Mostrando postagens com marcador Teoria da História. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teoria da História. Mostrar todas as postagens

24.2.19

Compreensão da História

O que é a História?

Os estudantes se perguntam o tempo todo sobre isso e sobre o porque estudar História. O conceito implica diversas definições e a resposta para a questão é complexa, variando ao longo do tempo e das diversas tendências historiográficas. Não existe uma resposta simples e fechada para essa pergunta, todos os historiadores podem contribuir para a construção dessa resposta. Vejamos algumas dessas contribuições:

Para o historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso (1942-2013) a História possui cientificidade. 
Resultado de imagem para ciro flamarion cardoso
Ao tratar de estruturas globais, como a economia, a sociedade e a cultura, áreas que estão sujeitas à regularidades que podem ser explicadas com métodos e conceitos a História lança mão de ferramentas que a tornam uma ciência. 

Já o historiador e filósofo norte-americano Hayden White (1928-2018), a História teria algo semelhante à Literatura, sendo incapaz de representar o real. 
Resultado de imagem para hayden white
Para ele, a disciplina valoriza a escrita e a narrativa, aproximando-se, assim, de um gênero literário.

E. H. Carr (1892-1982), historiador britânico, não oferece uma definição em absoluto sobre o que seja a História. Segundo ele, há variáveis, como a sociedade e o tempo, que influenciam a definição do que é História. Carr busca diferenciar fato e fato histórico
Resultado de imagem para e. h. carr
Segundo o estudioso britânico, o que separa um acontecimento comum de um fato histórico é a importância que o historiador atribui sobre um acontecimento: o fato histórico. O fato não fala por si, tudo depende da visão e da interpretação do historiador sobre o mesmo.

Outra definição interessante é do historiador francês, Paul Veyne (1930-), para ele a História não é uma ciência, mas também não é uma ficção.
Veyne argumenta que a História é narrativa, porém com personagens reais. Apesar de se basear em fatos e documentos, a História não consegue alcançar o real, uma vez que tanto os fatos quanto os documentos são parciais. A História é subjetiva, pois ela depende das escolhas de cada historiador.

Marc Bloch (1886-1944), historiador francês, define a história como a ciência do homem no tempo. Ele valoriza a interdisciplinaridade, isto é, a aproximação da história com outras ciências, como economia, sociologia etc, e defende o caráter científico da História. 

Resultado de imagem para marc bloch
Cabe ao historiador buscar a verdade e julgar os fatos.    

Eric Hobsbawm (1917-2012), historiador marxista britânico, foi um dos pensadores mais influentes de seu tempo. Para a ele, a História possui uma função política política. Segundo essa visão, o passado pode ser utilizado para legitimar ações no presente, como os conflitos étnicos e nacionalistas.
Resultado de imagem para eric hobsbawm uk

Nesse sentido, cabe ao historiador apontar e criticar o uso indevido da História, sendo necessário perceber a diferença entre fato e ficção.

Fonte Histórica


"... tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a herança material e imaterial deixada pelos antepassados que serve de base para a construção do conhecimento histórico" (SILVA, 2005, p. 158). 

As fontes ou documentos históricos são essenciais ao trabalho do Historiador, elas permitem a ele investigar e reconstituir o passado, buscando compreender como os grupos sociais  viviam e se relacionavam uns com os outros.

Herança ou Patrimônio imaterial


Segundo a UNESCO: "O Patrimônio Cultural Imaterial ou Intangível compreende as expressões de vida e tradições que comunidades, grupos e indivíduos em todas as partes do mundo recebem de seus ancestrais e passam seus conhecimentos a seus descendentes".  Para o IPHAN, os "bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas)".

A roda de Capoeira, por exemplo, foi inscrita em 2014 na Lista Representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade. 

Resultado de imagem para roda de capoeira
A capoeira é arte e luta, ao mesmo tempo, os capoeiristas cantam, batem palmas e tocam instrumentos de percussão. 

As práticas, celebrações e a transmissão dos saberes tradicionais fazem parte da identidade e da História das pessoas e dos locais onde vivem, por isso são preservados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, entre elas estão:



  • Modo artesanal de fazer Queijo de Minas nas regiões do Serro, da Serra da Canastra e do Salitre em Minas Gerais. As origens da técnica de feitura do queijo vieram de Portugal, mas em Minas Gerais adquiriram características próprias, segundo a realidade local.
O modo artesanal de fazer queijo de Minas envolve o processo de cura.

  • Saberes e práticas associados aos modos de fazer bonecas Karajá, povo indígena que habita em parte da região centro-oeste e norte do Brasil. O ensinamento da confecção de bonecas tem sido passado de geração para geração pelos Karajá, e sua prática está relacionada aos costumes e à cultura das mulheres indígenas dessa etnia.
REG_IMAT_GO_TO_Bonecas_Karaja_Indias_e_Bonecas

Veja mais exemplos de bens imateriais registrados no IPHAN clicando aqui.

Documentos ou fontes históricas materiais

São os vestígios e registros do passado, como fontes escritas, fontes iconográficas e fontes materiais. Vejamos.

ESCRITAS: Livros, jornais, certidões, testamentos, cartas etc.



ICONOGRÁFICAS: Pinturas, desenhos, fotografias etc.
Cafua



MATERIAIS: vestígios de construções, instrumentos, fósseis dentre outros.




Há também as fontes orais, que visam resgatar a memória de pessoas que vivenciaram fatos históricos. Tais fontes são importantes para auxiliar o historiador na reconstituição, na interpretação, preservação e registro dos acontecimentos mais recentes da História. Elas são obtidas por meio de entrevistas e tomada de depoimentos junto às agentes da História, isto é, aos indivíduos que fizeram parte do fato estudado.  



Bibliografia básica

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.


Avaliação 

1. ENEM, 2022.


1.3.16

Uma breve reflexão sobre o fazer do historiador

O grande historiador francês e um dos fundadores da célebre Escola dos Annales - Marc Bloch (1886-1944) - afirmou que a História é "a ciência dos homens no tempo" e que o seu objeto de estudo é, por natureza, o homem.




Para proceder ao estudo do homem e de suas ações no tempo, é imprescindível para o trabalho do historiador recorrer às fontes históricas. O eminente medievalista francês, Jacques Le Goff, ressalta a importância dos documentos na pesquisa histórica, evocando as palavras de Samaran, para quem "não há história sem documentos" e Lefebvre, segundo o qual "não há notícia histórica sem documentos". (História e Memória, 1990 p. 285).

Na Europa no final século XIX, a escola positivista determinava que as fontes, principalmente documentos escritos de caráter oficial, seriam determinantes para o trabalho do historiador. 




A respeito da manipulação do documento pelo historiador oriundo do método positivista, Fustel de Coulanges orientava que seu trabalho:


 "... consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm. O melhor historiador é aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos" (COULANGES, 1888 apud LE GOFF, 1990. p. 283). 

Nessa perspectiva historiográfica, o documento é tomado como prova irrefutável da verdade histórica, não comportando interpretações pessoais, o que sugeria uma pretensa neutralidade da história-ciência.

Ainda sobre historiografia da escola positivista é importante ressaltar que ela privilegiava o estudo da política, da história diplomática e militar, além da vida dos personagens ilustres, em detrimento de temas recorrentes que passaram a ser escrutados pelos pesquisadores dos Annales, a partir de 1929. Temas como a família, a morte, a cultura popular, a longa duração, a permanência de estruturas sociais e mentais ao longo do tempo foram eleitos pelos adeptos da "nova história" como os assuntos prioritários em suas pesquisas. 

A revolução historiográfica dos Annales contrapunha-se ao método positivista. A partir daí, a história não se dedicaria mais apenas à dimensão política, mas passaria a analisar todas as atividades humanas, em suas  vertentes culturais, sociais e econômicas. Para tanto, a escola francesa que fundou a "nova história" pregava a necessidade dessa disciplina recorrer à interdisciplinaridade, isto é, a colaboração de métodos e conceitos de outras ciências e ramos do saber, como a economia, a sociologia, a linguística e etc.




Além disso, a proposta dos Annales mudou radicalmente a noção de documento histórico, bem como a abordagem que o historiador deveria ter com relação às suas fontes de pesquisa.
Se antes os documentos escritos e oficiais eram fundamentais para o fazer histórico, agora essa noção havia sido dilatada, fazendo emergir outras fontes de pesquisa para o historiador. A esse respeito, Samaran deixa claro a necessidade de haver uma revolução documental, tal qual foi perpetrada pelos Annales: "Há que tomar a palavra 'documento' no sentido mais amplo, documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem, ou de qualquer outra maneira"  (SAMARAN, 1961 apud LE GOFF, 1990. p. 285). 

Após 1930, o escopo documental aumentou significativamente, basicamente, qualquer vestígio humano - material ou imaterial - tornou-se um objeto passível de ser estudado na metodologia proposta pelos Annales.




Outro aspecto que sofreu significativa transformação foi o tratamento dispensado pelo historiador em relação ao documento. Após 1929, o documento deixou de ser visto como um repositório da verdade histórica. Agora o historiador enxerga o documento como algo que deve ser investigado e questionado, além de ser relacionado com o seu contexto de produção. Era a história-problema. A crítica documental tornou-se um método fundamental para a compreensão da história e as fontes passaram a ser compreendidas como "um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder" (LE GOFF. op cit. p. 288). Cabe ao historiador se apropriar da realidade histórica, desmontá-la e, por meio da análise das fontes, dos indícios e da interdisciplinaridade compreendê-la. Importante ressaltar que, com o advento dos Annales, a pretensa neutralidade da história e do historiador foi severamente questionada. A esse respeito LE GOFF esclarece que: 


"A intervenção do historiador que escolhe o documento, extraindo-o do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da sua própria posição na sociedade da sua época e da sua organização mental..." (LE GOFF, op. cit. p. 289).

Portanto, o historiador e os documentos não são capazes de ficarem alheios às influências de seu tempo, por isso o estudo histórico exige rigor, na tentativa de desvelar os segredos e as intencionalidades que ficam sob o véu das fontes e dos acontecimentos. Mas a pesquisa histórica também exige flexibilidade do historiador, pois, segundo Marc Bloch, "a história não apenas é uma ciência em marcha. É também uma ciência na infância: como todas aquelas que têm por objeto o espírito humano" (BLOCH, 1944. p. 35).

Sendo a história uma ciência em marcha, ela está em constante mutação metodológica e seus meios de produção de conhecimento nem definiram métodos rigorosos, matematicamente estabelecidos, tampouco seus resultados são convergentes para uma única explicação. Bloch lembra que o "monismo da causa seria para a explicação histórica simplesmente um embaraço" (BLOCH, 1944. p. 111).
Ademais, modelos explicativos no sentido galileano já se mostraram insuficientes para dar conta das particularidades da história.
Mais do que fórmulas e metodologias rigidamente definidas, o campo da pesquisa em história continua em aberto, com amplas possibilidades para abordagens e estudos, num caminho que ainda está longe de ser totalmente explorado.  

Bibliografia básica

BLOCH, Marc. Apologia da História ou Ofício do historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

LE GOFF, Jacques. “Documento/Monumento”. In: História e Memória. Campinas, SP: Editora Unicamp, 1994.

Não deixe de ler

Leão XIV é o novo papa, mas alguns queriam uma leoa

Hoje, assistindo a um programa de discussões políticas no YouTube, havia comentaristas defensores de pautas da "esquerda identitária...