas quanto a ciência. Mesmo não sendo natural desta terra, aprendi a amá-la, me sinto brasileiro e reconheço o valor da língua mater. "Não pisoteiem a última flor do lácio", bradava um linguista tupiniquim que se posicionava contra as reformas ortográficas que dilapidavam o idioma. Advogava que tais reformas colocavam amarras na língua na vã tentativa de uniformizar o que, por força da natureza, da geografia e das condições históricas e culturais é singular, quesito no qual reside a beleza do idioma.

Aquarelas, afrescos, murais, esculturas, conjuntos arquitetônicos, bibliotecas,  museus, enciclopédias, biografias, revistas, jornais, obras de valor acadêmico, científico ou de caráter cultural? Nenhuma! Não havia  entre nós, lamentavelmente, mecenas para fomentarem as artes e as letras locais, como houve os Médici e os Sforza na Itália, os quais patrocinaram os gênios da renascença naquele país. Logo, não tínhamos e nem teremos por aqui um da Vinci nem um Boccaccio, pois estamos tão atrofiados culturalmente que os prejuízos poderão ser contabilizados por séculos, resultando numa população insossa, sem criatividade, sem o mínimo de sofisticação cultural e refém de seus próprios preconceitos. Nem o poder público, nem o setor privado investiam nos talentos locais, não publicavam livros e nem incentivam os artistas. Se tínhamos grandes vultos nos maiores centros urbanos, como um Machado de Assis ou um Euclides da Cunha, no interior vivíamos num deserto literário e artístico.  As brochuras eram tão raras e escassas quanto pepitas de ouro, desta feita sua posse era prerrogativa de uma minoria letrada e podia se contar nos dedos aqueles que eram alfabetizados. 

Se a literatura é o sorriso de uma sociedade, o sorriso do interior do Rio e de Minas é amarelo, quase apagado, sem brilho e lhe faltam muitos dentes, pois que não há incentivo algum para a arte da escrita. Ser escritor ou artista por aqui é ser condenado a passar fome.

Afinal, qual o valor pragmático das letras e das artes? Por que os nossos homens nobres, letrados e poderosos não as valorizam? É certo que alguns deles possuem bibliotecas e coleções particulares, entretanto, por que não estendem o direito à arte para toda a sociedade? Primeiro porque arte é privilégio e símbolo de distinção e de poder, segundo porque a arte em si é libertadora, por isso, manter o povo alijado das manifestações culturais faz parte de um processo de dominação econômica, cujo tecido se inicia pela dominação cultural. Por que as elites e nossos dirigentes não abandonam sua mesquinharia e não veem as letras e as artes como um meio de inclusão, e de promoção do desenvolvimento humano, o que antecede, obrigatoriamente, o progresso econômico? Todos ganhariam, o povo se manifestaria, representando seus valores, seu folclore, sua história, enfim, sua identidade e com isso teríamos uma nação mais feliz. Ademais, há um valor intangível, inominável e que não pode ser mensurado em contos de réis, pois arte é vida e, sem arte, talvez, a vida não vale a pena ser vivida.   

Y. B.

15.10.17

Diário de Ywesky Borislav: Das estradas locais

Página V: Das estradas locais

Vivo entre Minas e Rio, faço pouso aqui e acolá e tiro meu sustento fazendo pequenos serviços, reparos, obras e, sobretudo, do comércio de mercadorias, como milho, batata doce, fumo, mandioca e aves, que levo de um lugar para o outro no lombo de uma mula.

E como essa vida de caixeiro viajante é sofrida, principalmente porque padecemos da falta de estradas, em ambos os estados. Aqui no interior, os caminhos são terríveis e não é raro cruzar com carros de boi com rodas empenadas, acidentes e caminhões com pneus furados. 

Um presidente da república, Dr. Washington Luís, disse que "governar era abrir estradas". Em seu governo construiu algumas, mas privilegiou o litoral e seu lema não inspirou os dirigentes e chefes políticos dessa região, para minha infelicidade. Pois aqui, lamentavelmente, estrada esburacada é a regra.

Cá estou eu refletindo com meus botões. 
_ Por que diacho não se fazem estradas decentes por aqui?

A resposta me pareceu bastante óbvia, especialmente, quando se observa as propostas dos candidatos aos cargos públicos. Em todas elas constavam a promessa: "se eleito for vou construir e consertar nossas estradas".
Aí pensei, todos aqueles homens nobres e capazes disputando cadeiras na Câmara e uma promessa em comum e relativamente fácil de ser cumprida: cuidar das vias locais.

Porém, após a eleição o que se verifica é uma operaçãozinha tapa-buracos, cujo prazo de validade vai até a primeira chuva... Depois disso, só se fala em estradas novamente no próximo pleito eleitoral. Enfim, o tema da manutenção das estradas atraí votos, a proposta mais criativa e mais elaborada vence e quem perde é o povo, pois ninguém resolve o problema. A desgraça de alguns, isto é, daqueles que necessitam das estradas para viver, faz a alegria de outros, os quais tiram proveito das necessidades alheias para capitalizar votos nas eleições com ideais falsos e mesquinhos.

Um pensador afirmou que no Brasil não há, entre nossos dirigentes, a "mentalidade estradeira", eles não compreendem que são pelas vias de trânsito que trafegam a riqueza, a cultura, a educação, a saúde, o conhecimento. Ora, as estradas movem (ou engessam) um país, mas me parece que por aqui, nossos nobilíssimos doutores preferem nos deixar inertes, sem movimento e sem desenvolvimento.
Que pena! 

13.10.17

Diário de Ywesky Borislav - Parte IV: Assim se faz política por aqui

Página IV

Legislatores

Em 1941, resolvi assistir à uma reunião na câmara dos vereadores do município do interior do Rio, na pacata e refrescante região Serrana. Na ocasião, os nobres edis debatiam como deveria se chamar uma ponte recém-construída e que precisava de um nome para a solenidade de inauguração.

A ponte era importante, ligava a cidade ao estado de Minas Gerais e seria uma via essencial para o escoamento de mercadorias e trocas comerciais entre as duas unidades da federação. 

O debate perdurou por horas, um grupo de vereadores defendia que a ponte recebesse o nome do falecido pai do atual chefe do executivo, o qual, no passado, também havia exercido o cargo. Do outro lado, advogava-se em prol do avô do candidato preterido pelo governo estadual quando ocorrera a nomeação para o cargo de prefeito.

Já era tarde da noite quando houve um acordo pela aprovação unânime em favor do finado e genitor do atual prefeito. Um dos argumentos que o grupo da posição utilizou foi o fato de que o outro nome sugerido pelos vereadores ainda vivia, por isso não seria homenageado agora. Mais tarde, soube por um dos cidadãos que assistia àquela cena que o prefeito enviara um recado ao presidente da casa e pressionara os legisladores a darem à ponte o nome de seu pai, senão ele dificultaria certos serviços indicados pelos vereadores, como limpeza das ruas, poda das árvores, manutenção da iluminação à gás em certos bairros, cessão de homens e ferramentas para reparos nas cercanias etc. Pronto, bastou o tom mais firme que os vereadores aprovaram o indicativo rapidamente, mesmo depois de exaustivo, controverso, duradouro e inócuo debate.

Legislar, ninguém legisla, tampouco se preocupam com os problemas fundamentais da população. Todos estavam centrados apenas na questão do nome da ponte e na perpetuação da memória daquelas poucas famílias ligadas ao poder. Ninguém ali se preocupou com o aumento da sujeira e da imundície no leito do rio devido à ocupação desordenada de suas margens, por centenas de famílias que não tinham onde viver. Como não havia água encanada, esgotamento e nem coleta de lixo para essa gente, toda sorte de lixo eram despejada no rio, o que causava redução do número de peixes, assoreamento, escassez da água e surto de doenças. O que aquela gente poderia fazer se não havia nenhuma política municipal ou estadual de moradia para atender aos pobres. 

Um vereador até suscitou uma questão relevante sobre a necessidade de despoluir o rio, recolher o lixo que flutuava por aquelas águas a fim de melhorar o mau cheiro que ele exalava, mas foi logo interrompido por um de seus pares o qual alegou que da limpeza do local cuidariam os diligentes urubus. Portanto, não haveria necessidade alguma de gastar os recursos do erário com uma atividade dispendiosa e que não traria benefício algum.

Fiquei estarrecido com o consentimento dos demais vereadores com esse último aparte que pôs fim à questão da higiene nas imediações do rio. Me perguntei se aqueles vereadores tinham real conhecimento das condições de vida daquelas famílias ribeirinhas, se eles sabiam que o virgula morbus enfileirava cadáveres, sobretudo de crianças, que habitavam aquele lugar decrépito e se tinham noção de que a falta de higiene e de saneamento estava a ceifar vidas preciosas... 

Enfim, acabei me indignando e resolvi me retirar do recinto antes do término da sessão. Conclui que política local é uma grande baboseira, pois as pessoas ocupam os cargos públicos visando exclusivamente o benefício próprio, sem se preocupar com a coletividade e com algo tão importante que é a assistência aos desvalidos e desafortunados, cuja saúde e o bem-estar, lamentavelmente, não são objeto de preocupação dos homens que estão no poder. 

5.10.17

Diário de Ywesky Borislav - III

Parte III - Política e Poder

Desde tempos imemoriais que os grupos humanos se organizaram em sociedades, mais ou menos civilizadas, e, através de um pacto social, deram origem ao Estado cuja função essencial é governar os homens, coibindo os excessos, a violência e assegurando-lhes a liberdade e a propriedade.

A partir de então, homens e grupos organizados, como os partidos políticos, por exemplo, têm buscado incessantemente chegar ao poder e por vários motivos: Alguns almejam fortalecer a missão natural do Estado, criando leis que fixam direitos e deveres para todos os cidadãos; Outros, porém, por motivos menos nobres, desejam exercer os cargos de comando por mera vaidade, por despotismo ou para servir aos interesses do grande capital e do corporativismo, mesmo que isso custe sacrificar o próprio povo com a retirada de direitos elementares, como a liberdade de expressão, os direitos políticos e civis. 

A meu ver a primeira motivação seria a ideal para o país, pois ela visa o bem-estar coletivo e garantias fundamentais para a cidadania, o que asseguraria alguma coesão e estabilidade social. A última razão que move os homens aos cargos eletivos, no entanto, é perversa, cruel e tirânica, pois a coisa pública é colocada à serviço de interesses privados e escusos.   

Na capital da república ou aqui no interior, o jogo político é bem semelhante e, embora o volume e a intensidade sejam diferentes entre as regiões, o fazer político no Brasil, de modo geral, é algo vil e torpe. Aqui o poder é exercido não para promover o bem comum, mas para fortalecer pequenos grupos que se apossaram do Estado nacional. O projeto de nação desses que assaltaram o poder é dividir, fragmentar e acalçar a população com o aumento dos impostos, congelamento de salários, manutenção do trabalho servil e degradante, sem oferecer à classe pobre e produtora de riquezas quaisquer condições básicas para uma existência digna. Conclui que é devido à manutenção do projeto de segregação que a classe dirigente nunca investiu em educação neste país, transformando o povo numa massa amorfa, ignorante que se deixa manipular docilmente.

Ouvi, certa vez, de um antigo operário que morou na capital em 1919, um relato de seu encontro com Rui Barbosa em plena campanha presidencial. O operário assistiu à famosa  conferência no Teatro Lírico. Os trabalhadores que foram ouvir o "Águia de Haia" estavam entusiasmados, pois o candidato prometera tratar a questão social no Brasil com o devido cuidado, proibindo o trabalho de crianças nas fábricas, reduzindo as horas da jornada diária e construindo habitações decentes para os trabalhadores. O velho me disse disse que as pessoas gritavam: 

_ Agora questão social não será mais caso de polícia no Brasil. Um viva para Rui, nosso presidente!

Infelizmente, Rui Barbosa perdeu a eleição e o seu eleitorado as esperanças de um futuro diferente. Entretanto, o célebre jurista brasileiro falou naquela oportunidade, dentre tantas coisas importantes, algo que marcou o senhor com quem conversava. Segundo ele, Rui disse que havia duas maneiras de por fim num mau governo: uma seria pelo voto e a outra maneira pela revolução. No Brasil, pelo voto, sempre vence o mau governo. Logo, pensei: 

_ Será que algum dia esse povo será capaz de sublevar-se contra os seus opressores, como fizeram os russos?! 

Enfim, prosseguindo, acho que foi o autor de Dom Quixote que afirmou: "Ah, memória, inimiga mortal do meu repouso!" Estou cá deitado numa rede, numa velha hospedaria, à luz fraca de uma vela e não posso dormir sem antes registrar uma lembrança que me ocorrera agora das aulas de filosofia no mosteiro.

Certa vez o professor, um clérigo que lecionava na escola religiosa, falava que a fome era um mal que corrompia o país e lembrou o exemplo de Jesus Cristo que a combatia, multiplicava o pão e os peixes e os repartia para os pobres. Então, um dos colegas de turma, questionou:

_ Professor, pela atitude de Cristo podemos afirmar que ele era socialista?

O professor franziu o semblante e seus olhos ficaram nublados de ira antes de repreender severamente o aluno:

_ Que heresia! Não ouse comparar as ações de Cristo com um aventureiro qualquer do século XIX, o qual era um lunático, obcecado por ideias sem fundamento, tampouco aplicáveis à realidade. Pela sua estupidez receberá doze palmadas, concluiu o mestre.

A sala emudeceu, o silêncio só era rompido quando a palmatória atingia o alvo, provocando ranger de dentes no colega de classe, que pagou caro por tentar comparar o cristianismo com uma doutrina revolucionária e anti-clerical, como o marxismo.   


Borislav (1918-1990).

30.9.17

Diário de Ywesky Borislav

Página II 

Escolas que não funcionam, de quem é a culpa?

Certa vez, enquanto parei numa venda de secos e molhados, pedi um refresco e um pouco de toicinho e fiquei a ouvir a conversa de um lente local com o dono do estabelecimento. Não que quisesse ouvir, mas o tom elevado de suas lamúrias faziam-nas serem escutadas por quem estivesse por perto. Ademais, o assunto era tão sério que resolvi registrá-lo em minha brochura.
O mestre reclamava da falta de recursos do educandário, da demora em obter da administração materiais simples para o seu trabalho, desde o giz para quadro negro à folhas de papel almaço para os discentes realizarem trabalhos e pesquisas.
Ele contou que ao solicitar de seu superiores as folhas, fizeram-no mil perguntas e falaram que enviariam a requisição para a superintendência de apoio. Parecia bom, pois o professor receberia o que pedira. Contudo, depois de passar pelo crivo daquele órgão a ordem com a solicitação havia sido encaminhada à subsecretaria de controle orçamentário, para liberação ou não de recursos, depois de examinada, retornaria para o Apoio, que destinaria a permissão à escola para adquirir o produto. Resultado: um semestre perdido com a tramitação da papelada de um lado para o outro.
_Pra quê tanta repartição pública? Indagou o dono da loja.
_Ora, respondeu o educador, para servir de cabide de emprego! O governo eleito tem que encaixar seus asseclas nos órgãos públicos como retribuição e para assegurar votos nas futuras eleições. Explicou o mestre, deixando o lojista com a pulga atrás da orelha.

E não parou por aí, o professor reclamava do salário, falava que mal dava para sustentar sua esposa e suas quatro filhas. Dizia que as mulheres eram caras demais e a sua remuneração uma ofensa à quem estudara tanto e se dedicava à cuidar da formação de vidas humanas, de homens e de mulheres. 

Quando parecia que as lamentações iriam cessar, o docente enrolou um pouco de fumo de rolo num pedaço de palha, acendeu o pitinho e continuou a resmungar:

_E o que dizer do serviço interno? Ninguém na escola respeita ninguém. A maioria dos pais e seus filhos, os alunos, se  preocupam apenas em estar pela escola e não em viver a escola. Perde-se mais tempo preenchendo formulários e ouvindo bobagens em reuniões infrutíferas do que com o ato de ensinar. Nem vou lhe contar da carga horária sobre-humana que exigem de nós, tampouco falarei da  infra-estrutura ou da ausência dela...  
_Mas e os diretores e os supervisores e os coordenadores e os fiscais e o pessoal do apoio e etc e etc? Foi a pergunta do comerciante.
_São apenas nomes bonitos para cargos pouco úteis...  Acho que farei como um de meus companheiros docentes, vou comprar uma granja, importar galinhas Wyandotte e começar o meu próprio negócio, quem sabe não faturo mais do que tentando ensinar para as paredes?! Emendou o professor.
Depois disso ele pediu uma dose de aguardente e foi-se, antes disse que iria ao boticário, pois o mesmo lhe receitaria um tônico para curar as fortes dores de cabeça que o mestre sentia quando deixava o trabalho.

Eu conclui que a escola adoeceu aquele pobre homem e, que ele sozinho, não daria conta de se opor a uma engrenagem tão pesada quanto a burocracia da política educacional. Ou você nada a favor da corrente ou morre afogado. O drama que acabara de ouvir também me fizera recordar de um estudo bíblico realizado no mosteiro, a luta de Davi contra Golias. Se nas escrituras Davi derrotou o gigante, na vida real as chances disso ocorrer eram bem menores.       

28.9.17

Memórias de Ywesky: parte I

Meu nome é Ywesky Borislav (? - 1990), não sei minha data de nascimento, pois fui enviado ao Brasil às pressas, ainda era bebê e não tinha completado nem o meu primeiro ano de idade, enquanto a Europa ardia com as chamas da Grande Guerra, que terminou em 1918. Nada sei a respeito de meus pais. Eles me deixaram apenas um cordão com meu nome gravado numa esfera de cobre. Ao desembarcar no porto do Rio de Janeiro, fui acolhido por monges que me levaram para o mosteiro de São Bento, onde fui alfabetizado, aprendi o credo, a ler, escrever e contar, estudei latim e noções de ciências. Junto com os demais internos, lavrávamos a terra e cuidávamos dos animais. Também descobri com meus mestres que meu originário de países eslavos, Bulgária possivelmente. Como estava bem ambientando neste país tropical, jamais tive interesse de retornar à Europa e buscar por minha família e, pelo visto, se meus parentes estão vivos nunca deram notícias de sua existência ou preocupação a meu respeito.

Quando completei dezoito anos, por volta de 1936, resolvi deixar o mosteiro e saí a vagar pelo interior do Rio de Janeiro. Fui para a região Serrana buscar emprego e vida tranquila, sem a agitação doentia da capital e também para afastar-me do calor escaldante. Desejava respirar novos ares, e fui buscar o frescor nos morros e serras do interior.  Também conheci o interior de Minas Gerais, uma área de fronteira entre os dois estados brasileiros que visitei.
Não constituí família e não permanecia muito tempo no mesmo lugar. Eu não tenho parentes, mas não queria deixar este mundo sem algum registro de minha estada por aqui, então resolvi escrever um diário com minhas observações sobre esta terra exótica e sua gente mestiça, alegre e tão singular. Eis minhas anotações sobre as andanças que fiz entre Rio e Minas no Século XX, registradas num velho caderno de folhas amareladas, onde ora escrevia com tinta e pena ora com lápis preto. Apesar de meu diário ser grafado por um escritor sem nenhum talento, torço, após minha partida, para que ele chegue às mãos de um leitor e produza nele algum efeito, desprezo, irritação, paixão, compreensão ou talvez mudança.

Parte I - Uma nação sem educação

As escolas brasileiras (isto é, as do interior de Minas e do Rio, que foram os locais pelos quais passei e onde vivi a maior parte de minha vida) são bem problemáticas, embora o país tenha grande educadores e mestres que pensam a nação a partir de projetos educacionais, dentre eles Anísio Teixeira (1900-1971), Paulo Freire (1921-1997) e Darcy Ribeiro (1922-1997). Em comum, além do fato de serem educadores, esses três pensadores queriam promover uma transformação da realidade do país através da educação das crianças e dos adultos. Paulo Freire, por exemplo, desenvolveu um método específico para alfabetizar homens  e ensiná-los a fazer a leitura do mundo, pois esta precede a leitura da palavra.
Coitado, Paulo Freire foi acusado de subversão pelo regime militar e teve que deixar o país para não ser preso, só porque defendia uma pedagogia da libertação, que pusesse fim nas amarras da ignorância.
O pior de tudo era ver o silêncio da população que não lutava e que aceitava a tirania pacificamente. Deve ser por isso que um pensador brasileiro disse que seu povo se assemelhava a ovelhas que se deixavam tosquiar pelos poderosos.
Teixeira e Freire defendiam a escola integral, visando formar o indivíduo em sua totalidade, com a mescla de teoria e prática por meio de oficinas. O empreendimento também não deu certo. Parece que os políticos brasileiros sempre arranjavam uma forma de não implementar as grandes teorias tal como se deveria, sempre alegavam falta de dinheiro para justificar o pouco cuidado que o governo dispensava ao povo. Agora some o descaso político com o desinteresse do povo e dos professores, o produto disso é uma nação em frangalhos, que estava por ser construída, mas com qual perspectiva? Qual era a real face deste país e de sua gente?
Eu me perguntava como um país pode esperar ser uma nação se o Estado não assegura direitos mínimos para o seu maior patrimônio, que é sua gente, e não lhes permite uma escola com algum padrão de qualidade?

Até esse momento, em minha primeira juventude, não obtive uma resposta satisfatória para essas questões e não encontrava o porquê de os governantes obliterarem as melhores mentes do país para implementar planos educacionais conservadores, mecanicistas, que não promovem nem a inclusão e nem a cidadania, senão um culto cego à pátria. Mas o que o futuro reservaria ao povo desta nação? Eu ainda não tinha solução para essas indagações que tomavam a minha mente enquanto eu viajava e observava a realidade ao meu redor.

Observação: Essa é a primeira página do meu diário, escrita nos anos 1930, mas eu a atualizei, passei-a a limpo, por volta de 1980.

29.12.15

Sanitarismo em Leopoldina (1895-1930)

Nas primeiras décadas do século XX, houve no Brasil uma grande preocupação entre as elites dirigentes do país e, sobretudo entre os médicos, com as questões sanitárias e a saúde pública.

No campo e nas cidades, a falta de saneamento básico era um problema gritante, o que provocava a proliferação das doenças. Assim, inúmeras moléstias grassavam entre a população, principalmente a febre amarela, a malária, a doença de Chagas, a varíola, a tuberculose, a influenza etc.

As elites e as autoridades públicas creditavam a falta de desenvolvimento e o atraso nacional ao estado mórbido em que se encontrava grande parte da população brasileira, por isso  o médico-sanitarista Miguel Pereira afirmou, em 1916, sem exagero, que o  país era "um imenso hospital".


O personagem Jeca Tatu de Monteiro Lobato simbolizava o sertanejo abandonado, doente e improdutivo.

É durante esse momento histórico que a classe médica, principalmente os sanitaristas, obtém destaque, pois cabia a eles a regeneração do povo e quiçá o progresso da nação. A partir daí que os médicos começaram a ocupar cargos públicos e a orientar as ações estatais para sanear os problemas do Brasil.

Então, a intervenção médica na sociedade ocorria por meio de políticas públicas, tais como a conscientização através da educação sanitária, campanhas de vacinação, reformas urbanas e construção de obras sanitárias no campo, como aterros, fossas e drenagens de pântanos.

Um dos principais nomes do movimento sanitário nacional foi o médico Belisário Pena (1868-1939), natural de Barbacena. Pena ocupou cargos nas esferas públicas estadual e federal. Ele ajudou a fundar a Liga Pró-Saneamento do Brasil, em 1918, cujo objetivo era atuar em prol do saneamento e do higienismo das cidades e áreas rurais do país. 

A Liga tinha uma forte atuação pedagógica, através da panfletagem, cursos e conferências, e também política, estimulando os governos a construírem hospitais, casas higiênicas, postos de combate e prevenção a doenças, obras de saneamento básico e a abraçarem a causa do saneamento, que era enxergado como uma "luta patriótica".

Efeitos locais da campanha nacional do sanitarismo

Em Leopoldina, cidade da zona da mata mineira, as deficiências sanitárias não eram muito diferentes do restante do país. No fim do século XIX, o Correio de Leopoldina noticiava a necessidade do poder público higienizar o município:


"As arcas da Camara estão cheias de ouro: o emprestimo de 500:000$, todo coberto já, deve ser applicado quanto antes, intelligentemente, em cannalisação e esgotos.

Transformemos a bella Leopoldina em uma cidade moderna, com todas as condições de vida fácil e garantida.

O saneamento se impõe como uma medida de salvação publica". 


(Correio de Leopoldina. Edição n. 1, 3 de janeiro de 1895. p. 5).

A cidade crescia e os problemas sanitários também aumentavam, seja na zona urbana ou na zona rural. As epidemias eram um empecilho para o crescimento econômico, por isso a publicação sugeria que os recursos financeiros disponíveis no município deveriam ser investidos em obras de canalização e esgoto. Somente com o saneamento Leopoldina seria arrebatada da degeneração e ficaria livre das doenças. 

O expoente do movimento médico-sanitarista em Leopoldina foi o senhor Irineu Lisbôa (1894-1987). O médico foi nomeado, em 1918,  para exercer suas funções  no Posto de Profilaxia Rural, na cidade.


Posto de Hygiene de Leopoldina em 1929. Jornal Leopoldinense.

Essas unidades de saúde tinham como objetivo combater as endemias rurais, como a malária e ancilostomíase, prestar atendimento médico, além de promover, junto a população do campo, campanhas educativas, de higiene e de práticas sanitárias para prevenção de doenças.


Irineu Lisbôa (2) ao lado de Belisário Pena (1), em Pouso Alegre, na inauguração de um Hospital (1920-1921).















Na fotografia acima, autoridades e médicos posam durante a inauguração de um hospital no sul de Minas Gerais. Destacamos Belisário Pena e Irineu Lisbôa, reunidos em virtude da ocasião, e, certamente, pelo ideal comum que partilhavam em prol do saneamento das cidades e dos sertões do país.

Provavelmente muito do pensamento e da obra executada por Belisário Pena, enquanto médico e liderança do movimento sanitarista brasileiro, influenciaram Irineu Lisbôa e todo o trabalho que ele desenvolveu em Leopoldina e, posteriormente, em outras regiões do estado de Minas Gerais.

O doutor Lisbôa, em sua atuação profissional, investiu bastante na conscientização, como indica a fotografia a seguir, na qual o médico apresentava, durante um evento público, um carro alegórico com a representação do inspetor sanitário, em pé vestindo roupa branca, de um esqueleto, simbolizando a morte, e do inimigo do povo: o mosquito.


Cortejo carnavalesco, década de 1930: "Guerra ao Mosquito" - Educação para a Saúde. Jornal Leopoldinense



A alegoria do mosquito e a comemoração do carnaval na cidade, uma festa de grande apelo popular, eram muito favoráveis para a promoção da educação sanitária e a divulgação a toda a população da necessidade de se combater o mosquito e seus criadouros, a fim de evitar a proliferação de doenças.   

Sem dúvidas, o movimento sanitário contribuiu para amenizar os problemas básicos e estruturais das cidades e áreas rurais do Brasil, embora não os tenha solucionado em definitivo. Médicos-sanitaristas organizavam expedições de estudo e combate às doenças em todos os rincões do país.
O protagonismo médico alçou esses profissionais a um patamar social destacado, e muitos passaram a ocupar elevados cargos na administração pública, orientando as políticas sanitárias e higienistas.


Charge revela a revolta da população contra o médico Oswaldo Cruz e a vacina obrigatória.

Contudo, nem sempre as políticas sanitárias serviram aos ideais democráticos ou foram implementadas pela via do diálogo. As reformas urbanistas no Rio de Janeiro, seguida por uma campanha de vacinação obrigatória conduzida pelo médico Oswaldo Cruz, em 1903, são exemplos da arbitrariedade do Estado, que invariavelmente recorria a violência para intervir na sociedade.

Avaliação 

1. ENEM, 2022



23.1.15

Novo texto em nossa coluna do Tribuna do Povo

Está disponível no site do Tribuna do Povo nosso novo texto, no qual analisamos a memória da Praça da Bandeira a partir da observação de uma antiga fotografia. Para ler é só clicar na imagem abaixo, que você seguirá direto para o site.



O texto "Imagem e memória" também está publicado na edição impressa do Jornal Tribuna do Povo, Nº 664. Ano XXVII. 21 janeiro de 2015, o qual pode ser encontrado nas bancas de Leopoldina.

Boa leitura para você! 

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