30.9.17

Diário de Ywesky Borislav

Página II 

Escolas que não funcionam, de quem é a culpa?

Certa vez, enquanto parei numa venda de secos e molhados, pedi um refresco e um pouco de toicinho e fiquei a ouvir a conversa de um lente local com o dono do estabelecimento. Não que quisesse ouvir, mas o tom elevado de suas lamúrias faziam-nas serem escutadas por quem estivesse por perto. Ademais, o assunto era tão sério que resolvi registrá-lo em minha brochura.
O mestre reclamava da falta de recursos do educandário, da demora em obter da administração materiais simples para o seu trabalho, desde o giz para quadro negro à folhas de papel almaço para os discentes realizarem trabalhos e pesquisas.
Ele contou que ao solicitar de seu superiores as folhas, fizeram-no mil perguntas e falaram que enviariam a requisição para a superintendência de apoio. Parecia bom, pois o professor receberia o que pedira. Contudo, depois de passar pelo crivo daquele órgão a ordem com a solicitação havia sido encaminhada à subsecretaria de controle orçamentário, para liberação ou não de recursos, depois de examinada, retornaria para o Apoio, que destinaria a permissão à escola para adquirir o produto. Resultado: um semestre perdido com a tramitação da papelada de um lado para o outro.
_Pra quê tanta repartição pública? Indagou o dono da loja.
_Ora, respondeu o educador, para servir de cabide de emprego! O governo eleito tem que encaixar seus asseclas nos órgãos públicos como retribuição e para assegurar votos nas futuras eleições. Explicou o mestre, deixando o lojista com a pulga atrás da orelha.

E não parou por aí, o professor reclamava do salário, falava que mal dava para sustentar sua esposa e suas quatro filhas. Dizia que as mulheres eram caras demais e a sua remuneração uma ofensa à quem estudara tanto e se dedicava à cuidar da formação de vidas humanas, de homens e de mulheres. 

Quando parecia que as lamentações iriam cessar, o docente enrolou um pouco de fumo de rolo num pedaço de palha, acendeu o pitinho e continuou a resmungar:

_E o que dizer do serviço interno? Ninguém na escola respeita ninguém. A maioria dos pais e seus filhos, os alunos, se  preocupam apenas em estar pela escola e não em viver a escola. Perde-se mais tempo preenchendo formulários e ouvindo bobagens em reuniões infrutíferas do que com o ato de ensinar. Nem vou lhe contar da carga horária sobre-humana que exigem de nós, tampouco falarei da  infra-estrutura ou da ausência dela...  
_Mas e os diretores e os supervisores e os coordenadores e os fiscais e o pessoal do apoio e etc e etc? Foi a pergunta do comerciante.
_São apenas nomes bonitos para cargos pouco úteis...  Acho que farei como um de meus companheiros docentes, vou comprar uma granja, importar galinhas Wyandotte e começar o meu próprio negócio, quem sabe não faturo mais do que tentando ensinar para as paredes?! Emendou o professor.
Depois disso ele pediu uma dose de aguardente e foi-se, antes disse que iria ao boticário, pois o mesmo lhe receitaria um tônico para curar as fortes dores de cabeça que o mestre sentia quando deixava o trabalho.

Eu conclui que a escola adoeceu aquele pobre homem e, que ele sozinho, não daria conta de se opor a uma engrenagem tão pesada quanto a burocracia da política educacional. Ou você nada a favor da corrente ou morre afogado. O drama que acabara de ouvir também me fizera recordar de um estudo bíblico realizado no mosteiro, a luta de Davi contra Golias. Se nas escrituras Davi derrotou o gigante, na vida real as chances disso ocorrer eram bem menores.       

Memorial homenageia vítimas da Ditadura Militar


Os restos mortais dessas pessoas foram descobertos em uma vala comum, encontrada em 1989, nela há 1.049 ossadas sem identificação.

Para conhecer mais sobre os mortos que foram identificados, os quais foram vítimas da repressão do regime militar, clique na fotografia e será redirecionado para a matéria completa no site UOL. 

28.9.17

Para que serve o historiador?

O historiador é o profissional, graduado em História com conhecimentos teóricos e metodológicos, para pesquisar o passado e escrever sobre os eventos históricos, interpretar fontes de variados tipos (documentos escritos, imagens, vestígios arqueológicos, entrevistas com pessoas que vivenciaram acontecimentos históricos etc) e, inclusive, identificar o impacto dos fatos pretéritos nos dias atuais.

Em 2009, foi sancionada uma lei que estabeleceu a data 19 de agosto como o dia nacional do historiador. A data foi uma homenagem ao intelectual e abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910).




Muitos acreditam que o historiador cuida apenas de coisas velhas, papéis antigos e livros empoeirados. Entretanto, essa visão é um grande engano, pois o campo de atuação e pesquisa do profissional de história vai além de arquivos e bibliotecas. Tudo ao nosso redor tem uma história para ser descoberta e contada, como o nome de uma praça, uma estátua que homenageia determinadas pessoas, em suma, a sociedade do tempo presente como um todo em suas múltiplas representações e configurações podem ser objeto de estudo do historiador! Logo, esse profissional pode atuar em vários setores, tanto no público, como instituições de ensino e de pesquisa, quanto no privado, organizando arquivos e resgatando a memória de empresas.




Imagens do projeto "Jovens historiadores", desenvolvido no CIEP 280 - Carmo (RJ), em 2015.

Como vimos, o papel do historiador é extremamente importante para a preservação do passado, da memória e mesmo para a compreensão do presente. A história está intimamente conectada com a identidade dos diversos grupos sociais e do país, como um todo. Por exemplo, a identidade de uma aldeia indígena ou de uma comunidade quilombola ou mesmo de um determinado bairro da cidade que preserva algumas tradições, como festas e celebrações populares. É a história que identifica a origem desses fenômenos sócio-culturais e explica sua manutenção até os dias de hoje.

Mas o papel do historiador não para por aqui, sua função social é por demais complexa e não se limita jamais à catalogação de nomes e datas. 


Ciro Flamarion S. Cardoso (1942-2013)

O renomado historiador e professor Ciro Flamarion Santana Cardoso (1942-2013), em sua obra Uma introdução à história, nos ensina que 

"o historiador brasileiro tem um compromisso ineludível com a sociedade na qual vive e age. O seu papel é o de pôr as suas capacidades profissionais a serviço das tarefas sociais que se impõem à coletividade da qual forma parte" (CARDOSO, C. F. S. Uma introdução à história. São Paulo: Brasiliense, 1992, p. 123).

Logo, o profissional da história não pode deixar de exercer sua função social, que é o de adquirir ferramentas teóricas e metodológicas para desconstruir a velha história, a qual construía narrativas de heróis, patriotismo e mitos que serviam aos interesses conservadores da sociedade, substituindo-a pela "história-problema", que faz indagações, aponta hipóteses, investiga várias fontes e desconstrói mitos.

Nesse caso, pergunta o professor Ciro Cardoso sobre a missão e a tarefa do historiador: "Haverá alguma dúvida a respeito de tais tarefas num país dependente e marcado por desiquilíbrios e injustiças sociais tão flagrantes?" (Op. Cit. p. 123).  


Além disso, Eric Hobsbawn ressalta que no século XXI, o papel social do Historiador torna-se ainda mais relevante, pois entre a geração atual, com o advento das transformações culturais e tecnológicas, criou-se a noção de "presente contínuo". 

Os jovens acreditam que o agora não tem nenhum vínculo ou conexão com o passado. Pois estão muito enganados, basta historiar as práticas presentes que encontraremos suas raízes no passado. Não foi à toa que Marc Bloch (1944) sustentou a ideia, segundo a qual  a história é a ciência do homem no tempo. Assim, mesmo com a passagem dos anos os costumes, as instituições, as crenças e certos ritos permanecem inalterados ou se readaptam às novas realidades. E quem melhor do que os Historiadores para revelar a existência das permanências ou apontar as mudanças e à quais ordem ou interesses elas atendem?

Portanto, podemos concluir que o historiador é um profissional valioso para a sociedade, ele nos ajuda a lembrar o que não deve ser esquecido e que é por demais precioso para a humanidade, nossa identidade, nossa origem e os apontamentos futuros.

Dicas de Aplicativos que ajudarão a manter o seu cérebro em bom funcionamento!



Servidores da educação de Minas Gerais receberão o benefício do ADVEB

Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais divulga lista de nomes dos servidores que terão o direito de receber o AVEB (Adicional de valorização da Educação Básica).

Confira a lista clicando aqui.

Memórias de Ywesky: parte I

Meu nome é Ywesky Borislav (? - 1990), não sei minha data de nascimento, pois fui enviado ao Brasil às pressas, ainda era bebê e não tinha completado nem o meu primeiro ano de idade, enquanto a Europa ardia com as chamas da Grande Guerra, que terminou em 1918. Nada sei a respeito de meus pais. Eles me deixaram apenas um cordão com meu nome gravado numa esfera de cobre. Ao desembarcar no porto do Rio de Janeiro, fui acolhido por monges que me levaram para o mosteiro de São Bento, onde fui alfabetizado, aprendi o credo, a ler, escrever e contar, estudei latim e noções de ciências. Junto com os demais internos, lavrávamos a terra e cuidávamos dos animais. Também descobri com meus mestres que meu originário de países eslavos, Bulgária possivelmente. Como estava bem ambientando neste país tropical, jamais tive interesse de retornar à Europa e buscar por minha família e, pelo visto, se meus parentes estão vivos nunca deram notícias de sua existência ou preocupação a meu respeito.

Quando completei dezoito anos, por volta de 1936, resolvi deixar o mosteiro e saí a vagar pelo interior do Rio de Janeiro. Fui para a região Serrana buscar emprego e vida tranquila, sem a agitação doentia da capital e também para afastar-me do calor escaldante. Desejava respirar novos ares, e fui buscar o frescor nos morros e serras do interior.  Também conheci o interior de Minas Gerais, uma área de fronteira entre os dois estados brasileiros que visitei.
Não constituí família e não permanecia muito tempo no mesmo lugar. Eu não tenho parentes, mas não queria deixar este mundo sem algum registro de minha estada por aqui, então resolvi escrever um diário com minhas observações sobre esta terra exótica e sua gente mestiça, alegre e tão singular. Eis minhas anotações sobre as andanças que fiz entre Rio e Minas no Século XX, registradas num velho caderno de folhas amareladas, onde ora escrevia com tinta e pena ora com lápis preto. Apesar de meu diário ser grafado por um escritor sem nenhum talento, torço, após minha partida, para que ele chegue às mãos de um leitor e produza nele algum efeito, desprezo, irritação, paixão, compreensão ou talvez mudança.

Parte I - Uma nação sem educação

As escolas brasileiras (isto é, as do interior de Minas e do Rio, que foram os locais pelos quais passei e onde vivi a maior parte de minha vida) são bem problemáticas, embora o país tenha grande educadores e mestres que pensam a nação a partir de projetos educacionais, dentre eles Anísio Teixeira (1900-1971), Paulo Freire (1921-1997) e Darcy Ribeiro (1922-1997). Em comum, além do fato de serem educadores, esses três pensadores queriam promover uma transformação da realidade do país através da educação das crianças e dos adultos. Paulo Freire, por exemplo, desenvolveu um método específico para alfabetizar homens  e ensiná-los a fazer a leitura do mundo, pois esta precede a leitura da palavra.
Coitado, Paulo Freire foi acusado de subversão pelo regime militar e teve que deixar o país para não ser preso, só porque defendia uma pedagogia da libertação, que pusesse fim nas amarras da ignorância.
O pior de tudo era ver o silêncio da população que não lutava e que aceitava a tirania pacificamente. Deve ser por isso que um pensador brasileiro disse que seu povo se assemelhava a ovelhas que se deixavam tosquiar pelos poderosos.
Teixeira e Freire defendiam a escola integral, visando formar o indivíduo em sua totalidade, com a mescla de teoria e prática por meio de oficinas. O empreendimento também não deu certo. Parece que os políticos brasileiros sempre arranjavam uma forma de não implementar as grandes teorias tal como se deveria, sempre alegavam falta de dinheiro para justificar o pouco cuidado que o governo dispensava ao povo. Agora some o descaso político com o desinteresse do povo e dos professores, o produto disso é uma nação em frangalhos, que estava por ser construída, mas com qual perspectiva? Qual era a real face deste país e de sua gente?
Eu me perguntava como um país pode esperar ser uma nação se o Estado não assegura direitos mínimos para o seu maior patrimônio, que é sua gente, e não lhes permite uma escola com algum padrão de qualidade?

Até esse momento, em minha primeira juventude, não obtive uma resposta satisfatória para essas questões e não encontrava o porquê de os governantes obliterarem as melhores mentes do país para implementar planos educacionais conservadores, mecanicistas, que não promovem nem a inclusão e nem a cidadania, senão um culto cego à pátria. Mas o que o futuro reservaria ao povo desta nação? Eu ainda não tinha solução para essas indagações que tomavam a minha mente enquanto eu viajava e observava a realidade ao meu redor.

Observação: Essa é a primeira página do meu diário, escrita nos anos 1930, mas eu a atualizei, passei-a a limpo, por volta de 1980.

25.9.17

Artigo publicado no site do jornal Leopoldinense

Clique sobre a imagem para ler no site ou leia no arquivo mais abaixo:



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