24 de novembro de 2017

Novos rostos, antigas práticas: a política de higienismo nas capitais brasileiras

A gestão do prefeito João Doria (PSDB) em São Paulo está mesmo disposta a interferir na sociedade, afim de alterar alguns costumes que considera impróprios. Depois da polêmica que envolveu a remoção dos grafites das paredes e ruas da cidade sob o pretexto de deixá-la mais bela, o prefeito pretende penalizar quem urinar nas vias públicas ou em espaços privados.


Por meio de uma portaria, a prefeitura estabeleceu multa de R$ 500,00 para o cidadão que for flagrado fazendo xixi em prédios e monumentos públicos. 

Doria tem um perfil semelhante, guardadas as devidas diferenças temporais, ao do antigo prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos, que administrou a cidade de 1902 a 1906. A exemplo de Doria, Passos não era um político tradicional, era engenheiro, tinha ampla formação técnica e acadêmica no seu setor e também atuou como empresário. No setor privado, fornecia madeira para construção de grandes obras e casas no Rio de Janeiro. Já a formação intelectual de Doria parece ser bem mais modesta que a de Passos, apesar disso há semelhança no fazer político destes dois personagens da história nacional.  Pereira Passos não disputou eleição, ele fora indicado ao cargo de prefeito pelo presidente da república Rodrigues Alves, pois Passos tinha ampla rede de contatos e havia estudado na Europa, onde acompanhou de perto a remodelação de Paris.

Passos em seu gabinete (1906).

A frente do executivo, Passos tinha como principal objetivo modernizar e embelezar o Rio de Janeiro, visando transformar a cidade na "réplica tropical de Paris". Além de melhorias urbanas, Pereira Passos atacou os hábitos da população baixando várias proibições, como:

"Proibiu cães vadios e vacas leiteiras nas ruas; mandou recolher a asilos os mendigos; proibiu a cultura de hortas e capinzais, a criação de suínos, a venda ambulante de bilhetes de loteria. Mandou também que não se cuspisse nas ruas e dentro dos veículos, que não se urinasse fora dos mictórios, que não se soltassem pipas" (BENCHIMOL apud CARVALHO, 2006, p. 95).

As elites cariocas elogiaram o trabalho de Pereira Passos, que também promoveu o "bota-abaixo", demolindo cortiços, substituindo-os por avenidas e bulevares, expulsando os mais pobres para os morros. Ao final do seu governo, o prefeito era bastante impopular, criticado pelo autoritarismo com o qual ele conduzira as reformas urbanas na então capital da república.

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